segunda-feira, 9 de maio de 2011

Informações levantadas pelo tablóide britânico Daily Mail afirmam que os funcionários das fábricas chinesas da Foxconn estão sendo obrigados a assinar um “termo de não-suicídio” para continuarem trabalhando na empresa.
Conhecida por montar gadgets para gigantes como HP, Nokia Dell e Apple, nos últimos tempos a companhia se tornou destaque na imprensa internacional também pelo número de suicídios entre os membros de força de trabalho – 13 mortes num período de 12 meses.
Segundo dados da publicação, a prática foi descoberta pelo Sacom (Centro de Pesquisas sobre Empresas Multinacionais e Estudantes Contra o Mal Comportamento Corporativo, sediado em Hong Kong) que depois de uma investigação diz ter se deparado com “condições terríveis” de trabalho, como “humilhações públicas”, falta de proteções contra químicos e jornadas semanais de 80 a 100 horas de trabalho, sem parada para refeições.
A Sacom diz que a “Foxconn falhou em suas promessas de melhorar as condições para os trabalhadores” e diz que a planta de Chengdu, que produz apenas aparelhos para a Apple, “é a mais problemática”.
De acordo com o órgão, um dos termos do “acordo” é que “em caso de ferimento não-acidental (incluindo mutilação e suicídio)”, o funcionário concorda que “a empresa agiu corretamente e de acordo com as leis e regulamentos pertinentes e que não irá tomar medidas legais que poderão prejudicar sua reputação ou normas operacionais”. “Todas essas práticas refletem que o gerenciamento humano dos trabalhadores da Foxconn é apenas um slogan”, completa.
Nos últimos tempos a Foxconn foi festejada por aqui ao anunciar a instalação de uma unidade produtiva no Brasil, destinada à produção do iPad.

WUXIA CINEMA-10/05 20/05-CCSP

Wuxia é um gênero chinês de ficção sobre romances e aventuras com artes marciais. Tradicionalmente, nasceu como gênero literário e estendeu seu sucesso para outros meios de expressão artística, como televisão, quadrinhos (manhua), óperas e cinema. Diferente dos tradicionais filmes de kung fu chineses, o cinema Wuxia insere alguns elementos românticos e tradicionais às narrativas, tirando um pouco o foco da ação e da luta coreografada, dando mais atenção a roteiro, fotografia e trabalho com atores, trabalhando em proporções épicas, tradições, lendas e o folclore chinês. A mostra Wuxia Cinema traz os filmes mais representativos do gênero e alguns equivalentes ocidentais que tentam retrabalhar os elementos do Wuxia dentro da cultura ocidental.
Taxa: R$1,00 - retirada de ingressos: na bilheteria (terça a domingo, das 10h às 22h), somente na semana de exibição de cada filme
Sala Lima Barreto (100 lugares)

ENCONTROS DO CEO

13/05, SALA 500A, 13:00
Os moradores que fugiram das imediações da central nuclear de Fukushima, no nordeste do Japão, são recusados pelos centros de acolhida, pelo temor de que estejam contaminados por radiação e prejudiquem outras pessoas.
Os que tiveram que deixar suas casas, suas fazendas, seus animais, em razão da crise na central Fukushima Daiichi (N°1), precisam de um certificado oficial provando que não estão contaminadas para que possam entrar nos centros de acolhida de desabrigados.
Os equipamentos de detecção de radiação instalados na entrada dos locais tornaram-se postos de controle que dão acesso a um lugar para dormir ou mesmo para que recebam cuidados médicos, mesmo que os especialistas afirmem que as pessoas que deixaram as áreas afetadas não representam risco algum para as outras.
"A menos que não sejam funcionários da central, as pessoas comuns não são perigosas", explicou Kosuke Yamagishi, do departamento médico da Prefeitura de Fukushima.
"As pessoas estão simplesmente muito preocupadas e, infelizmente, isso pode levá-las a uma discriminação", declarou à AFP.
Uma menina de oito anos originária de Minamisoma, localidade situada a vinte quilômetros das instalações atômicas, foi recusada por um hospital da cidade de Fukushima porque ela não tinha certificado de não radioatividade, indicou o jornal Mainichi.
Mas os responsáveis pelos centros de evacuação mantêm suas instruções.
Todas as pessoas que moram em um raio de 30 quilômetros em torno da central "devem apresentar um certificado", afirmou um deles. "Se elas não tiverem, devem ser submetidas a um exame no local."
"Isso é feito para que as outras pessoas retiradas dos locais de risco se sintam seguras", acrescentou ele, que se recusou a se identificar.
O episódio reavivou as lembranças de discriminações sofridas pelos "hibakusha" -- sobreviventes dos ataques americanos com bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki -- que foram discriminados devido ao medo de que contaminassem outras pessoas.
Os certificados foram fornecidos pelo governo da Prefeitura de Fukushima.
Dezenas de milhares de pessoas foram obrigadas a deixar uma área de 20 quilômetros de raio em torno de Fukushima Daiichi ou a se confinarem em suas casas em uma área de mais 10 quilômetros.
O governo, que elevou na terça-feira de 5 para 7, o grau máximo, o nível de gravidade do acidente de Fukushima, acrescentou cinco localidades no plano de evacuação, incluindo algumas situadas além dos 30 quilômetros.
Um assessor do governo do primeiro-ministro Naoto Kan, Kenichi Matsumoto, declarou à imprensa que a região em torno da central de Fukushima poderá permanecer inabitável durante 10 ou 20 anos.
Kenji Sasahara, que dirige um centro de detecção em Minamisoma, declarou que muitas pessoas que deixaram o local sentiram-se ofendidas por terem que apresentar um certificado.
"De mais de 17.000 pessoas examinadas, nenhuma representava risco, a não ser três funcionários da central", indicou. "As pessoas estão furiosas. Minamisoma tem agora a imagem de uma cidade contaminada", disse à AFP por telefone.
A desconfiança se estende mesmo para além da região. Uma moradora da Prefeitura de Fukushima escreveu em seu blog que um hotel da Prefeitura de Saitama, ao norte de Tóquio, tinha se recusado a receber ela e sua família.
"Mesmo quando eu expliquei que não vínhamos de uma área de evacuação, o receptionista do hotel respondeu: 'vocês não podem ficar aqui se vocês não têm provas de que não são hibakusha'."
Desde quando Deng Xiaoping sinalizou em 1978 que não era ruim ficar rico, grande parte da China pareceu voltar-se para essa meta. Mas alguns governos estaduais gostariam que aqueles que tiveram sucesso não ficassem acima dos outros, ao menos no que diz respeito às últimas homenagens.
Desde o mês passado, os cemitérios desta megalópole montanhosa no Centro-sul da China, os enterros modestos estão em voga. As tumbas rebuscadas estão fora.
Os lotes para cinzas são limitados a 1,5 metro quadrado e as lápides não podem ter mais que 1 metro, apesar de não estar claro se este limite será fiscalizado.
Aqueles que vendem lotes de tamanho superior foram advertidos de multas severas, até 300 vezes o preço do lote.
“Pessoas comuns que passam e vêem essas tumbas luxuosas podem não conseguir segurar suas emoções”, disse Zheng Wenzhong, quando visitou o local de descanso relativamente modesto de um parente no cemitério do Templo da Lamparina Acesa.
Isso é aparentemente o que muitas autoridades temem. Após um quarto de século no qual a distância entre ricos e pobres aumentou gradativamente, os excessos dos abastados são cada vez uma preocupação do governo chinês.
A desigualdade de renda na China, pelo padrão chamado coeficiente Gini, agora está comparável à de alguns países da América Latina e África, de acordo com o Banco Mundial. Justin Yfu Lin, economista chefe do banco, no ano passado identificou a disparidade crescente como um dos maiores problemas econômicos da China.
Li Shi, professor de economia na Universidade Normal de Pequim, disse que em 1988 a renda média dos 10% mais afluentes era cerca de 12 vezes a dos 10 % mais pobres. Em 2007, os 10% superiores recebiam 23 vezes mais aos 10% da base.
As soluções de longo prazo da China para a discrepância incluem reformas de mercado, programas mais fortes de seguridade social, impostos reduzidos para famílias de baixa renda e controles mais rígidos para a renda ilícita. Mas enquanto Pequim não implementa suas políticas, os governos locais estão buscando formas de disfarçar a diferença.
Uma regra divulgada no mês passado no site da Administração para Indústria e Comércio de Pequim, por exemplo, proibiu propagandas promovendo tendências “insalubres”, que incluem: “hedonismo, feudalismo e realeza, adoração de coisas estrangeiras, aristocracia suprema e gostos vulgares”.
Segundo Li, as medidas regulando propagandas de luxo ou tumbas podem “aliviar, até certo ponto, o ódio geral contra os ricos”, mas essencialmente não são mais do que fracas substitutas. Ainda assim, Chen Changwen, diretor do departamento de sociologia da Universidade de Sichuan, disse que via o mérito em evitar o conflito social.
“É claro que não podemos mudar o fato de haver disparidade entre ricos e pobres, mas ao menos podemos diminuir o impacto dela sobre a sociedade e a propaganda”, disse ele. “Muitas pessoas não conseguem suportar as formas extravagantes desta primeira geração de ricos. Realmente irrita o público.”
Tumbas ostentadoras são particularmente repugnantes, disse ele, porque para muitos chineses qualquer lápide está além de seus meios. Em uma demonstração da frustração ampla, há uma expressão para designar uma pessoa que luta para pagar os custos de um funeral: “Escravo de enterro”.
“Há muitos exemplos de como os ricos podem pagar para enterrar seus mortos, mas o homem comum não consegue. Isso deixa muitas pessoas muito revoltadas”, disse Zheng Fengtian, professor de desenvolvimento rural na Universidade Renmin de Pequim.
Um exemplo espetacular ocorreu no mês passado em Wenling, cidade costeira de cerca de cinco milhões de pessoas ao sul de Xangai. Cinco irmãos usaram as terras de uma escola de ensino médio para dar adeus a sua mãe, com pompas de um funeral de Estado.
Milhares de pessoas assistiram a cerimônia que tinha nove limusines enfeitadas com flores, uma banda uniformizada e salvas de tiros com 16 armas. Um dos irmãos disse ao repórter que a mãe queria ser enterrada com “estilo”.
Em agosto último, porém, Wenling aprovou uma lei contra a “extravagância e desperdício” nos funerais. A lei limita o número de carros e de coroas de flores e proíbe procissões por escolas e hospitais. O diretor da escola, o vice-diretor e o diretor de práticas fúnebres da cidade foram demitidos, de acordo com a mídia, e a família foi multada em US$ 450 (em torno de R$ 750).
Na província de Hunan, no Sul, as autoridades começaram a investigar no ano passado um cemitério privado com 67 degraus levando a uma “pagoda”, construída pela família de um ex-funcionário do governo, após a mídia ter comparado a tumba com um sepulcro imperial. E em 2009, as autoridades determinaram a derrubada de um mausoléu em uma aldeia perto de Chongping, no centro da China, após um jornal local comparar seu tamanho com o de uma quadra de basquete.
Os preços crescentes lançaram uma luz pouco enobrecedora na indústria de enterros na China. Zheng, professor da Universidade Renmin, disse que os governos locais em parte eram culpados pela inflação porque eles limitavam a competição.
A maior parte dos cemitérios é controlada diretamente pelo governo, disse ele; o resto depende de licenças do governo, que é proprietário da terra. A Secretaria Estadual de Assuntos Civis disse no ano passado que o governo local administrava 1.209 cemitérios, 853 unidades de administração funerais e cerca de 7.000 funcionários.
“Eles controlam tudo, seja rejeitando novos projetos ou aprovando muito, muito poucos”, disse Zheng.
No papel, os enterros baratos são a política nacional desde ao menos 1997, quando o Decreto 225 determinou que a terra de cemitério fosse conservada e que “arranjos funéreos simples” fossem promovidos.
O maior cemitério de Chengdu, o Pinheiro da Longevidade, aparentemente não recebeu esse memorando.
Na “seção artística”, sobre morros de árvores da paz em flor, fileiras e fileiras de túmulos enormes são enfeitadas com garanhões de pedra, livros gigantes abertos e mesas e bancos de granito.
Em recente manhã, Zhou Dongmei, diretora de vendas, cuidadosamente afastou os dois visitantes para longe dessa seção para as séries de lotes com lápides simples e menores que são vendidos por uma fração do custo. “Esse é o único tipo de lote que vendemos agora”, disse ela, acrescentando: “É um processo para as pessoas aceitarem isso.”
De fato, a maior parte dos moradores de Chengdu entrevistados expressou dúvidas quanto aos limites dos túmulos. No cemitério do Templo da Lamparina Acesa, Kuang Lan, 42, disse: “Minha opinião pessoal é que se você tem dinheiro para fazer um tumulo maior, então faça. Se não, faça um menor.”
Mas Yang Bin, 48, que ganha em torno de US$ 150 por mês esculpindo lápides no cemitério de Zhenwu Shan, criticou os excesso dos “capitalistas” que “estão em toda parte agora”.
“Os chineses são assim”, disse ele, após descer o forte declive do cemitério com seus finos sapatos de pano preto. “Quando têm dinheiro, querem se mostrar. Se não têm, têm que trabalhar”.
Bicicletas temerárias, caminhões carregados de volumes mal equilibrados, motos sobre as quais famílias inteiras passam, encarapitadas : tanto durante o dia quanto à noite, a estrada que liga Daca ao norte do país é sempre movimentada. De ambos os lados do calçamento irregular, mulheres e garotas caminham ao logo da estrada Nacional 3, com um passo regular e resignado que lembra uma procissão religiosa. As filas inteiras por elas formadas mergulham em terrenos no meio dos quais se erguem, mais parecendo formigueiros gigantes, as fábricas de confecção.
Todas as manhãs, três milhões de pessoas percorrem essa estrada, a das quatro mil fábricas que formam o cinturão industrial da capital. Mais de três quartos dessas pessoas são mulheres : ponteadoras, cortadoras, costureiras, encarregadas da manutenção... Mão de obra barata, as operárias de Bangladesh aguçam o apetite das grandes marcas têxteis e da distribuição ocidentais. Wal-Mart, H&M, Tommy Hilfiger, GAP, Levi Strauss, Zara, Carrefour, Marks & Spencer… ou levaram suas unidades de produção para lá, ou fazem ali suas compras.
O setor têxtil, que se caracteriza por uma industrialização mínima e um investimento humano maciço, é um dos pilares econômicos da Ásia de Leste. Foi assim que inúmeros países da região deram início à sua fase de industrialização. Bangladesh começou já nos anos 1970, antes do boom do setor de vestuário, nos anos 1990. As primeiras mulheres que trabalharam no setor eram as divorciadas, as repudiadas, as viúvas. Com os filhos no colo, elas fugiam da miséria da zona rural, com destino a Daca. Em situação precária, sem qualquer tipo de rendimento, elas já não tinham receio de enfrentar as recriminações dos meios mais tradicionalistas, que viam nesse êxodo rural um risco para as estruturas de uma sociedade patriarcal e muçulmana. Depois delas, outras mais se seguiram : as que sonhavam com um futuro melhor, as que queriam escapar de casamentos arranjados, as que desejavam poder oferecer aos filhos uma educação... Assim, as fábricas de confecção participaram da reestruturação da sociedade, por meio da emancipação das mulheres mais pobres. E se nos anos 1970 as operárias eram mal vistas, depois a tendência se inverteu : hoje elas é que ditam as condições do casamento e dispõem de um dote.
A crise econômica afetou duramente muitos países exportadores de artigos têxteis do setor de vestuário, mas Bangladesh passou sem um arranhão por essa fase. Zillul Hye Razi, conselheiro comercial da Delegação da União Europeia em Bangladesh, explica que “ a reação de muitas empresas foi se implantar em Bangladesh, pois ali a mão de obra é das mais baratas do planeta ”. Os salários são mantidos no nível mais baixo possível, e o fato de a grande maioria dos funcionários serem mulheres está ligado a isso.
Bangladesh é o terceiro país fornecedor da União Europeia (EU), no setor têxtil - vestuário, depois da China e do Vietnã, e já passou à frente de seu colossal vizinho, a Índia. O setor se desenvolveu a ponto de representar 13 % do PIB (Produto Interno Bruto) e 80 % das exportações. A Campagne Vêtements Propres1recenseou cerca de 6,5 bilhões de euros de roupas exportadas entre junho de 2005 e junho de 2006. Um verdadeiro maná, para esse pequeno país do qual os deuses se esqueceram : a densidade populacional é das mais elevadas do mundo, num território minúsculo (147 570 Km2), que não conta com os recursos naturais da vizinha Birmânia, e que além de tudo está voltado para a Baía de Bengala, que é periodicamente varrido por ciclones. As turbulências ambientais provocaram o êxodo rural e a explosão urbana, com a pauperizaçao e a insegurança inevitavelmente decorrentes. Espremido por dois gigantes que o esmagam, Bangladesh não tem confiança no futuro. Quanto aos políticos, eles tratam de enriquecer o quanto podem, antes que o navio afunde : a International Transparency2classificou Bangladesh como um dos países mais corruptos do mundo.
Essa incúria do governo pesa enormemente sobre a população, da qual 40 % vivem na linha de pobreza3– com 1,25 dólar por dia –, o que relega o país à 146ª posição, dentre 182 países, no índice de desenvolvimento humano4. Um profundo mal-estar tomou conta da população. Prova disso são os frequentes movimentos de protesto que têm sacudido o país. As revoltas de 2008 contra a fome foram das mais marcantes. Os operários e operárias do setor têxtil – cerca de 40 % da mão de obra industrial – se insurgem regularmente, revoltados com a distorção entre os salários que recebem e os ganhos embolsados pelos fabricantes e pelos exportadores, protegidos pela Associação dos Produtores e Exportadores de Vestuário de Bangladesh. As últimas manifestações, desencadeadas em 2010, mobilizaram cerca de cinquenta mil trabalhadores. Prolongando-se por meses e meses, elas irrompem intermitentemente. Sistematicamente reprimidas pelas Forças Armadas, elas já provocaram dezenas de mortos e centenas de feridos.
Os trabalhadores exigiam um aumento de salário para passar a receber 5 000 takas (51 euros) por mês, contra os 1 662 takas (17 euros) habitualmente pagos, a fim de compensar a inflação que atinge os produtos de primeira necessidade. A título de comparação, no Vietnã os operários recebem no mínimo 75 euros, e na Índia eles ganham 112 euros5. Além disso, os manifestantes reclamam ainda o respeito à lei trabalhista : um dia de descanso semanal remunerado, licença maternidade, justa remuneração das horas trabalhadas e das horas-extras, respeito aos direitos sindicais etc.
Reena está aflita. Suas mãos torcem o tecido colorido de sua khamiz – longa túnica usada com um salwar, uma calça bufante. Ela marcou encontro conosco à noite e pede para permanecer anônima. Ela conta : “ Desde os 12 anos, eu trabalho das 8 horas da manhã até meia-noite. Recebo 2 600 takas por mês (miseráveis 27 euros), e com isso preciso sustentar minhas três filhas, meus sogros e meu marido, que não tem trabalho regular. E ainda preciso entregar 50 takas ao supervisor, para que ele me deixe tranquila, pois esses empregos são muito cobiçados. ” A carga semanal de trabalho chega a oitenta horas, ao passo que a lei determina quarenta e oito, com um dia de descanso. Quando temos de atender ao rush dos pedidos das grandes marcas estrangeiras, debruçados sobre as máquinas os funcionários são obrigados a cumprir jornadas de dezessete, dezenove horas seguidas de trabalho ; essas horas suplementares, que muitas vezes nem são pagas, quase sempre são compulsórias.
Se num primeiro momento a primeira-ministra Sheikh Hasdina expressou diante do Parlamento sua preocupação com os trabalhadores do setor têxtil, mostrando-se indignada com seus salários “ insuficientes ”, e até “ desumanos ”6, na fase seguinte o tom endureceu, quando esses mesmos trabalhadores se recusaram a voltar às fábricas, depois do anúncio do aumento concedido dentro do quadro do acordo de 29 de julho de 2010. A pedido do patronato, ela ordenou que o exército pusesse fim “ à anarquia e às degradações ”. Os industriais alegaram não poderem atender às demandas salariais, argumentando que Bangladesh não é capaz de oferecer a mesma competitividade que os outros gigantes do setor têxtil – o Vietnã e a China –, em razão do custo de produção bem mais elevado : falhas de fornecimento de energia elétrica, carências de infraestrutura e transportes... que, afinal, acabam recaindo sobre a base da pirâmide, os empregados.
Em vigor desde 1º de novembro de 2010, o acordo elaborado por um Conselho oficialmente composto de representantes de assalariados e empregadores fez o salário mínimo passar a 3 000 takas mensais – 30 euros. Aumento que está longe de satisfazer os operários do setor têxtil, que mesmo depois desse ajuste continuam sendo os que menos ganham, dentre os países da Ásia : a Asia Floor Wage7estima em 144 euros mensais (10 000 takas) o ganho vital mínimo aceitável, e 5 000 takas mal sendo suficientes para uma pessoa, sem encargos familiares. Há quem tema que essa nova legislação não seja mais respeitada do que as anteriores, pois na verdade inúmeras fábricas demoram a aplicá-la. As reclamações contra os baixos salários persistem, e o sangue continua a correr, nos subúrbios de Daca : em dezembro de 2010, houve quatro mortes, durante as violentas manifestações.
Durante as negociações, os líderes grevistas e os delegados independentes nem chegaram a ser ouvidos : detidos e ameaçados, eles foram afastados das conversas e substituídos por um fantoche. Apesar de Bangladesh ter ratificado em 1967 a convenção de 1948 sobre a liberdade sindical e a proteção do direito sindical, “ raras são as organizações de defesa dos trabalhadores que conseguem a autorização oficial de funcionamento. As que recebem são mancomunadas com o governo e com os empregadores. Quanto às demais, elas vivem nas sombras, sob a terminologia vaga de ‘ associação de trabalhadores ’, e são permanentemente assediadas. Os trabalhadores são firmemente aconselhados a não integrá-las ”, explica Faiezul Hakim, presidente da União Federal do Comércio de Bangladesh. Mishu Moshrefa, presidente do Garment Workers Unity Forum (GWUF) e primeira mulher a dirigir uma organização de defesa das operárias do setor têxtil, foi presa em dezembro de 2010. Sua popularidade irritou o governo, que já mandou detê-la em várias ocasiões, acusando-a de ser ligada a um inimigo externo, impedindo-a de se comunicar com a imprensa estrangeira.
Bangladesh vende um bilhão de camisetas por ano aos países da União Europeia e exporta 85 % de seus produtos têxteis. O país beneficiou do Sistema Geral de Preferência Tarifária da EU, que dá aos membros menos desenvolvidos um acesso preferencial unilateral – sem taxas – ao mercado comum. Todavia, quando interpelada a delegação da EU relativizou as más condições de trabalho. Ela nega ter a intenção de conceder imunidade comercial a Bangladesh, mas defende o uso do método do estímulo positivo (a cenoura), em vez do estímulo negativo (o cassetete) : “ Nós não fazemos nenhum pressão formal, isso seria contra-produtivo. Em vez disso, agimos por meio de conselheiros ”, se justifica Hye Razi. Ele ressalta que o setor “ tem um impacto econômico e social enorme no país, sobre três milhões de trabalhadores, essencialmente mulheres, que se transformaram em arrimo da família, que permaneceu na aldeia. Se classificarmos de exploração essa mão de obra barata, e quisermos mudar isso, é preciso ter em vista o número de pessoas que poderiam ser afetadas, perdendo o emprego ”.
As repetidas greves fragilizaram o setor, a ponto de aterrorizar os donos das fábricas, pois os importadores não pensam duas vezes, antes de mudar o país de destino de um pedido, em caso de problemas. A prática do sourcing faz que as encomendas não sejam concentradas em um único país, e sim divididas em função dos preços e das competências de cada um deles, permitindo assim que as grandes marcas não sofram com os eventuais problemas de produção em um determinado país.
Para acalmar a opinião pública internacional, inquieta com o caráter ético das compras que faz, as marcas mais conhecidas adotaram códigos de conduta. Para Reena, isso não passa de disfarce : “ Quando um comprador estrangeiro visita a fábrica, somos obrigadas a mentir sobre as horas de trabalho efetuadas, e sobre a idade das menores de idade. Eu sou obrigada a assinar minha folha de pagamento, sem nem mesmo receber uma parte do salário que está ali. E assim que os compradores viram a esquina, as garrafas de água, que aqui custam muito caro, são arrancadas de nós. ” O delegado da Auchan Textil em Bangladesh não quis responder a nossas perguntas. Quanto a Razi, ele admitiu que “ mudanças por parte dos compradores dariam provavelmente algum oxigênio a empregadores e empregados ”.
Outro elemento desse conjunto é a terceirização em cascata, rompendo a ligação entre o contratante (quem faz a encomenda) e os operários. A segurança desses operários é a primeira a sofrer as consequências. Todos os anos, várias fábricas sofrem incêndios, e nas instalações com excesso de ocupação e em mau estado de conservação ocorre um sem número de dramas. No último incêndio, em 14 de dezembro de 2010, em uma fábrica na periferia de Daca, pertencente ao grupo Hameen, que é principalmente terceirizada do Carrefour e da H&M, vinte e oito pessoas morreram. Um incidente que está longe de ser um caso isolado, segundo Carole Crabbé, da Campagne Vêtements Propres. As marcas, os empregadores e o governo jogam a responsabilidade um para o outro.
Rubayet Jesmin, a responsável pelas questões econômicas da Comissão Europeia em Daca, é categórica : “ Tudo deriva da responsabilidade dos donos das fábricas, dos compradores e, no final da cadeia, dos consumidores. Quando alguém compra um pulôver que custa 6 euros, deve imaginar que ele foi fabricado por pessoas que trabalham em péssima condições ! ”