
sábado, 3 de março de 2012
São Paulo, quinta-feira, 01 de março de 2012
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Mulher enfrenta a família para pilotar trem em Dubai
DIOGO BERCITODE SÃO PAULO Mariam al Safar, 28, conversa com a Folha enquanto dirige seu carro em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Na vizinha Arábia Saudita, mulheres têm sido detidas por guiar. Mas Safar conquistou, em seu país, o mérito de ser a primeira mulher condutora de trem em todo o Oriente Médio. Promovida, hoje ela trabalha treinando outros funcionários para a mesma tarefa. "O governo está colocando mulheres como líderes em diversas carreiras", diz. "Isso faz a mulher ter orgulho de si, por estar fazendo algo pelo seu país. As mulheres estão entrando em todo o tipo de atividade. Até mesmo dirigem táxi!" Safar se diz orgulhosa do feito. Orgulho, afirma, que suas conterrâneas compartilham. "Recebi diversas mensagens dizendo 'também quero andar de metrô' ou me perguntando 'como nós podemos entrar para a equipe?'." Ela trabalhava no departamento de marketing do metrô de Dubai. Foi transferida para o setor de operações no ano passado por sugestão (ela diz "empurrão") de seu chefe. "Ele sabia que amo tudo relacionado aos trens." "Quando visitava as obras, gostava de ver como o trem era preparado: os sistemas, a tecnologia por trás de tudo." Formada em uma universidade de tecnologia, em um curso apenas para mulheres, Safar diz ter recebido apoio da família para que estudasse. Não, porém, para assumir o cargo no setor de operações. "Eles não aceitam que eu trabalhe no turno da noite. Dizem que não é certo para um país árabe", afirma. "Mas eu rompi com isso. Acho que rompi com tudo. Hoje, eles estão começando a aceitar." NOS TRILHOS Safar conta que tenta viver a vida como quer. Organiza o próprio dia, incluindo duas visitas semanais à academia e encontros com os amigos. "Eu digo às mulheres que elas não podem viver sem estabelecer um alvo -e elas têm de tentar alcançá-lo", afirma. Safar começou o treinamento para condutora em maio de 2011. Em junho, aprendeu a pilotar. Em agosto, já guiava o trem sozinha. Em Dubai, o trem é automático. A preparação de funcionários como Safar serve para guiar o veículo durante as emergências, quando os trens têm de ser levados para os postos de manutenção. |
São Paulo, domingo, 26 de fevereiro de 2012
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Norte do Japão sofre crise demográfica após tsunami
Tragédia agravou escassez de jovens e empregos na região de Fukushima
Províncias oferecem incentivos fiscais para atrair indústrias; cerca de 43 mil deixaram a área em nove meses PAULA LEITE ENVIADA ESPECIAL AO JAPÃO O Japão enfrenta uma crise demográfica com o envelhecimento da população e o baixo número de filhos por mulher, ameaçando o equilíbrio econômico do país. A situação é ainda mais grave na região de Tohoku, norte do Japão, a mais atingida pelo terremoto e pelo tsunami de março de 2011, que matou cerca de 20 mil. A região, composta por seis províncias, incluindo a de Fukushima, já era predominantemente rural e pesqueira, com mais de um terço da população com mais de 65 anos -acima da média japonesa, de cerca de 23%. Mesmo antes do tsunami, a previsão do governo era que a região de Tohoku perdesse 40% de sua população até 2050, devido a envelhecimento e emigração de jovens. Após o tsunami, o prognóstico se agravou, já que as províncias não param de perder população e empregos. De março a novembro de 2011, cerca de 43 mil pessoas deixaram a região, total cerca de quatro vezes maior que o registrado em anos anteriores. Em bairros temporários construídos para desabrigados, visitados pela Folha, predominam casais de mais de 50 anos morando com os pais octogenários. Habitantes dizem que os jovens trabalham nas poucas cidades grandes da área, como Sendai, ou foram para outras províncias. Na província de Miyagi, 45 mil empregos foram permanentemente perdidos depois do desastre, segundo o governador, Yoshihiro Murai. "Os dois principais pontos para trazer as pessoas de volta são oferecer habitação e empregos. Já os mais velhos querem ficar em suas regiões de origem", diz ele. As províncias de Tohoku estão oferecendo incentivos fiscais, como isenção de Imposto de Renda e empréstimos sem juros por cinco anos, para atrair indústrias. "A reconstrução também tem que levar em conta o envelhecimento da população. Se não houver indústria, muitos locais podem virar cidades-fantasma", diz Yoshio Ando, da Autoridade de Reconstrução do Japão. A última estimativa do governo japonês é que, em 2060, as pessoas com mais de 65 anos serão 39,9% da população, enquanto as crianças e jovens, hoje 13,1%, serão apenas 9,1%. A população em idade produtiva, entre 15 e 64 anos, deve cair de 64% para 51% em 2060, bem como o número total de habitantes do país: dos atuais 128 milhões para cerca de 87 milhões. A taxa de fertilidade (número de filhos por mulher) deve ficar em 1,35 em 2060, insuficiente para manter a população. O governo tem como uma das prioridades a reforma do sistema de seguridade social, que deve incluir incentivos para casais com filhos pequenos. A repórter PAULA LEITE viajou ao Japão a convite do governo japonês |
Elas não possuem tatuagens, adereços de caveiras e também fogem da típica imagem rebelde dos motoqueiros, substituída, neste caso, por um adesivo de asas rosas no capacete, o logotipo do "Miss Moto Marrocos", a primeira associação de mulheres motoqueiras do mundo árabe.
O nome citado não se refere a nenhum concurso de beleza sobre rodas, porém, ressalta a condição feminina das adeptas desse moto clube.
Criada em meados de dezembro, essa associação já apresenta 15 mulheres com idades compreendidas entre 22 e 50 anos. Casadas, solteiras, estudantes, aposentadas, com ou sem véu (hijab), todas compartilham uma mesma paixão: as motos.
As motocicletas em fila indiana, capacetes apertados e motores ligados, as mulheres do "Miss Moto Marrocos" estão prontas para pegar as estradas diante dos olhares surpresos de alguns dos pedestres da orla de Casablanca, onde ocorre a reunião.
O rugido dos motores das Harley-Davison, Honda Shadow e Yamaha FZR, entre outras marcas, se misturam com o som das buzinas dos carros da movimentada capital econômica do Marrocos.
"Fiz a Rota 66 (a mítica estrada dos Estados Unidos) e vi mulheres de todas as idades percorrendo esse trajeto. Assim, eu me perguntei: por que as marroquinas não estão aqui", indaga Dalila Mosbah, a presidente da associação, que ressalta que sua paixão pelas motos começou aos 16 anos.
Na ocasião, Dalila havia acabado de conhecer o marido, que atualmente acompanha ela e resto das motoqueiras do "Miss Moto Marrocos" em seus passeios no estilo "Easy-Rider".
Além do marido de Dalila, mais dois homens acompanham o grupo das mulheres com a intenção de fazer "escolta".
"Se somos acompanhadas pelos homens é por uma questão de segurança e também um costume. As mulheres na Europa são mais independentes, mas as marroquinas não saem só", explica Dalila, que tem três filhos, todos eles motoqueiros.
A cirurgiã dentista Amal Bennis, de 44 anos e mãe de dois filhos, confessa que se tirou a carteira de habilitação e comprou a moto "sem avisar sues amigos e familiares". Isso porque, ela não queria que ninguém desanimasse esse seu sonho.
Durante uma hora e meia, as motoqueiras percorrem a rota que leva à praia de Tamaris, em direção ao sul.
Além de ser uma oportunidade para se reunir e desfrutar de um passeio sobre rodas, essas viagens também servem como treinamento para a realização do primeiro Dia Mundial da Mulher Motoqueira, que será realizado no dia 18 de março em Marrakech, oito dias após o Dia da Mulher Trabalhadora.
"Quero fazer uma chamada para todas as mulheres que conduzem em duas rodas, inclusive em bicicleta, a participar deste desfile", diz Dalila, que ressalta que o "Miss Moto Marrocos" nasceu com a ideia de organizar missões dedicadas à caridade e a solidariedade.
De volta à orla de Casablanca, o grupo realiza um parada na loja da Harley-Davidson, onde Mamoun Tadili, proprietário do estabelecimento, apresentam um "pacote de preços especiais" para as mulheres.
"Gostaria de ver mais mulheres conduzindo. Estamos fartos de tantos homens", brinca Tadili, que desde 2007, quando abriu a loja, já vendeu oito motos para mulheres.
A economia do Camboja cresceu 6,5% no ano passado, segundo o Fundo Monetário Internacional, e para acompanhar a demanda o governo quer aumentar em dez vezes a produção de energia, para mais de 10 mil megawatts. A enorme companhia chinesa Sinohydro começou a trabalhar aqui na usina de Kamchay, de 193 megawatts, em 2007, e outras 20 hidrelétricas estão planejadas.
O Camboja quer vender para outros países uma parte da eletricidade gerada por suas usinas, reduzir a dependência das importações de energia, reduzir seus custos e gerar empregos.
"Os benefícios esperados desses projetos são enormes", disse Maria Patrikainen, analista da IHS Global em Londres, incluindo "energia mais verde e uma diversidade maior de fontes energéticas". No entanto, ela e ambientalistas disseram que as represas causariam mais prejuízos que benefícios. A ameaça mais preocupante, segundo alguns, é para a segurança alimentar de uma população rural que depende fortemente dos peixes como fonte de proteína.
"As grandes barragens perturbam os ecossistemas dos rios, bloqueiam rotas migratórias vitais para os peixes e impedem que sedimentos ricos em nutrientes sigam corrente abaixo para as hortas e arrozais nas margens dos rios", disse por e-mail Ame Trandem, diretora de programa para o sudeste asiático da organização americana International Rivers.
Ela acrescentou: "As grandes barragens vão aumentar a brecha entre ricos e pobres, elevar os níveis de desnutrição e levar a um futuro ambientalmente insustentável".
Os ambientalistas dizem que essas barragens vão evitar o fluxo dos sedimentos para o lago Tonle Sap, no Camboja, o maior lago do sudeste asiático, e o delta do rio Mekong no Vietnã. É no delta que 40% do arroz do Vietnã são cultivados, a maioria dos peixes é pescada e onde vivem 17 milhões de pessoas, segundo a comissão do rio Mekong, uma organização com representações da Tailândia, Vietnã, Laos e Camboja.
"Uma parte significativa desses peixes são espécies migratórias", escreveu Marc Goichot, um especialista em energia hidrelétrica do programa da WWF para o grande Mekong, e nenhum sistema para a passagem de peixes através de grandes represas se mostrou eficaz em casos semelhantes.
Ambientalistas dizem que o Camboja deveria trocar as barragens por tecnologias como a energia solar, gaseificação e cogeração, em que o calor gerado pelas usinas é capturado e transformado em energia. Alguns dizem que os projetos de barragens deveriam ser submetidos a rígidas avaliações ambientais e sociais.
David Blake, um candidato a doutorado na Escola de Desenvolvimento Internacional na Universidade de East Anglia, no Reino Unido, disse que os moradores podem ser incluídos nos benefícios da energia hidrelétrica através de programas de distribuição de lucros como os do Canadá. Lá, os povos aborígines recebem parte da receita das usinas hidrelétricas.
A China já construiu quatro barragens no alto rio Mekong.
Em dezembro, os delegados da comissão do Mekong decidiram adiar a construção da represa Xayaburi, no Laos. A decisão foi baseada principalmente em conclusões de um relatório de 2010 do Centro Internacional para Gestão Ambiental, uma consultoria em Melbourne, Austrália.
O relatório advertiu que, se todas as represas propostas no leito principal do Mekong forem em frente, a produção de peixes diminuirá 798 mil toneladas, ou 42% da pesca total de 2000. A metade das hortas à margem do rio também se perderia, enquanto a terra agrícola é inundada para criar reservatórios ou é ocupada por linhas de transmissão, disse o relatório. E 106.942 pessoas poderiam ser expulsas.
Mas Thavry é uma dentre muitos aldeões cuja trilha para colher bambu para os cestos que tecem ficou mais difícil depois da construção da barragem de Kamchay.
"A eletricidade vai correr, mas destruiu minha capacidade de colher bambu", disse.
Shakila, na época com 8 anos, começava a dormir quando um grupo de homens armados com fuzis AK-47 irrompeu pela porta. Ela lembra que eles se queixavam, enquanto a arrastavam para a escuridão, de que sua família tinha sido desonrada e de que eles não foram pagos.
Acontece que Shakila, que foi levada junto com seu primo como previsto por uma forma de justiça tradicional do Afeganistão conhecida como baad, era o pagamento. Foi o líder distrital, furioso com a desonra que lhe havia sido imposta, que enviou seus homens para sequestrá-la.
"Eles nos puseram em um quarto escuro com paredes de pedra; era sujo e eles ficavam nos batendo com paus e dizendo: 'Seu tio fugiu com nossa esposa e nos desonrou, e vamos lhe bater em retaliação'", disse Shakila, hoje com 10 anos.
Embora a baad seja ilegal pela lei afegã de 2009 e segundo a maioria dos estudiosos da lei islâmica, o rapto de meninas como pagamento por desonras cometidos por parentes mais velhos parece florescer. Porque um de seus tios tinha fugido com a mulher de um homem-forte do distrito, Shakila foi levada e mantida durante quase um ano antes de conseguir de escapar.
A reação do pai de Shakila ao sequestro também ilustra a dificuldade para tentar modificar uma prática cultural profundamente enraizada: ele manifestou fúria por ela ter sido capturada, porque já a havia prometido em casamento a outra pessoa.
A baad é generalizada no sul e no leste do Afeganistão, áreas agrícolas fortemente habitadas pela etnia pashtun, segundo ativistas de direitos humanos. A baad envolve dar uma mulher jovem, muitas vezes menina, para a escravidão ou o casamento forçado. Ela é geralmente escondida, porque as meninas são dadas para compensar crimes "vergonhosos", como assassinato e atos proibidos pelos costumes, como o adultério, dizem os mais velhos e defensores dos direitos das mulheres.
A força do sistema de justiça tradicional e o constante uso da baad é um sinal da falta de fé dos afegãos na justiça do governo, que eles consideram corrupta. Eles vão às jirgas, assembleias de anciãos da tribo, que usam a lei tribal que permite a troca de mulheres.
Os defensores das mulheres temem que o progresso feito recentemente contra a baad diminua quando as tropas da Otan saírem e o dinheiro para programas de conscientização diminuir.
"A baad diminuiu em Oruzgan nos últimos dois anos devido a uma forte campanha de publicidade", disse Marjana Kochai, a única mulher no conselho provincial de Oruzgan. "E temos realizado reuniões com anciãos, alertando-os fortemente para não tomar essas decisões ilegais e anti-islâmicas."
A prática de trocar mulheres data de antes do islã, quando as tribos nômades viajavam pelas montanhas e os desertos do Afeganistão. Ainda hoje, fora das poucas áreas urbanas do país, muitas dessas tradições estão enraizadas, segundo especialistas em sistemas de justiça tribal.
"Quando um problema não é resolvido", disse Nasrine Gross, uma socióloga afegã-americana que estudou a situação das mulheres afegãs, "você oferece as únicas coisas que tem: o gado é mais valioso que uma garota porque o gado você pode vender, então você dá dois rifles, um camelo, cinco carneiros e, depois, são as meninas, que eles podem vender também".
A ideia é que dar uma menina para uma família como escrava de fato e fazê-la casar com um membro daquela família une as duas famílias beligerantes, de modo que é menos provável que continue uma luta sangrenta. A prática também ajuda a compensar a família pelo trabalho que era feito por um parente perdido. E quando a garota tem filhos estes são pelo menos uma substituição simbólica do parente perdido.
No entanto, isto não reconforta a menina, que simboliza o inimigo da família e está completamente despreparada para a brutalidade que vai encontrar e para as relações sexuais muitas vezes exigidas dela em idade precoce.
Mais homens veem a baad como uma maneira de preservar as famílias e conter as disputas sangrentas, e as mulheres a veem em termos do sofrimento que as jovens têm de pagar pelos erros de outros.
"Quando você dá uma menina em baad, ela pode ser espancada, talvez sofra durante um ou dois anos, mas quando ela tiver um ou dois filhos tudo será esquecido e ela viverá como um membro regular da família", disse.
Não é assim, dizem as mulheres afegãs entrevistadas. "A mulher dada para uma família em baad sempre será uma sofredora", disse Nasima Shafiqzada, que é a responsável para assuntos femininos na província de Kunar. "Ela terá de trabalhar muito e vai apanhar."
O pai e o tio de Shakila são trabalhadores diaristas em Asadabad, para onde fugiram depois da fuga de Shakila.
Eles desejavam voltar a Naray e pedir proteção do clã adversário, mas o chefe de polícia local é parente de Fazal Nabi, o homem forte que levou Shakila, disse Gul Zareen, pai da jovem.
A família dela, como muitas na província rural de Kunar, não se opõe à baad. A família disse que Shakila não estava pronta para ser dada porque é propriedade de outro homem, tendo sido prometida quando bebê a um primo no Paquistão.
"Nós não nos importamos de dar meninas", disse Zareen. "Mas ela não era minha para eu dar."
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