
terça-feira, 24 de novembro de 2009
domingo, 22 de novembro de 2009

Duas vezes por semana, o novo ministro dos serviços financeiros do Japão é forçado a realizar duas coletivas de imprensa consecutivas: uma para os membros dos clubes de imprensa exclusivos do Japão, a segunda para os demais jornalistas.
Ele faz isso porque os membros do clube de imprensa rejeitaram sua proposta de abrir as coletivas para não membros. Apesar da agência fornecer os espaços para as coletivas, o clube de imprensa exigiu que o ministro, Shizuka Kamei, realizasse a segunda conferência em uma sala diferente.
O novo governo do Japão está desafiando um dos mais poderosos grupos de interesse do país, os clubes de imprensa, um arranjo centenário ao estilo cartel, no qual os repórteres de grandes veículos de mídia são posicionados dentro dos gabinetes do governo e desfrutam de acesso constante e próximo às autoridades.
O sistema há muito é criticado como antidemocrático tanto por analistas estrangeiros quanto japoneses, que o acusam de produzir uma imprensa relativamente sem personalidade, que sente dever mais satisfação às autoridades do que ao público. Em sua aparente relutância em criticar o governo, dizem os críticos, a imprensa fracassa em servir como uma fiscalização eficaz das autoridades.
Ele faz isso porque os membros do clube de imprensa rejeitaram sua proposta de abrir as coletivas para não membros. Apesar da agência fornecer os espaços para as coletivas, o clube de imprensa exigiu que o ministro, Shizuka Kamei, realizasse a segunda conferência em uma sala diferente.
O novo governo do Japão está desafiando um dos mais poderosos grupos de interesse do país, os clubes de imprensa, um arranjo centenário ao estilo cartel, no qual os repórteres de grandes veículos de mídia são posicionados dentro dos gabinetes do governo e desfrutam de acesso constante e próximo às autoridades.
O sistema há muito é criticado como antidemocrático tanto por analistas estrangeiros quanto japoneses, que o acusam de produzir uma imprensa relativamente sem personalidade, que sente dever mais satisfação às autoridades do que ao público. Em sua aparente relutância em criticar o governo, dizem os críticos, a imprensa fracassa em servir como uma fiscalização eficaz das autoridades.
O ataque contra o acesso exclusivo que há muito desfrutam os membros dos clubes de imprensa faz parte do esforço do novo governo de acabar com os laços estreitos entre a imprensa e as autoridades, particularmente com os poderosos ministros centrais de Tóquio. O primeiro-ministro Yukio Hatoyama, cujo Partido Democrático do Japão obteve uma vitória histórica no final de agosto sobre o Partido Democrático Liberal que estava há muito tempo no poder, promete uma "grande limpeza na governança pós-guerra".Takaaki Hattori, um professor de estudos de mídia da Universidade Rikkyo, em Tóquio, disse: "O sistema do pós-guerra tratava-se de uma troca de favores entre pessoas de dentro do sistema, incluindo a grande imprensa. A mudança de governo poderá finalmente levar a um jornalismo real, a uma democracia real". Mas as mudanças não ocorrerão sem briga, como mostra o impasse na Agência de Serviços Financeiros.
"A imprensa do Japão é fechada", Kamei se queixou recentemente para jornalistas estrangeiros. "Eles acham que são os únicos jornalistas de fato, mas estão errados."
Em uma manhã recente, o contraste entre as duas coletivas de imprensa era notável. Na primeira, para os membros do clube de imprensa, cerca de 45 jornalistas, na maioria homens trajando ternos, sentavam-se em fileiras de mesas como alunos em uma sala de aula, levantado suas mãos para fazer perguntas detalhadas sobre a política financeira. Kamei, que estava sentado em um palanque diante de uma cortina azul-cinzenta, dava respostas curtas e até censurava os repórteres por sua cobertura.
A segunda foi realizada imediatamente após no gabinete revestido com painéis de madeira de Kamei, onde ele conversou demoradamente e brincava enquanto descansava em uma grande cadeira de couro. Uma assistente forneceu café para cerca de 25 jornalistas japoneses e estrangeiros, incluindo várias mulheres e homens sem gravata, alguns carregando capacetes de ciclismo. Eles pressionaram o ministro a responder uma série de perguntas sobre questões que iam do envelhecimento da sociedade japonesa e reforma dos correios até seu choque com a grande imprensa.Enquanto a primeira coletiva de imprensa foi realizada atrás de portas fechadas, a segunda foi postada ao vivo em um site na internet. Para demonstrar seu descontentamento por ter que realizar duas coletivas, Kamei às vezes antecipa o fim da primeira coletiva para passar mais tempo na segunda.
Yasumi Iwakami, um redator online e free-lance de uma revista, disse que Kamei tem que agir com cautela por temor de provocar uma cobertura negativa por parte da grande imprensa, que Iwakami chamou meio brincando de quarto lado do "triângulo de ferro" do Japão pós-guerra, formado pelos democratas liberais, pelos burocratas e pelas grandes corporações.
Até o momento, ele disse, os grandes órgãos de imprensa têm dedicado pouca ou nenhuma cobertura à luta contra os clubes de imprensa.
"Esta é a glasnost do Japão", disse Iwakami, referindo-se ao fim da censura sob as reformas políticas de Mikhail Gorbachov nos anos finais da União Soviética.
Durante sua carreira, Iwakami, 50 anos, disse que já foi repetidas vezes impedido de entrar em coletivas de imprensa pelos jornalistas dos clubes.
Ele disse que os dois grupos de jornalistas raramente se encontram na Agência de Serviços Financeiros, que realiza as duas coletivas de imprensa consecutivas em andares diferentes. Mas durante uma coletiva de imprensa de emergência há poucas semanas, da qual participaram os dois grupos, ele disse que os jornalistas do clube ignoraram os forasteiros, recusando-se até mesmo a responder suas saudações ou mesmo olhar para eles.
O clube de imprensa da agência fica sediado no vizinho Ministério das Finanças, apesar de também contar com sua própria sala de cubículos na agência. Em uma tarde recente, os repórteres cochilavam em sofás surrados ou digitavam artigos em fileiras estreitas de mesas de madeira, enquanto uma jovem funcionária do ministério copiava documentos para eles.
Shinji Furuta, um repórter para o jornal "Mainichi Shimbun", que recentemente ocupou o cargo rotativo de secretário-chefe do clube, disse que ele não é tão fechado quanto parece. Mesmo antes da mudança no governo, ele disse, ele permitia a não-membros participarem das coletivas de imprensa como observadores, sob um critério caso a caso, permitindo a eles até mesmo fazerem perguntas, algo que outros clubes de imprensa ainda impedem esses observadores de fazerem.
Ele também notou que o clube apresentou uma pequena abertura na última década, ao permitir o ingresso das grandes agências de notícias financeiras americanas e britânicas. Mas ele disse que o clube de imprensa deseja assegurar o não ingresso de pessoas se passando por jornalistas e a não perturbação dos procedimentos."E se alguém tentasse cometer suicídio ou incendiar a si mesmo em uma coletiva de imprensa? Quem assumiria a responsabilidade por isso?", perguntou Furuta.
Tetsuo Jimbo, o fundador de um órgão de imprensa online, a "Video News Network", elogiou os esforços do novo governo. Mas ele disse que a maioria das coletivas de imprensa permanece fechada para jornalistas de fora como ele. Ele notou que os democratas abriram os procedimentos em apenas quatro ministérios e grandes agências, mas não cumpriram a promessa de campanha de abrir as coletivas de imprensa do primeiro-ministro.
"Os democratas estão lutando contra direitos adquiridos que existem desde a época de seus avós", disse Jimbo.
Ainda assim, há um amplo sentimento aqui de que os clubes de imprensa no final mudarão. Muitos jornalistas japoneses mais jovens que trabalham em grandes jornais se mostram descontentes com o sistema. As autoridades japonesas também disseram que os antigos arranjos seriam difíceis de serem mantidos, já que o Japão parece finalmente estar entrando em uma era em que o poder mudará regularmente de mão entre os partidos políticos.
"Abrir as coletivas de imprensa foi mais fácil do que imaginávamos", disse Motoyuki Yufu, diretor de relações públicas da Agência de Serviços Financeiros. "Em algum momento isso tinha que acontecer."

Anoiteceu há duas horas em Mandalay, antiga capital real de Mianmar. As ruas se esvaziam. Legumes abandonados pelos mercados ambulantes espalham-se pelas calçadas, condutores de riquixá fazem suas últimas corridas. A cidade se tornou invisível. Para encontrar a Rua 39, é preciso avançar de cruzamento em cruzamento, onde lâmpadas cintilam tremulamente. É ali que vivem os Moustache Brothers. Todo mundo os conhece em Mianmar. Esses três irmãos artistas performáticos desafiam a junta militar com esquetes satíricos, abalando todos os tabus e zombando dos militares. Em plena ditadura, eles exibem uma franqueza impressionante. Isso pode lhes custar, se não a cabeça, pelo menos a liberdade. Na verdade, há vinte anos eles são perseguidos pelo governo. Ameaças, trabalho forçado, prisão. Eles nunca desistiram.
Seu esconderijo é uma pequena casa remendada cujo andar térreo serve de sala de espetáculos. Um cômodo comprido e estreito, forrado de marionetes e de fotos de Aung San Suu Kyi posando com os artistas. É proibido tirar fotos da opositora em Mianmar. "Ela veio nos visitar, e também quis testemunhar em nosso favor em um julgamento, mas ela não teve direito de ir até lá", declara Lu Maw, 59, que se tornou porta-voz do grupo graças a seu conhecimento de inglês.Uma vez instalado o público, Lu liga seu leitor de DVD: na tela, bonzos marcham em Yangun, um monge morto jaz com a cabeça na lama, um soldado-criança mutilado lança um olhar aflito para a lente, atores americanos manifestam seu apoio à rebelião dos monges... Na sala, nem uma mosca voa, de tanto que os limites do proibido estão sendo ultrapassados.
Em setembro de 2007, os bonzos birmaneses desceram às ruas para protestar pacificamente contra o aumento dos preços da gasolina e dos transportes. De repente, a mudança parecia possível. A repressão foi ainda mais brutal, aniquilando qualquer esperança de liberdade para um povo que há cinquenta anos se submete à ditadura dos militares. "Vimos que a junta não hesita mais em atirar, mesmo nos religiosos. Houve muitos mortos, foi terrível. Hoje, ninguém mais ousa se mexer", lamenta Lu em uma entrevista. Ainda que seus espetáculos só sejam abertos aos turistas - os espiões que os observam diante da porta se certificam disso -, a popularidade dos irmãos transporta sua mensagem para bem além das paredes do pequeno teatro.
Antes, a trupe percorria o país com dançarinos, músicos e acrobatas saídos do clã familiar para animar as festas com espetáculos que misturam tradição, burlesco e sátira política. As autoridades não se preocupavam realmente com isso. "A situação se endureceu com o levante de 8.8.88", explica Lu Maw. Nesse dia de agosto, o exército abriu fogo contra manifestantes que denunciavam a situação econômica e política. De repente, o humor dos artistas não agradava mais aos militares. Em 1989, Par Par Lay, figura de proa do grupo, foi preso por quase um ano. "Nós nos tornamos mais prudentes, mas não queríamos nos deixar intimidar", declara Lu Maw.
Em 1996, Par Par Lay fez uma piada inconveniente durante uma reunião autorizada do partido de oposição de Aung San Suu Kyi, a Liga Nacional pela Democracia (NLO). "Piadas sobre as panes de eletricidade, o trabalho forçado, e a falta de recursos nas escolas", ele lembra. Na sala, militares disfarçados de simpatizantes. Toda a trupe foi presa. "Eles nos espancaram, nos interrogaram, temi por minha família", ele diz. A família foi solta, mas para Par Par Lay e Lu Zaw - o terceiro irmão, hoje aposentado por questões de saúde - , o veredicto foi implacável: sete anos de trabalho forçado. "Tínhamos de quebrar pedras com barras de ferro o dia inteiro. Quando minha mulher veio me ver, ela não me reconheceu de tanto que eu tinha mudado. Um guarda teve de lhe indicar qual dos prisioneiros era seu marido", conta Par Par Lay.Graças à Anistia Internacional, a condenação dos artistas foi reduzida para cinco anos e meio de prisão. "Ficávamos em uma cela isolada, proibidos de nos comunicar com os outros prisioneiros", continua Par Par Lay.
Quando saiu da prisão, em 2001, os militares o forçaram a assinar um documento que o comprometia a não se apresentar mais. Mas quando ele voltou para casa, uma grande festa o aguardava. "Nós atuamos durante uma semana na rua sem maquiagem nem figurino, e dizíamos: não estamos atuando, estamos mostrando como seria se atuássemos".
Desde então, os Moustache Brothers se apresentam todas as noites para os turistas. Eles exibem as correntes que Par Par Lay usava no campo de trabalhos forçados, convidam os piratas da Somália a sequestrar os militares da junta que eles oferecem como suvenir, brandem cartazes onde estão escritos os nomes dos serviços secretos do mundo inteiro, colocando um dedo sobre os lábios e sussurrando: "Há espiões por toda parte, talvez até mesmo entre vocês, caro público!" Eles satirizam o casamento da filha do número um - "um monstro que tentam disfarçar com diamantes" - com um homem "apavorado de estar lá". Contam que antes ela havia se apaixonado por um ator de televisão que preferiu deixar o país para fugir do casamento forçado. Os Moustache Brothers zombam dos dirigentes, acusando-os de viver em palácios ostentatórios financiados pelo tráfico de drogas e de armas, enquanto o povo empobrece.
"Além da repressão, os birmaneses hoje sofrem com a pobreza, e a diferença entre os ricos e os pobres se aprofundou desde que Mianmar deixou de ser socialista", lamenta Lu Maw, enquanto se troca nos bastidores. Mianmar abandonou o socialismo em 1989.O espetáculo chega ao fim. Os turistas são convidados a se mobilizarem em seus países para defender o povo birmanês.
Lu termina com sua piada favorita: "Outro dia tive dor de dente. Fui até um dentista em Bancoc. O dentista me disse: 'Mas por que veio de tão longe para cuidar de seus dentes?' Eu respondi: 'Porque em Mianmar não temos o direito de abrir a boca'".
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