segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Fora do último aterro oficial de Bangalore, os caminhões de lixo regularmente fazem fila durante horas, com suas cargas apodrecendo ao sol da tarde. Uma montanha de lixo, o aterro tem envenenado as águas locais e deixando moradores próximos doentes. Outro local de descarte estava numa situação ainda pior antes de ser fechado recentemente após protestos violentos. Bangalore, a capital da moderna economia da Índia e lar de muitos funcionários da alta tecnologia, está se afogando em seu próprio lixo. Na semana passada, moradores locais bloquearam as estradas que levam para o aterro Mandur na periferia da cidade, enquanto muitos transportadores de lixo de Bangalore entraram em greve, dizendo que não recebiam há meses. Alguns bairros estão sem coleta de lixo há quase três semanas, e grandes montes de lixo estão espalhados pela Cidade Jardim, como é conhecida na Índia. O lixo é praga da Índia. Ele engasga os rios, abre valas nos prados, contamina as ruas e alimenta um ecossistema vasto e perigoso de ratos, mosquitos, cães de rua, macacos e porcos. Talvez até mais do que os blecautes e o tráfego insano, o lixo onipresente mostra a incompetência do governo indiano e do lado escuro do rápido crescimento econômico do país. O aumento da riqueza gerou mais lixo, e os administradores do desenvolvimento desordenado do país têm sido incapazes de lidar com o montante, até mesmo nas cidades que os indianos mais valorizam e veem como seus modelos para o futuro. "Bangalore costumava ser a cidade mais limpa da Índia", disse Kumar Amiya Sahu, presidente da Associação Nacional de Resíduos Sólidos da Índia. "Agora, é a mais suja." A crise do lixo de Bangalore é uma consequência direta de seu impressionante sucesso. Empresas de tecnologia começaram a se estabelecer em Bangalore em 1980. Enquanto cresciam, muitas criaram campi imaculados entalhados no caos urbano, fornecendo sua própria eletricidade, água, transporte e um raro sentido de tranquilidade. Mas o segredo sujo desses campi e dos enclaves fechados onde seus executivos constroem mansões é que eles não têm onde colocar seu lixo. Muitos contrataram caminhoneiros para levar a sujeira para fora da cidade, com o cuidado de não perguntar para onde. Os caminhoneiros encontravam lotes vazios ou agricultores dispostos e simplesmente despejavam suas cargas. A cidade logo seguiu o exemplo das empresas. Seu programa de coleta de lixo de porta em porta, iniciado em 2000, era visto como um modelo num país onde sistemas municipais abrangentes de coleta de lixo ainda são raros. Mas poucos – inclusive funcionários municipais – sabiam para onde o lixo era levado ou, depois que os aterros foram inaugurados, como ele era descartado. "Nós nunca seguimos as práticas científicas para os aterros", disse Rajneesh Goel, chefe dos funcionários municipais de Bangalore numa entrevista. Como a população Banglore explodiu com o sucesso de sua indústria de tecnologia, as tensões no sistema de resíduos cresceram quase até seu ponto de ruptura. Agora, com o aterro de Mandur prestes a fechar permanentemente e a cidade ficando sem pedreiras abandonadas para desviar sorrateiramente a carga de um dia, ele pode simplesmente entrar em colapso.
"Toda a contaminação das águas subterrâneas chegará até nós; mais de 300 dos nossos lagos já se foram", disse Goel em uma reunião pública recente, onde pediu ajuda. “O problema está saindo do controle, e eventualmente vai nos engolir. Temos de fazer alguma coisa.” A escolha que Goel enfrenta é difícil: encontrar um novo lugar para despejar 4.000 toneladas de lixo por dia, ou fazer com que esse lixo desapareça de alguma forma. Uma vez que a parca supervisão dos aterros pela prefeitura tornou os novos aterros praticamente impossíveis de cuidar, ele agora está tentando criar – quase que do zero – um dos programas de reciclagem mais ambiciosos do mundo. Goel admitiu que o sucesso está longe de dar certo. "Eu estou tentando passar uma imagem muito bonita, mas não se deixem levar", disse ele depois de delinear seus planos. "É uma história de 50 anos de idade, e há certas restrições no sistema." No passado, empresas do setor privado cresceram a todo o vapor, em parte, deixando de fora o resto da Índia e evitando interações com um governo disfuncional e corrupto. Mas altos executivos agora dizem que não podem mais virar as costas para o caos que os rodeia. "Construir estas ilhas, ou expandi-las, não acredito que vai funcionar", diz S. Gopalakrishnan, co-presidente executivo da Infosys, gigante da tecnologia na Índia. Ele apontou pela janela, para o campus imaculado de sua empresa, que tem uma pirâmide de vidro, praças de alimentação, quadras de basquete e jardins. "Em algum ponto, a resistência do mundo exterior vai surpreendê-las." Na verdade, a disfunção da Índia está agora cobrando seu preço na lendária produtividade da Infosys, disse Gopalakrishnan. Os deslocamentos de seus funcionários são mais longos, as suas brigas com as escolas estão mais intratáveis. "Se você tem apenas 100 funcionários, o impacto não é tão grande", disse ele. “Mas, com 150 mil funcionários, cada vez mais o ambiente nos afeta como indivíduos, e, sim, atrasa as coisas. Em algum momento, você não pode fechar sua mente para o que está acontecendo ao seu redor.” Poucos esperam que o governo municipal de Bangalore resolva o problema por conta própria. Em vez disso, uma rede de grupos sem fins lucrativos surgiu para criar esquemas de reciclagem; estas organizações não governamentais têm abraçado os milhares de catadores que diariamente vasculham o lixo da cidade para recuperar coisas de valor, como papel, vidro e alguns plásticos. "Já temos um sistema informal de 15 mil catadores de resíduos, e tem as ONGs que pode empoderar os catadadores", disse Kalpana Kar, que atuou no conselho de administração do lixo da prefeitura durante mais de uma década. "Vamos tornar todos eles parte do sistema formal." Para que o sistema funcione, no entanto, as famílias de Bangalore devem separar seu lixo entre orgânico úmido, reciclável seco, como plásticos, papel e lixo hospitalar. Kar agora passa a maior parte do tempo tentando convencer os habitantes da cidade a fazerem exatamente isso. Em um dia recente, ela estava a caminho de outra reunião quando parou do lado de fora de sua casa e apontou para um funcionário saindo uma casa luxuosa próxima. O empregado carregou dois baldes de lixo para o outro lado da rua e os jogou num lote vazio. Cães de rua e um porco selvagem logo foram a alimentar, deixando para trás o plástico e outros tipos de lixo.
"O que você está fazendo?", Kar gritou com o empregado. Ele deu de ombros e apontou para a casa de seu empregador. Kar tinha tentado muitas vezes dissuadir o empregado de jogar o lixo da casa no lote cada vez mais nojento, disse ela, mas o empregador tinha ignorado suas preocupações. "As pessoas na Índia pensam que se a sua própria casa estiver limpa, o problema vai embora", disse ela. Mesmo assim ela é otimista e acredita que Bangalore será capaz de reciclar praticamente todo o seu resíduo, o que seria uma realização notável para uma cidade de oito milhões de habitantes. "A cidade está de joelhos", disse ela encolhendo os ombros. "Não temos escolha." Mesmo fora de Bangalore, um número crescente de fazendas de suínos está pegando os alimentos que sobram dos hotéis e restaurantes da cidade, que produzem bastante lixo. Numa dessas fazendas, porcos enormes gritaram de entusiasmo quando um caminhão chegou cheio de barris de restos de comida. Funcionários jogaram as cascas de pepino, melancia, salsicha crua, lentilhas aguadas e muito mais num cercado de concreto onde uma mulher descalça esperava. Usando uma mão para segurar seu sári, ela usava a outra para retirar os sacos plásticos e copos de sorvete. Logo ela estava coberta de resíduos. Eventualmente, outro trabalhador colocou o alimento nos chiqueiros e os porcos grunhiram felizes de gula. Para Vankatram, um criador de porcos com apenas um nome, o preço para obter esses alimentos descartados é transportar o lixo seco dos hotéis, sacos gigantes de plástico misturado com papel. Esses resíduos podem ser reciclados, mas Vankatram em vez disso os queimou. A queima de lixo é comum na Índia e contribui com a poluição sufocante. "Espero que nos próximos 10 anos a Índia se torne mais limpa", disse Sahu da associação nacional do lixo. "Mas agora, é muito ruim."

O 18º Congresso do Partido Comunista Chinês (PCCh), que começa no próximo dia 8, entronizará os chamados príncipes ("taizidang") à frente do destino da China durante os próximos dez anos. São os filhos dos fundadores da República Popular e de outras personalidades relevantes da China comunista. Seus pais, quase todos, sofreram os desmandos da Grande Revolução Cultural (1966-1976), mas assim como Deng Xiaoping (1904-1997) - o chamado arquiteto da reforma e promotor do avanço econômico que transformou a China na segunda potência mundial -, foram reabilitados no final da décadas de 70, o que facilitou a carreira dos filhos. Xi Jiping, que na próxima semana substituirá Hu Jintao como secretário-geral do PCCh como príncipe herdeiro, encabeça a longa lista de filhos da nomenclatura que, por razões dinásticas, ocupam os cargos de maior responsabilidade do partido, do Estado, das regiões, dos bancos, finanças, grandes empresas estatais e inclusive algumas das maiores empresas privadas da China. Parece incrível que em um país de 1,35 bilhãode pessoas possa haver uma conexão entre os dirigentes de duas províncias separadas por milhares de quilómetros - e no entanto com frequência ela existe. O PCCh, com 82 milhões de membros, teceu uma extraordinária rede de contatos que se forjam desde a mais tenra infância, pelos laços entre as famílias, as escolas, a universidade e locais de trabalho. É a malha invisível do nepotismo que impregna todos os setores da realidade chinesa. As ativas redes sociais, lideradas por Weibo - uma espécie de combinação de Twitter com Facebook -, revelam o crescente mal-estar pelos privilégios dos príncipes. Em 2010 o "Diário do Povo", o órgão de difusão do PCCh, ecoou esse descontentamento ao indicar que 91% dos participantes de uma pesquisa consideraram que "todas as famílias ricas da China procedem da política". E em um fórum organizado pelo mesmo jornal em março passado o ex-auditor geral chinês, Lin Jihua, afirmou que "muitos dos problemas de corrupção são organizados através dos filhos e filhas". Segundo Lin, o rápido enriquecimento dos dirigentes e de seus filhos é "o principal motivo de descontentamento entre a população".
A reclusão dos líderes máximos no Zhongnanhai - a Cidade Proibida comunista, situada justamente ao sul da antiga residência dos imperadores em Pequim - facilitou desde a fundação da República Popular, em 1949, a endogamia dos dirigentes. Seus filhos brincaram juntos nos jardins de Zhongnanhai. Depois os meninos foram para o elitista instituto masculino número 4 da capital, e mais tarde rapazes e garotas voltaram a se reunir nas prestigiosas universidades de Pequim e Qinhua (também em Pequim), e Fudan em Xangai. Casados entre si, seus filhos estudam em Harvard, Cambridge e outras importantes universidades internacionais. Conhecido como o "príncipe vermelho", Bo Xilai, agora expulso do PCCh e à espera de ser julgado por abuso de poder, subornos, relações impróprias com diversas mulheres e ocultamento do assassinato de um homem de negócios britânico por sua esposa, Gu Kailai (condenada em agosto à pena capital, com dois anos de suspensão da pena), é um dos mais claros exemplos do poder destas sagas. Filho de Bo Yibo, um dos "oito veneráveis" (entre os quais se inclui Deng Xiaoping), sua primeira mulher também é princesa, viveu em Zhongnanhai, acumulou enorme riqueza e os dois filhos de seus dois casamentos estudaram nos EUA, o primeiro em Columbia e o segundo em Harvard. No país dos "guanxi" (contatos), os bancos de maior êxito da China têm especialistas dedicados a traçar as árvores genealógicas de dirigentes, ex-dirigentes e altos funcionários em nível central e regional para organizar suas carteiras de clientes. A informação publicada por "The New York Times", em outubro pasado, de que a família do primeiro-ministro Wen Jiabao acumulou uma riqueza superior a 2,1 bilhões de euros, mostra como se desenvolvem essas corruptas relações de poder. Segundo "The Sydney Morning Herald", se Wen Yunsong, o filho do primeiro-ministro, dirige um dos fundos privados de ações de maior êxito, o filho de Wu Bangguo - presidente da Assembleia Popular Nacional e o oficial número 2 do PCCh - deixou o Merrill Lynch para dirigir um fundo de investimentos ligado à companhia estatal de energia nuclear. A filha de Li Chanhun, chefe de propaganda do partido, trabalha em uma filial de investimento do Banco da China e vários bancos estrangeiros contrataram parentes de Wang Qishang, que, tudo indica, no conclave que começa na próxima quinta-feira chegará a membro do Comitê Permanente do Birô Político, a direção colegiada da China. Não são os únicos. O filho de Zhu Rongji (primeiro-ministro de 1998 a 2003) dirige a China International Capital Corp. e colocou ao seu lado a filha de Shang Fulin (supervisor da Bolsa da China de 2002 a outubro de 2011). A neta de Hu Yaobang (secretário-geral do PCCh de 1982 a 1987), Janice Hu, é a presidente para a China do Crédit Suisse. Na realidade, a lista de príncipes e princesas à frente das mais poderosas instituições e empresas é quase tão ampla quanto o número destas. Para esse fabuloso entramado de "guanxi", onde nepotismo e corrupção andam de mãos dadas, contribui em parte a própria mentalidade chinesa. Depois da destituição em setembro passado de Ling Jihua como diretor do Escritório do Comitê Central (o gabinete do chefe de Estado para assuntos internos do PCCh), o professor da Universidade de Pequim Zhang Ming reconheceu em declarações à agência de notícias alemã DPA que é prática habitual na China cobrir de atenções as famílias dos políticos para influir na tomada de decisões. "Ling Jinhua foi diretor do Escritório Geral do Comitê Central e, mesmo que não pedisse, as pessoas dariam dinheiro a seu filho", disse o professor, referindo-se ao escândalo da Ferrari do filho do político degradado. A polícia cibernética bloqueou toda a informação sobre o acidente com uma Ferrari em que o motorista (Ling Guo) morreu e duas garotas que estavam no carro ficaram gravemente feridas. Ling foi enterrado em segredo para não prejudicar a imagem de seu pai, que finalmente caiu não só porque seu filho dirigia uma Ferrari, mas também porque estava ligado ao ex-ministro das Ferrovias Liu Zhijun, expulso do PCCh em 28 de maio porque durante os oito anos em que esteve no cargo (2003 a 2011) favoreceu empresas de amigos e familiares e desviou para suas contas pessoais centenas de milhões de euros dos fundos para a construção da ampla rede de trens de alta velocidade. A entrada na Bolsa de Hong Kong da China Railway Construction Corp. (4,6 bilhões de euros), administrada pelo Macquarie Group, foi conseguida depois da vertiginosa ascensão nessa financeira australiana de Raymond Sun, casado com a filha de Fu Zhihuan, ministro das Ferrovias de 1998 a 2003. Não é de estranhar o enorme mal-estar da maioria dos chineses contra os abusos e a imunidade de que gozam os "taizidang". Privilégios que também tentam se atribuir os filhos das autoridades locais. Mas o Partido Comunista Chinêsé só coisa de príncipes. Diante dessas elites dinásticas se erguem os "tuanpai", os filhos do povo, que através da Liga da Juventude escalaram passo a passo os degraus do PCCh até o Comitê Permanente do Birô Político. Com o apoio de Hu Jintao, em fim de mandato, e com Li Keqian à frente, tentarão conseguir no 18º Congresso vários dos nove assentos - estuda-se reduzi-los para sete - do órgão máximo de poder. Os candidatos ao Comitê Permanente: - Xi Jiping. O príncipe herdeiro tem 59 anos e é um reformista de consenso que se transformará na próxima semana em secretário-geral do PCCh, e em março em chefe de Estado. Químico de profissão, governou várias províncias antes de 2007, quando foi enviado a Xangai para pôr na linha o município mais desenvolvido e emblemático da China. É casado com a famosa cantora do Exército Popular de Libertação Peng Liyuan. - Li Keqiang. Este advogado de 59 anos está entre os chamados "tuanpai", os dirigentes do PCCh de origem humilde que subiram ao poder através da Liga da Juventude. Era o candidato de Hu Jintao para sucedê-lo, mas os príncipes (a facção elitista) o impediram. Em março se transformará em primeiro-ministro. Defende uma maior distribuição da riqueza do país e oferece apoio aos mais frágeis. Seus críticos indicam que lhe falta dureza para enfrentar o mundo das finanças. - Wang Qishan. Com 64 anos, é considerado chave para promover no coração do partido a remodelação do mercado financeiro chinês, diante de uma reforma profunda do sistema produtivo. Foi durante anos negociador máximo com os EUA e foi quem organizou em 1998 a maior reestruturação bancária da China. - Liu Yunshan. Com 65 anos e chefe do aparelho de propaganda, é também um "tuanpai" próximo de Hu Jintao. Se subir, manterá sua política de controle da informação e da Internet com dezenas de milhares de censores e policiais cibernéticos. - Liu Yandong. Única mulher



 
 
 
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Jovens da segunda geração de imigrantes brasileiros no Japão sofrem de exclusão e dificuldade de integração no país em que nasceram ou foram criados desde cedo. Segundo o Itamaraty, a dificuldade de integração de brasileiros nascidos ou criados no exterior é mais grave no Japão, onde há, segundo o ministério da Justiça japonês, 36.869 crianças e adolescentes brasileiros até 14 anos de idade --17,55% do total de brasileiros residentes. Diferentemente dos pais, eles não aceitam ser tratados como estrangeiros, mas esbarram em dificuldades como não dominar o idioma como os nativos. Segundo a ministra Luiza Lopes da Silva, diretora do Departamento Consular e de Brasileiros no Exterior do Itamaraty, sem o domínio completo da língua, acabam sendo identificados facilmente pelos japoneses e tratados como estrangeiros - mesmo sendo cidadãos do país. "Os pais (desses jovens) vieram ao país com uma mentalidade diferente, só para trabalhar. Já a segunda geração vê (no cotidiano do japonês) como poderia ser a vida deles e como ela não é", disse a ministra. Esse problema não existe, segundo ela, em países onde o idioma é de mais fácil assimilação como os Estados Unidos e o Reino Unido. De acordo Lopes da Silva, a segunda geração tenta frequentar escolas japonesas, mas muitos acabam abandonado as carteiras escolares e assim diminuindo suas chances de inclusão. Os motivos da evasão são a dificuldade dos cursos e a incapacidade dos pais, que também não dominam a língua perfeitamente, de dar apoio nas tarefas de casa, algo essencial no sistema educacional japonês. Segundo a ministra, outro termômetro dessa falta de integração é a baixa quantidade de casamentos entre japoneses e descendentes de brasileiros. Além da barreira do idioma, as diferenças culturais e a alta concorrência no mercado de trabalho dificultam ainda mais a integração. Anderson Yuiti Kinjo, de 18 anos, nasceu no Japão, mas nunca frequentou a escola japonesa. Terminou o ensino médio em uma instituição de ensino brasileira. "Na época que comecei a estudar, havia muitos boatos sobre bullying contra estrangeiros nas escolas japonesas e, por isso, meus pais optaram pelo ensino em português", disse à BBC Brasil.
Gosto muito do Japão, falo bem o japonês, mas não me sinto completamente à vontade aqui", disse o rapaz, que planeja voltar para o Brasil para continuar os estudos. Ele não está satisfeito com o emprego em uma linha de montagem de eletrônicos na província de Gunma. Ao contrário de boa parte dos colegas, Yudi Taniguti, também de 18 anos, conseguiu acompanhar a escola japonesa. Ele chegou ao Japão com os pais, vindo de Caldas Novas (GO), quando tinha 2 anos de idade. Taniguti trabalha em uma fábrica de eletrônicos. "Minha mãe fala que a vida no Japão vai ser sempre a mesma, sem oportunidades. Já no Brasil acho que teria mais chances", disse. "A situação dos filhos de imigrantes deve ser sempre acompanhada com atenção. Se crescer já é um processo cheio de descobertas, mesmo no país natal, o desafio é muito maior quando se mora em um país tão diferente", disse o diplomata Paulo Henrique Batalha, da Embaixada do Brasil em Tóquio. Já o sociólogo e professor da Universidade Musashi, Angelo Ishi, afirmou que os filhos de brasileiros correm o risco de não dominar bem nenhum dos dois idiomas. "Não importa se é o português ou o japonês, o jovem tem de estudar e aprimorar os conhecimentos a ponto de poder manejar pelo menos uma língua em nível avançado", afirmou. Para Ishi, esses jovens estão num "limbo" entre a sociedade japonesa e a comunidade brasileira no Japão. "A ironia é que, quanto mais um jovem sobe um degrau de escolaridade e se integra à sociedade japonesa, no geral, ele acaba se distanciando dos conterrâneos. Por isso, a comunidade brasileira continua órfã em termos de jovens líderes bilíngues". Para tentar amenizar os problemas enfrentados pelos jovens brasileiros, os governos brasileiro, japonês, e a iniciativa privada têm desenvolvido projetos. Entre eles, está o Arco-Íris, do Ministério da Educação do Japão. Criado em 2009, o programa tem como objetivo a escolarização das crianças estrangeiras que moram no Japão. Com ênfase no ensino da língua japonesa, o objetivo dele é facilitar a transição de alunos de escolas brasileiras para o sistema de ensino público japonês, gratuito. Mais de 5 mil jovens já foram beneficiados pelo projeto. O Itamaraty vem monitorando o problema e tem projetos semelhantes de assistência a estudantes. O principal deles funciona em Hamamatsu. Para Ishi, o grande desafio das próximas gerações de filhos de imigrantes brasileiros é conquistar diplomas universitários. "Não há fórmula segura para ascensão social, seja em qual país for, que não seja através dos estudos", afirmou. Segundo a ministra Lopes da Silva, os filhos de imigrantes brasileiros que vivem no Paraguai também enfrentam barreira semelhante com a língua guarani - que também é falada no país, ao lado do castelhano. Os "brasiguaios", como são conhecidos, formam hoje uma comunidade de 200 mil pessoas no Paraguai. Outros cerca de 300 mil têm dupla nacionalidade, segundo o Itamaraty. "A proximidade com o Brasil e a facilidade para cruzar a fronteira também dificulta a integração", disse a ministra. Segundo ela, a facilidade de voltar para o Brasil faz com que muitos tenham dificuldades de se identificar como paraguaios. Atualmente, o Itamaraty promove conferências regulares com especialistas e autoridades dos dois países com o objetivo principal de integrar a comunidade de descendentes de brasileiros na sociedade paraguaia. Projetos educacionais também estão em estudo. Para a diretora do Departamento Consular do Itamaraty, essa dificuldade de integração das comunidades no Paraguai e no Japão deve ser um estágio transitório, que deve ser superado com o tempo.

Os candidatos ofereceram respostas profundamente diferentes durante o último debate com o presidente Barack Obama repetindo sua narrativa triunfal de ataques de teleguiados e terroristas mortos, e Mitt Romney alertando sombriamente sobre o avanço dos islamistas num Oriente Médio cada vez mais hostil. Num certo sentido, ambos são verdadeiros. A organização que planejou os ataques de 11 de setembro, sediada no Afeganistão e no Paquistão, está em ruínas; dezenas de seus principais líderes foram mortos desde que Obama assumiu o governo, e aqueles que restam parecem estar na maior parte inativos. Ao mesmo tempo, jihadistas de vários tipos, alguns que se identificam com a Al Qaeda, estão florescendo na África e no Oriente Médio, onde o caos que se seguiu às revoltas árabes muitas vezes deu a eles uma maior liberdade para se organizar e operar. A morte de Christopher J. Stevens, o embaixador dos EUA para a Líbia, em setembro, durante um ataque de autoria de jihadistas líbios armados contra a embaixada dos EUA em Benghazi levou isso até o público americano. Mas há uma diferença importante: a maioria dos novos grupos jihadistas tem objetivos locais, e muito poucos desejam atacar diretamente os Estados Unidos como fez o núcleo da rede de Osama bin Laden. Eles podem interferir nos interesses dos EUA ao redor do mundo – como na Síria, onde a presença de militantes islâmicos entre os rebeldes que lutam contra o governo de Bashar Assad tem inibido os esforços dos EUA para apoiar a revolta. Mas isso está muito longe de conspirações terroristas contra os Estados Unidos.
"Sob vários aspectos, nós voltamos para a forma que o mundo era antes de 11 de setembro , disse Brian Fishman, pesquisador em contraterrorismo da New America Foundation. "Seus grupos jihadistas locais estão concentrados em projetos dentro de seus próprios países, mesmo que às vezes mantenham a estrutura retórica da Al Qaeda e sua luta global.” Embora esses grupos locais possam ter se beneficiado a curto prazo com a turbulência que se seguiu aos levantes da Primavera Árabe, eles também sofreram um golpe ideológico que poderia tornar muito mais difícil recrutar jovens seguidores. Movimentos pacíficos de protesto derrubaram ditaduras na Tunísia e no Egito, e lá, como nos conflitos mais violentos na Líbia e no Iêmen, os Estados Unidos estavam do lado da mudança. A ideia de atacar os Estados Unidos, “o inimigo distante” no jargão jihadista, sempre foi impopular para muitos radicais islâmicos, cujo principal objetivo substituir seus próprios governos por teocracias. O conceito se tornou mais impopular depois dos ataques de 11 de setembro, quando Bin Laden e seus seguidores foram expulsos do seu santuário no Afeganistão. Nos anos seguintes, os afiliados à Al Qaeda no Iraque e na Arábia Saudita causaram um dano considerável ao nome do grupo, matando um grande número de muçulmanos, embora o assassinato de soldados dos EUA no Iraque, onde as tropas eram vistos como invasores ao estilo das Cruzadas, tenha encontrado ampla aprovação. O que a Al Qaeda ainda tem é uma mística, a lenda de um pequeno grupo de guerreiros que tomou um império e desferiu um golpe devastador. Essa mística ainda tem um tremendo apelo, mesmo para os insurgentes que divergem dos métodos da Al Qaeda ou de seu foco em atacar os EUA. Na Nigéria, o grupo radical islâmico Boko Haram já matou milhares de pessoas nos últimos anos em sua luta para derrubar o governo e estabelecer um Estado islâmico. Lá, a luta é em grande parte sectária; o Boko Haram atacou principalmente os cristãos e queimou igrejas. Jihadistas agora controlam o vasto norte do Mali, como Romney mencionou mais de uma vez no último debate, e têm ligações com um grupo mais antigo oficialmente filiado à Al Qaeda, que cresceu a partir do conflito civil da Argélia na década de 1990. Embora esses grupos estejam bem armados e sejam perigosos, alguns parecem ser mais criminoso do que ideológicos, focados em sequestros e tráfico de drogas. Os jihadistas também ganharam força na península de Sinai no Egito, do outro lado da fronteira com Israel. Em um ponto durante o debate, Romney pareceu ligar as ameaças variadas com a ascensão da Irmandade Muçulmana ao poder no Egito. Para alguns analistas de terrorismo, esse tipo de conversa é contraproducente, porque borra distinções cruciais entre aliados potenciais que professam crer na democracia e direitos cívicos, como a Irmandade, e os islâmicos mais militantes que veem esses princípios como heresia. “Há ainda uma tendência para falar sobre o inimigo em termos grandiosos, ligando todos eles, porque isso faz você parecer duro”, diz Fishman da New America Foundation. “Na verdade, isso faz o contrário, porque obscurece as diferenças que deveriam estar no centro dos nossos esforços de contraterrorismo.” O movimento mais perigoso da Al Qaeda, do ponto de vista norte-americano, é o do Iêmen, que tentou várias vezes plantar bombas em aviões com destino aos Estados Unidos. Lá, como no Afeganistão e Paquistão, os ataques de teleguiados norte-americanos tiveram um efeito devastador, matando o clérigo nascido nos EUA Anwar al-Awlaki e muitos outros altos líderes. O grupo assumiu vastos territórios do sul do Iêmen no ano passado, enquanto o governo iemenita estava distraído com protestos de rua na capital; mas os jihadistas foram conduzidos de volta em junho, com assistência militar dos EUA. Ao mesmo tempo, a maior parte das realidades políticas que inspiraram a organização de Bin Laden ainda existem, incluindo o apoio dos Estados Unidos a Israel e aos governantes de Estados do Golfo Pérsico. O poder militar dos EUA ainda está lutando no Afeganistão, e o Talibã, que abrigou a Al Qaeda durante os anos 1990, poderá ganhar maior poder depois de uma retirada dos EUA. Al Qaeda “nunca foi um movimento de massas; ela sempre teve a intenção de ser uma vanguarda”, disse Bernard Haykel, professor de Estudos do Oriente Próximo na Universidade de Princeton. “Então, mesmo com o desaparecimento de grande parte da primeira geração de líderes, é muito difícil declarar que o movimento está morto.”

Talvez seja uma amostra da ansiedade crescente no Afeganistão o fato de que os comentários aparentemente inofensivos de um enviado dos EUA sobre uma primeira fronteira estabelecida no século 19 tenham provocado uma semana de cartas desafiadoras por parte de funcionários afegãos e burburinhos temerosos sobre conspirações sendo incubadas em Washington e Islamabad. Ahmed Barakzai, um joalheiro Cabul, resumiu bem: com a saída dos EUA se aproximando, os afegãos "sabem que estão entrando num momento perigoso", disse entre garfadas de peixe num restaurante lotado. Os homens à sua volta concordaram. A "questão da linha", como ele chamou a fronteira, pode ser menor para o resto do mundo. Mas nos "mostra que temos amigos em quem não podemos confiar", disse Barakzai, 43. Todos que ouviam sabiam que ele estava falando dos EUA, e continuaram concordando. A fronteira, é claro, não é um limite simples: é a Linha Durand, que leva o nome do oficial colonial britânico que a desenhou para separar as posses do Império Britânico das do Afeganistão – dividindo terras tradicionalmente pashtun entre o Afeganistão e que mais tarde se tornaria o Paquistão. Hoje, para a maior parte do mundo, a linha, apesar de controversa, é oficial. Só não diga isso para os afegãos. O embaixador Marc Grossman, representante especial dos EUA para o Afeganistão e Paquistão, descobriu isso da maneira mais difícil, na semana passada, quando questionado por um repórter da televisão afegã se os EUA concordavam que "as terras para além dessa fronteira, a Linha Durand, são terras do Afeganistão." A resposta de Grossman – "a fronteira é a fronteira internacional" – refletiu a política dos EUA há décadas. A reivindicação do Afeganistão por uma parte do noroeste do Paquistão, que acredita que os britânicos roubaram, só é levada a sério no Afeganistão. Então Grossman seguiu em frente, passando a falar sobre a necessidade de mais cooperação regional – que na linguagem diplomática significa melhorar as relações entre o Afeganistão e o Paquistão. Como se fosse fácil. Os comentários de Grossman logo se tornaram manchetes no Afeganistão, e assim foi por alguns dias. O Ministério das Relações Exteriores, que sabia que Grossman não tinha dito nada de novo, mesmo assim reagiu aos comentários, chamando a posição de Washington de "irrelevante".
"O status da Linha Durand é uma questão de importância histórica para o povo afegão", disse num comunicado. O porta-voz do presidente Hamid Karzai, Aimal Faizi, também expressou ressentimento numa mensagem no dia de Eid al-Adha, o feriado islâmico, que começou no dia 19. “Que Deus todo poderoso traga segurança, paz e unidade para o Afeganistão, em particular para os dois lados da Linha Durand”, disse o gabinete do porta-voz numa declaração. Os comentários de Grossman, feitos num momento em que os afegãos estão particularmente apreensivos sobre o futuro do país, atingiram um ponto sensível. Cada vez mais, e mais abertamente, os afegãos têm debatido os limites do que podem esperar dos EUA, um aliado que costuma ser tanto vilificado quanto visto como um benfeitor necessário e protetor. Para agravar o insulto, do ponto de vista do Afeganistão, os EUA estão tomando o lado do Paquistão, cujo governo estaria supostamente abrigando e auxiliando o Talibã e militantes Haqqani, que comandam a insurgência no Afeganistão e que estão abrigados nos territórios cortados pela Linha Durand. "Para o lado afegão, sempre houve essa expectativa que se envolvêssemos os EUA mais profundamente nas questões do Afeganistão, isso levaria a uma solução do problema do extremismo militante do Paquistão", disse Haseeb Humayoon da Qara Consulting, uma firma de consultoria política em Cabul. Mas agora, acrescentou, os EUA estão voltando atrás, e “o problema permanece”. A sensação de expectativas frustradas é palpável, e as esperanças estão cada vez mais sendo substituídas por teorias de conspiração. Embora essas teorias – que espelham as teorias ouvidas com frequência sobre os EUA do lado paquistanês da fronteira, embora um tanto menos enérgicas – sempre tenham sido sussurradas aqui, eles estão ganhando volume à medida que a retirada dos EUA se aproxima. Barakzai, o joalheiro, especulou que os comentários de Grossman resultaram de um acordo secreto entre Washington e Islamabad para subjugar o Afeganistão – uma virada da paranoia paquistanesa de que a guerra dos EUA no Afeganistão não foi nada mais do que um pretexto para privar o Paquistão de seu arsenal nuclear. Se ele acredita nisso? Ele disse não ter certeza, nem os outros homens que se juntaram na conversa. Mas tinham dúvidas: os EUA estão de fato partindo? O que, então, Washington quer deixar para trás? Quem os norte-americanos estão "realmente ouvindo?" A maioria insistiu que estava entre os afegãos que haviam recebido bem a intervenção dos EUA contra o Talibã em 2001. Eles certamente eram da classe que tinha se beneficiado com a prosperidade resultante, financiada pelos EUA, que pode ser pouca para os padrões ocidentais, mas era inimaginável aqui há pouco tempo atrás. Mas agora os afegãos "não sabem o que é o verdadeiro plano dos Estados Unidos para o nosso país", disse outro homem. Talvez não haja nenhum plano? Não, todos eles concordaram, não é possível: os EUA são poderosos demais para estarem atuando sem um plano.