sexta-feira, 8 de abril de 2011

Quem observa de longe, pelos noticiários de TV e das agências internacionais, poderia facilmente imaginar que o Irã de hoje é o lar de uma juventude resignada, obediente e sobretudo acuada pelas rígidas leis islâmicas, que proíbem qualquer contato com a cultura ocidental.
Mas logo nas primeiras imagens do documentário "A onda verde", que tem sua estreia em São Paulo como parte da 16ª edição do festival É Tudo Verdade , somos apresentados a um outro Irã: em um estádio de futebol lotado, dezenas de milhares de jovens iranianos vestem lenços, bandeiras e camisetas verdes enquanto ouvem, entre sorrisos e lágrimas nos olhos, o discurso de Mir-Houssein Mossauvi.
Com jeitão de professor universitário e sem o semblante pesado que por anos adornou cartazes de líderes políticos e religiosos no país, Mossauvi era o então candidato às eleições presidenciais de junho de 2009, que propunha profundas reformas e abertura ao país. "A onda verde", como o próprio nome sugere, registra o clima de euforia, esperança e supreendente liberdade política - para um país que já era comandado pela linha-dura de Mahmoud Ahmadinejad - que se espalhou pelas ruas, em especial da capital, Teerã, nas semanas que antecederam a eleição.
Moussavi, como quis a história (ou os líderes religiosos), foi derrotado nas urnas, e a tal onda verde foi engolida por um tsnuami vermelho-sangue que tomou as ruas da capital iraniana para calar a voz dos milhares de descontentes, que voltaram a promover gigantescas manifestações públicas gritando, desta vez, um outro slogan: "Onde está o meu voto?".
Em um Irã onde é impossível portar uma câmera de filmagem profissional sem autorização expressa do governo, o documentário foi produzido a partir de vídeos postados no YouTube, mensagens de Twitter e depoimentos de iranianos exilados colhidos pelo diretor Ali Samadi Ahadi. Os diversos e naturais "buracos" na história são preenchidos com animações em linguagem de quadrinhos que lembram o documentário "Valsa com Bashir".
Mas a juventude iraniana não quer apenas tomar o poder. Em alguns casos, serve o ecstasy. Desafiando as severas punições contra qualquer tipo de droga no país, jovens de Teerã dão a cara no média-metragem "Menos dois", participando de festas clandestinas regadas a pastilhas e bebida alcóolica - tudo, claro, proibido no país. O minidocumentário de Mohammad Ehsani entrega que, por mais resistência que tente oferecer à "contaminação" da cultura ocidental, o Irã tem também seus rappers que imitam os ídolos norte-americanos, garotas que parecem saídas de um "club" de música eletrônica europeu e patricinhas que trocam o véu obrigatório na rua por ousadas minissaias em festinhas caseiras.
"Menos dois" ainda tenta mostrar o outro lado da moeda: o junkie perdido no vício que vira morador de rua e passa a injetar suas doses de heroína em meio à sujeira no céu aberto, e mulheres devastadas pela miséria e demência mental.
O contraponto, no entanto, nem sempre funciona, possivelmente graças ao tempo para lá de limitado (27 minutos) do filme. Mas um de seus maiores méritos é que, diferentemente de "A onda verde", editado e realizado dentro de um protegido estúdio na Alemanha, o média-metragem de Ehsani foi gravado no coração de Teerã, "contravenção" tão arriscada quanto ser pego pela polícia com comprimidos de ecstasy ou uma garrafa de uísque num país islâmico.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O fotógrafo iraniano Kamran Jebreili fez imagens do Iêmen durante inúmeras viagens ao país entre 1999 e 2009.
A República do Iêmen foi fundada em 1990 com a unificação com o Iêmen do Sul, mas a região abriga civilizações há milênios.
O país voltou a ganhar destaque no noticiário recentemente devido à onda de protestos contra o governo do presidente Ali Abudllah Saleh, há 32 anos no poder.
Muitos analistas temem que o Iêmen se transforme em um Estado falido. Com uma taxa de desemprego ao redor de 40% da população economicamente ativa,altos níveis de desnutrição e pobreza e inflação no setor de alimentos, o Iêmen é um dos mais pobres do Oriente Médio.
Há temores de que, imerso na falta de perspectivas, sobretudo para os mais jovens, o país vire um refúgio para a rede extremista Al Qaeda.
O governo iemenita tem enfrentado uma série de problemas na sua área de defesa e segurança, incluindo um movimento separatista no sul e um levante de rebeldes Houthi, xiitas, no norte.
A Pinacoteca do Estado de São Paulo apresenta a exposição "Trilogia Vermelha: China", a partir do dia 9 de abril, às 11h.
A mostra contará com 65 fotografias de Mauricio Nahas, Paulo Mancini e Ricardo Barcellos, realizadas na China em 2010.
As imagens foram captadas durante 40 dias nas cidades de Pequim (Beijing) e Xangai, e em outras 18 pequenas cidades e províncias espalhadas pela China.
A exposição se completa com um conjunto de 20 imagens clicadas em Cuba (2005) e na Rússia (2007).
Todas integram o projeto "Trilogia Vermelha", iniciado em 2005 na Pinacoteca do Estado, que já apresentou os outros dois países segundo o olhar dos fotógrafos viajantes.
Na ocasião, será lançado o livro "China", pela editora DBA, com textos Diógenes Moura, curador de fotografia da Pinacoteca e da exposição.
Pinacoteca do Estado de São Paulo - Praça da Luz, 2 São Paulo, SP - Tel. 55 11 3324-1000
Estação Pinacoteca - Largo General Osório, 66 São Paulo, SP - Tel. 55 11 3335-4990
Memorial da Resistência de São Paulo - Largo General Osório, 66 São Paulo, SP -Tel. 55 11 3335-4990
Fale com a ouvidoria ouvidoria@cultura.sp.gov.br

Milhares de cinéfilos de Hong Kong compraram ingressos em pré-venda para o grandioso filme pornô chinês 3D Sex and Zen: Extreme Ecstasy, o primeiro filmado em IMAX 3D. Segundo o jornal britânico The Independent, a produção que custou mais de R$ 5 milhões tem chamado atenção em toda a Ásia e Europa.
O filme é baseado no conto erótico chinês O Tapete Carnal de Orações e foi escrito e produzido por Stephen Shiu, como uma reformulação do clássico cult Sex and Zen (1991), que arrecadou mais de 2,6 milhões de dólares e foi por mais uma década o filme erótico mais visto de Hong Kong. Ele conta a história de um homem que, ao encontrar com um duque, é apresentado a um mundo de orgias de luxo.
Shiu prometeu "algumas cenas de sexo em animação" no longa-metragem, que tem direção de Christopher Sun. O elenco conta com uma estrela de vídeos adultos de Hong Kong e duas do Japão, Yukiko Suô e Saori Hara. "O filme vai fazer o público sentir como se estivesse sentado ali, na beira da cama", afirmou. "Eu acredito que ninguém viu um filme como o nosso", completou.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Ao som de música ambiente vinda dos alto-falantes, Kelvin Kwong ajoelhou-se e declarou seu amor por sua noiva, Ashley Tse, diante de um grupo de barulhentos representantes da mídia. A festa de noivado dos dois, promovida no Dia de São Valentim, ou Dia dos Namorados, inaugurou o novo e fortemente promovido serviço nupcial dos restaurantes McDonald's em Hong Kong, os primeiros do mundo que oferecem McCasamentos.
Em 2006, a Prefeitura de Hong Kong modificou uma lei, autorizando a celebração de casamentos em lugares que não sejam templos ou a sede da prefeitura. Presente em Hong Kong desde 1975, o McDonald's é a primeira rede de fast food a aproveitar a oportunidade de ingressar nesse ramo lucrativo que, segundo o site de mídia on-line ESD Life, movimenta cerca de US$ 1,37 bilhão por ano ou 10,7 bilhões de dólares de Hong Kong. Uma pesquisa da ESD constatou que o gasto médio que um casal tem com seu casamento é de US$ 29.200; como a renda familiar média é de apenas US$ 2.250, não é incomum que casais jovens -ou, com frequência, a família do noivo- economizem durante anos ou contraiam dívidas para pagar pelo casamento.
Já um McCasamento custa a partir de US$ 1.280, valor que inclui comida e bebidas para 50 pessoas. O pacote inclui uma versão a preço reduzido de todos os elementos das festas de casamento: um "bolo" feito de tortas de maçã empilhadas, lembranças para os convidados e os convites para o casamento, cada um com uma foto do casal.
Funcionários do McDonald's trajando ternos pretos imitam as ações das hostesses de hotéis elegantes. Eles recebem os convidados, os conduzem até o livro de assinaturas e servem a comida, mesmo que esta seja apenas um Big Mac com fritas.
Shirley Chang, diretora gerente dos 226 restaurantes McDonald's em Hong Kong, disse que os McCasamentos foram idealizados de modo a se adequar aos costumes locais, particularmente à crença chinesa na numerologia, que determina as melhores datas para casamentos e outros eventos importantes. O anúncio dos McCasamentos foi feito em 10 de outubro de 2010, porque "10-10-10" é considerada uma combinação que dá sorte.
A ausência de álcool não parece incomodar, e Chang disse que até agora não houve pedidos para incluir bebidas alcoólicas nos casamentos. Em vez disso, os casais brindam com uma bebida açucarada, devido às implicações da "doçura" nas crenças chinesas. "É por isso que brindamos com um sundae", disse ela.
De acordo com Chang, entre 50 e 60 casamentos estão sendo negociados com os gerentes de planejamento de festas do McDonald's Hong Kong.
Gordon Mathews, antropólogo da Universidade Chinesa de Hong Kong, explicou a atração de um McCasamento.
"A geração que está se casando hoje cresceu estudando no McDonald's", disse ele. "Nos EUA e em outros lugares, pessoas da classe média ou alta classe média desdenham o McDonald's. Mas aqui, em Hong Kong, é diferente. Um casamento celebrado no McDonald's não seria visto como algo cafona."
De volta à festa para os noivos Kwong e Tse, a hostess comandava os convidados em uma brincadeira barulhenta com balões. As pessoas pareciam estar realmente felizes e nem um pouco constrangidas, erguendo seus milk shakes para brindar o casal, os representantes do McDonald's e até mesmo jornalistas que cobriam o evento.
Mas, indagado se fará seu casamento no mesmo lugar, Kwong hesitou. "Ouvi dizer que há gente que se casa na praia", disse.
Muhammad al Maskati é atualmente um prisioneiro em seu próprio apartamento, seu BlackBerry foi desligado pelo governo, enquanto as ruas foram tomadas por tanques, e os hospitais estão realmente lotados de feridos.
Al Maskati, 24, ativista de direitos humanos, ainda há pouco se sentia prestes a participar de uma revolução pacífica como a do Egito, por meio de um obstinado compromisso com a não violência. Mas os tanques sauditas entraram no Bahrein, e o Estado impôs todo o seu poderio sobre civis desarmados.
"Achávamos que funcionaria", disse Al Maskati. "Mas a agressão agora está demais. Agora não é mais uma questão de protesto, é uma questão de autodefesa."
A Primavera Árabe não necessariamente terminou, mas tem esbarrado em ditadores dispostos a usar a força letal para preservar o seu valioso poder.
O ímpeto juvenil por mudança estancou primeiro na Líbia, onde o coronel Muammar Gaddafi lançou as tropas contra o seu povo e, em seguida, no Bahrein, onde o rei Hamad bin Isa al Khalifa pediu a ajuda da Arábia Saudita para esmagar as manifestações.
No início, os jovens manifestantes do Oriente Médio, livres do medo que havia dominado seus pais, pareciam uma força imparável, impossível de ser dominada, impulsionada pelo poder da demografia -cerca de 60% dos árabes têm menos de 30 anos.
Eles começaram a alterar sociedades onde os jovens se submetem aos mais velhos, derrubando não só governos mas também hierarquias até então consolidadas.
O movimento ainda provoca mudanças em lugares como Marrocos e Jordânia, guia as transições no Egito e na Tunísia, e vai se desenrolando em países como Argélia e Iêmen. Os jovens continuam na linha de frente, empunhando as ferramentas digitais com as quais cresceram, a fim de mobilizar protestos, burlar a vigilância e ultrapassar os limites das classes sociais.
O acesso dessa geração a uma vida sem fronteiras, por meio da internet e de redes pan-árabes de TV como a Al Jazeera, os expôs a outras sociedades, alimentando o ódio contra a repressão política e a estagnação econômica.
O que surpreendeu a muitos foi a ausência do discurso religioso -e a adoção do pluralismo- por parte de uma geração mais praticante que a dos seus pais. Os antigos, muitas vezes, buscavam no islã um consolo diante dos governantes despóticos e das suas vidas obliteradas.
Essa nova geração rejeitou os líderes tradicionais da oposição, como os inofensivos partidos políticos, que serviam aos ditadores por lhes darem um verniz de legitimidade democrática ou a Irmandade Muçulmana, que muitos passaram a ver como parte do chamado status quo.
Jovens entrevistados em toda a região ecoaram as mesmas ideias, táticas e motivações que desencadearam as revoluções no Egito e na Tunísia.
É uma força guiada por jovens como Tarek al Naimat, 26, da Jordânia, que ao aderiu ao Facebook há algumas semanas, dizendo ser essa rede social uma ferramenta mais poderosa que a Irmandade Muçulmana.
Ou Oussama el Khlifi, 23, que deixou a União Socialista de Forças Populares de Marrocos para fundar um movimento não ideológico -inicialmente organizado pelo Facebook- que já reuniu números inéditos nas ruas do país, pressionando o rei a anunciar planos para modificar a Constituição.
"Vimos que a mudança não aconteceria por meio dos partidos, aconteceria por meio das pessoas", afirmou El Khlifi.
"Criamos o grupo "Marroquinos Discutem o Rei" no Facebook e, em quatro ou cinco dias, já tínhamos 3.000 membros." As vitórias iniciais na Tunísia e no Egito os encorajaram.
"Cresci em um mundo onde acreditávamos que não podíamos fazer nada. Mas agora, em questão de semanas, sabemos que podemos", disse Mariam Abu Adas, 32, uma ativista digital da Jordânia que participou da criação de uma empresa, chamada Hiber, que ensina os jovens como usar as mídias sociais.
Esse é um novo modelo para o Oriente Médio, não só porque os jovens estão assumindo a liderança mas também porque os mais velhos começaram a ouvir e seguir.
"Dos jovens, nós tínhamos medo, mas acabamos por ver que a juventude está movimentando a região", disse Mustafa Rawashdeh, ex-diretor de uma escola em Karak, na Jordânia, que foi demitido após tentar formar um sindicato de professores. "Os jovens viram os ventos da mudança e nos guiaram."
Mas, então, as forças de Gaddafi abriram fogo, e, em seguida, o rei Hamad reprimiu os manifestantes no Bahrein. No Iêmen, as forças de apoio ao regime também mataram dezenas de manifestantes.
O idealismo dos jovens ativistas foi desafiado pela amarga realidade da repressão, deixando-os desanimados, mas resolutos.
É uma pausa com ar grave, para que os bareinitas tratem dos seus feridos, e a oposição líbia, com ajuda dos bombardeios internacionais, reaja às forças pró-Gaddafi.
No Iêmen, a oposição mantém por enquanto as suas táticas pacíficas, enquanto pressiona pela renúncia imediata do presidente Ali Abdullah Saleh, rejeitando sua oferta de sair no começo do próximo ano.
Mas o futuro da Primavera Árabe está em jogo.
"Eu não acredito que os protestos pacíficos vão continuar", disse Al Maskati. "Agora, trata-se de resistir à agressão."