sábado, 7 de março de 2015

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Primeiro a polícia levou embora o designer gráfico do "think tank" (instituto de estudos), depois o rapaz que organizava seminários e, por fim, o fundador da organização. Outro funcionário abandonou a capital chinesa, temendo ser forçado a testemunhar contra seus colegas em julgamentos manipulados.
"A ansiedade é avassaladora", comentou o funcionário, Yang Zili, pesquisador no Instituto Transição de Pesquisas Sociais e Econômicas, de Pequim, que vive na clandestinidade desde novembro. "É assustador. A polícia não está agindo em conformidade com a lei. Ela faz o que quer."
Estes são tempos perigosos para as organizações civis independentes na China, especialmente as que atuam com causas politicamente delicadas, como os direitos de trabalhadores, a defesa jurídica e a discriminação contra pessoas com Aids.
Sob o presidente Xi Jinping, o Partido Comunista estreitou fortemente os limites das atividades aceitas, desencadeando o medo de que os bolsões de abertura na paisagem política chinesa, de modo geral restritiva, possam estar com os dias contados.
Nos últimos meses, o governo reprimiu vários grupos, incluindo um que combate a discriminação às pessoas com hepatite B e até uma rede voluntária de 22 bibliotecas rurais. "As pressões sobre as organizações de base nunca foram tão intensas", comentou Zhang Zhiru, diretor de um grupo de defesa dos direitos trabalhistas na cidade de Shenzhen, na província de Guangdong.
Nos últimos 12 meses, seu carro foi depredado e o assédio policial obrigou seu grupo a mudar sua sede de lugar mais de dez vezes. Seus últimos cinco funcionários se demitiram em dezembro.
Normas que entraram em vigor recentemente em Guangzhou, cidade do sul da China, intensificaram o controle de entidades sem fins lucrativos que recebem doações do exterior. O governo central propôs a intensificação do controle sobre ONGs (organizações não governamentais) estrangeiras.
Com os filantropos chineses receosos de desagradar às autoridades, o financiamento recebido pela entidade de Zhang, o Centro de Disputas Trabalhistas Shenzhen Chunfeng, desapareceu. Até mesmo sites de financiamento coletivo chineses se negam a incluir a organização em suas listas.
A campanha também se volta contra grupos vistos como santuários de dissensão. O Instituto Transição defendia um misto de economia de livre mercado e apoio aos oprimidos, realizando pesquisas sobre a exploração de taxistas, sobre políticas de ensino que prejudicam os estudantes da zona rural e sobre os custos ambientais da enorme barragem de Três Gargantas, no rio Yangtsé. Mas o instituto também atraiu proponentes de reformas democráticas, alguns dos quais tinham tido desentendimentos com as autoridades.
"Sempre esperávamos conseguir sobreviver sob circunstâncias inóspitas", comentou Yang, 43, o pesquisador agora na clandestinidade. Ele já passou oito anos na prisão por promover debates informais com amigos sobre eleições pluripartidárias e uma imprensa livre. "Mas as ONGs mais independentes, especialmente as que criticam a política governamental ou não promovem a imagem do governo, têm se deparado com uma política de contenção e destruição."
O Partido Comunista diz que entidades filantrópicas e outras organizações de base podem prestar serviços sociais importantes em um país onerado pela pobreza e pela urbanização, e o número dessas organizações vem crescendo. Mas o partido também desconfia de qualquer ativismo cidadão que não tenha como controlar. Para serem registrados como organizações sem fins lucrativos, os grupos precisam primeiramente ter o patrocínio de uma entidade estatal. Como muitas outras entidades, o Instituto Transição optou em vez disso por se cadastrar como empresa.
Anthony J. Spires, professor-associado da Universidade Chinesa de Hong Kong, estimou que existam entre 2.500 e 3.000 ONGs na China. "Elas ajudam a preencher uma lacuna na sociedade chinesa, lacuna que o governo reconhece", disse. Mas, acrescentou, essa tolerância do governo "pode acabar de uma hora para outra".
O Instituto Transição era especialmente vulnerável, pois grande parte de seu orçamento anual, de entre US$ 480 mil e US$ 650 mil, vinha de fundações estrangeiras, segundo ex-funcionários.
Com seus colegas no Instituto Transição desaparecendo um a um, Yang decidiu partir para a clandestinidade. Ele deixou uma mensagem na internet para sua esposa, desligou seu celular e fugiu. Num encontro com um repórter em um local a várias horas de distância de Pequim, ele disse que sente saudades de sua mulher e seu filho de quatro anos. Visivelmente nervoso, falou do medo de ser levado de volta à prisão.
Yang disse que se entregará à polícia se for emitido um mandado de prisão contra ele, mas que não está interessado em cooperar com o que descreve como a perseguição extralegal de seus colegas.
"Ainda não entendo o que fizemos de errado", queixou-se. "Estávamos apenas tentando ajudar a melhorar o país."
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O livro mais recente do fotógrafo Xu Yong é repleto de jovens idealistas clamando por independência e criticando o Partido Comunista da China. Apesar disso, Xu insiste que não houve nada de político na decisão de publicar essa coletânea de imagens, que ele escondeu por mais de duas décadas. "Esse é um livro de arte", disse Xu, 60, que já publicou mais de 20 livros de fotografia. "Não tenho interesse em discutir o significado das fotos."
Ainda assim, a publicação de imagens dos protestos que convulsionaram Pequim em 1989 provavelmente será vista como uma provocação pelos setores de linha dura que governam a China. Essas autoridades tentaram, sem muito êxito, promover uma amnésia coletiva, censurando fotos e relatos noticiosos sobre o tema.
É fácil avaliar o livro mais recente de Xu, "Negatives", como uma empreitada corajosa e temerária. Dezenas de pessoas foram detidas recentemente, entre elas vários amigos de Xu, inclusive por terem compartilhado fotos dos protestos pró-democracia do ano passado em Hong Kong.
Um dos mais conhecidos advogados de direitos civis da China, Pu Zhiqiang, está detido desde 2014, após ter participado de uma reunião no apartamento de um amigo para discutir a repressão violenta aos manifestantes na praça Tienanmen 25 anos antes.
"Xu não tem ilusões quanto aos riscos, mas essa foi sua escolha", comentou Renee Chiang, da New Century Press, editora de Hong Kong que está enviando exemplares de "Negatives" para livrarias fora da China continental.
Xu é conhecido principalmente por suas imagens soturnas em preto e branco, feitas no final dos anos 1980, que captaram a beleza das vielas antigas de Pequim, antes da modernização da cidade. Recentemente, ele foi elogiado por uma série que mostrava um dia na vida de uma prostituta.
Em seu livro, não há imagens da repressão final e sangrenta de 4 de junho de 1989, que deixou centenas ou até milhares de civis desarmados mortos, depois que tropas chinesas abriram caminho à força no coração da capital.
Mais intrigante é a decisão de Xu de imprimir apenas os negativos de 35 milímetros originais, sem retoques, que ele clicou com sua câmera Konica. Há algo de impenetrável nas imagens, com suas cores apagadas e as silhuetas fantasmagóricas dos manifestantes, lembrando radiografias.
Os negativos não passam de um logro visual. Usando um iPhone ou iPad -para isso, clique em "Ajustes", depois em "Geral", "Acessibilidade" e, por fim, "Inverter Cores"-, o espectador pode ver as cores originais das imagens feitas por Xu.
Quando os grevistas da fome e os soldados jovens e assustados ganham vida, é como se o leitor tivesse desembarcado sem querer em um mundo perdido.
Em entrevista, Xu disse que está tentando ensinar à geração do novo milênio sobre o mundo da fotografia quimicamente dependente, anterior à era digital. "Diferentemente das fotos digitais, que podem ser manipuladas, os negativos nunca mentem", disse.
Na primavera de 1989, Xu tinha acabado de deixar seu emprego numa agência publicitária estatal, incentivado pelas políticas orientadas ao mercado de Deng Xiaoping. Milhares de estudantes tinham saído às ruas para reivindicar menos censura, mais liberdade e o fim da corrupção. "Senti que era um momento crítico e que cada instante precisava ser documentado." Xu passou seis semanas na praça Tienanmen e arredores.
Ele não revelou quantas fotos fez, mas o livro inclui 64, uma alusão numérica sutil ao modo como muitos chineses se referem à data da operação de repressão -4 de junho- para contornar a censura.
A foto final do livro, uma imagem desfocada de um tanque, é a única alusão à força bruta que pôs fim aos protestos pacíficos.
Líderes do Partido Comunista declararam os protestos um "motim contrarrevolucionário" e colocaram muitos dos jovens organizadores na prisão.
Perry Link, sinólogo da Universidade da Califórnia em Riverside, disse que, ao mostrar protestos alegres e pacíficos que levaram milhões de pessoas às ruas -entre elas membros leais do Partido Comunista e veteranos do Exército-, as imagens de Xu refutam a alegação oficial de que os protestos teriam sido uma insurreição perigosa.
"É uma maneira maravilhosa de captar aquele aspecto oculto de insegurança que acompanha a questão de Tienanmen e que, de modo mais amplo, assombra boa parte da China oficial hoje", disse.
"O artista parece estar dizendo: 'Eis a realidade que ninguém encara, mas que todos sabem que está ali'."
Reconhecendo o perigo inerente a seu projeto, Xu deu de ombros, dizendo que os negativos estavam começando a amarelar. "Estou envelhecendo. Se eu não publicar agora, quando o farei?" 
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quinta-feira, 5 de março de 2015


 

"Desde o início, a Xiaomi considerou o celular um dispositivo que combina software, serviços de internet e hardware, e não apenas um simples aparelho", declarou Lei Jun, o carismático fundador da Xiaomi, uma fabricante de smartphones da China com aspirações globais, numa reunião ocorrida recentemente na sede da companhia, em Pequim, com Choi Yang-hee, ministro das Telecomunicações da Coreia do Sul.
Embora os comentários de Lei possam parecer genéricos, a reunião revelou algo importante a respeito da Xiaomi. O fato de um ministro sul-coreano dignar-se a visitar uma empresa de tecnologia chinesa, que até pouco tempo atrás mal era conhecida fora do seu país, e ficar ouvindo este discurso, é bastante revelador. É tão grande a arrogância coreana a respeito da façanha de suas chaebol (corporações) - principalmente a Samsung, a maior fabricante de celulares do mundo - que a cena seria inimaginável há alguns anos. Ela demonstra o temor da Samsung de ser derrubada pelo "choque Xiaomi", na definição de outro ministro sul-coreano.
Para saber o que isso significa, basta levar em conta o que a empresa realizou desde que seu primeiro telefone foi lançado, há quatro anos.
No ano passado, suas vendas mundiais chegaram a 61 milhões de celulares, um aumento de 22% em relação ao ano anterior, tornando-a a sexta maior fabricante de celulares do mundo. Na China, a Xiaomi superou todas as concorrentes, estrangeiras e locais, até o último trimestre do ano passado, tornando-se a marca de telefones que mais vende no país. Este ano, Lei quer vender 100 milhões de unidades no mundo todo.
A companhia já deu início a uma grande iniciativa para alcançar este objetivo. No ano passado, começou a vender telefones em alguns países do Sudeste Asiático, como Cingapura. Também firmou um acordo com a Flipkart, a principal companhia de comércio eletrônico da Índia, para vender celulares naquele mercado. No início deste mês, o executivo-chefe revelou seus planos de vender fones de ouvido e outros acessórios (embora ainda não celulares) nos Estados Unidos.
O Google e sua loja de aplicativos Android não se encontram na China, o que tornará mais fácil para o tipo de sistema operacional Android da Xiaomi, e sua loja de aplicativos, florescerem aqui. Poucos consumidores de outros mercados emergentes estão tão ligados no comércio eletrônico quanto os chineses. Entrar nestes mercados talvez exija da Xiaomi, que até agora dependeu na maior parte das vendas internas e da propaganda boca a boca, pesados investimentos em publicidade e em lojas físicas.
A lucratividade também é uma grande preocupação. A companhia chinesa, que é ainda fechada, divulgou poucos detalhes sobre suas finanças. Mas Mark Li, da empresa de pesquisa Sanford C. Bernstein, acredita que seus celulares não cheguem a produzir as margens de dois dígitos auferidas pela Apple. A própria companhia admite que ganhou margens maiores com a venda de milhões dos seus fofos brinquedos promocionais - que têm a forma de um coelhinho chamado Mitu - do que com os aparelhos.
Propriedade intelectual. Outro empecilho é o fato de ela não ter a propriedade intelectual. Os litígios entre as companhias de smartphones são extremamente frequentes. Ao contrário de suas concorrentes mais experientes, a Lenovo (que adquiriu a divisão de smartphones do Google) e a Huawei, a Xiaomi não tem uma ampla carteira de patentes. Lin Bin, seu presidente, afirma que solicitou milhares de patentes preparando-se para um violento ataque no campo legal: "Prevemos que isso irá acontecer". Na realidade, um tribunal indiano está investigando as queixas de que a Xiaomi desobedeceu à sua ordem de parar as vendas de alguns dos seus telefones no país, por causa de um processo sobre patentes.
Considerando estes obstáculos, por que a Samsung continua preocupada? Uma das razões é que a Xiaomi se posicionou para quebrar empresas que oferecem dispositivos super elaborados e super caros. Seus melhores celulares não são tão bons quanto os melhores da Apple ou da Samsung, mas são muito melhores do que os de outras concorrentes que trabalham a preços mais baixos - e custam a metade de um novo iPhone não subsidiado.
Conforme a afirmação de Lei ao ministro coreano, desde o início ele compreendeu o espantoso poder do dispositivo móvel conectado. Isso levou a um modelo de empresa que combina o "jardim murado" da Apple, que encoraja os usuários a permanecerem leais ao seu "ecossistema" de aplicativos, com o emprego do Kindle pela Amazon como chamariz para vender conteúdo, software e serviços lucrativos. A Xiaomi começou vendendo celulares sem lucro, mas está criando uma série de aplicativos, uma parafernália de gadgets para a casa inteligente, vídeo online e dispositivos periféricos para obter retorno sobre seu investimento.
A outra razão pela qual as empresas mais fortes deveriam se preocupar com a Xiaomi é seu poder de fogo financeiro. Cerca de 39 bancos se apressaram para lhe oferecer US$ 1 bilhão em outubro. Em dezembro, vários investidores, como o GIC, o fundo soberano de Cingapura, e o DST, da Rússia, um dos primeiros investidores do Facebook, forneceram mais US$ 1,1 bilhão. Calcula-se que este último investimento, que confere à empresa um valor de mercado de US$ 45 bilhões, faz da novata chinesa a startup mais valiosa do mundo. A campanha de "choque e pavor" da Xiaomi vai prosseguir.