domingo, 5 de fevereiro de 2012


Na China, um novo conjunto de estereótipos automobilísticos está se firmando -e a concorrência por fabricantes estrangeiros é cada vez maior. A Mercedes-Benz, marca que na maior parte do mundo sugere respeito e dinheiro, para muitos chineses remete a aposentados. O Buick, há muito tempo associado nos EUA a pessoas que gostam de poupar dinheiro, é um carro de luxo admirado na China. No entanto, nenhum veículo desenvolveu no país uma reputação tão sólida quanto o Audi A6, a opção dos burocratas chineses. Seu desenho elegante e os vidros escuros exalam uma aura de privilégio, autoridade e, para muitos cidadãos, um toque de corrupção. "É sempre melhor dar passagem para um Audi", diz Wang Zhi, um motorista de táxi em Pequim. "Você nunca sabe com quem está lidando, mas é provável que seja alguém importante." O mercado de automóveis chinês está se tornando o mais lucrativo e estrategicamente importante do mundo. No ano passado, os chineses compraram 14,5 milhões de veículos de passageiros. As marcas estrangeiras representaram 64% das vendas totais em 2010, segundo a Associação de Fabricantes de Automóveis da China. Zhang Yu, diretor de uma consultoria da indústria de carros em Xangai, diz: "A China já é o maior mercado do mundo. Nenhuma companhia do setor pode desprezar sua marca chinesa." Os chineses ricos estão procurando uma série cada vez mais diversificada de carros estrangeiros de luxo. "Como o mercado é tão jovem, as percepções de marca de um carro são críticas", disse ele. A associação do Audi com os tecnocratas do partido é consequência da entrada do carro no mercado e seu antigo lugar na lista de compras cobiçadas do governo. "Quando as pessoas veem autoridades em BMWs, automaticamente desconfiam de corrupção ou desvios, mas os Audis são considerados normais", disse Jessica Wu, relações-públicas na indústria de carros chinesa.
Um Audi A6 custa 355 mil yuans (US$ 56 mil); o BMW 5 séries Li, 428 mil yuans (US$ 67.520). A BMW, baseada em Munique, tem reputação de veículos para arrogantes e bregas (as autoridades ricas preferem serem discretas). Parte desse estereótipo tem origem em um incidente de 2003, em que uma jovem motorista chinesa intencionalmente atropelou e matou um homem pobre que havia por acidente amassado seu BMW X5. O caso foi resolvido no tribunal por US$ 11 mil. O incidente foi considerado um fator de divisão entre ricos e pobres da China, prejudicando a imagem da marca BMW. Em maio, o motorista de um BMW M6 matou um pedestre em Nanquim, provocando um protesto público. "Se fossem todos Toyotas, Mitsubishis ou Audis, não acho que teriam gerado reação tão grande", disse um homem. O BMW vende bem na China. O romance chinês com o Buick tem raízes históricas. O último imperador chinês, Pu Yi, possuía dois Buicks e o ex-premiê Zhou Enlai dirigia um Buick 8 preto. No Sina Weibo, o blog mais popular do país, uma postagem recente resumiu os clichês dos carros: "Uma reunião de Mercedes indica um encontro de idosos", disse o autor. "Um grupo de BMWs significa jovens novos-ricos prestes a atropelar alguém e fazer uma festa; ao ver vários Audis, você sabe que é uma reunião do governo."


Num primeiro momento, Samira Ibrahim teve medo de contar a seu pai que soldados egípcios a prenderam na praça Tahrir, no Cairo, arrancaram suas roupas e ficaram assistindo enquanto ela era submetida a um "exame de virgindade" forçado. Mas quando seu pai, um conservador religioso, viu as marcas deixadas em seu corpo por uma arma de choque elétrico, isso trouxe de volta as memórias de quando ele próprio tinha sido preso e torturado, sob o governo do ditador Hosni Mubarak. "A história está se repetindo", ldisse seu pai. Juntos, pai e filha juraram mover uma ação na Justiça contra os governantes militares, "para reivindicar meus direitos", disse Samira. A ação está correndo na Justiça, por enquanto, com êxito. Em dezembro, pela primeira vez, um tribunal administrativo contestou a autoridade do conselho militar e proibiu a realização de "exames" de virgindade. Samira Ibrahim pediu a um tribunal militar que punisse os oficiais. Sua história ilustra a posição paradoxal das mulheres no Egito. Depois de a revolução ter imbuído muitas mulheres da coragem de reivindicar uma nova voz na vida pública, muitas estão constatando que ainda são dependentes da proteção de homens. Nos dias instigantes da revolução, quando feministas egípcias exerceram um papel ativo, lado a lado com os homens, para derrubar o ditador Mubarak, elas não esperavam que, depois, as mulheres fossem continuar na mesma posição de dependência. "Mudar a cultura patriarcal não é tão fácil", comentou Mozn Hassan, 32, diretora do grupo Nazra de Estudos Feministas. Mulheres que participavam de manifestações foram sexualmente agredidas por soldados egípcios, que são protegidos pelos tribunais militares. Grupos de defesa dos direitos humanos dizem que documentaram os casos de pelo menos cem mulheres que sofreram agressões sexuais por parte de soldados ou membros da polícia durante o governo militar -incluindo a mulher anônima filmada em vídeo em dezembro ao ser espancada por soldados na praça Tahrir. Os militares arrancaram as roupas da mulher, expondo seu sutiã azul. Há extremistas religiosos que querem reverter alguns dos direitos que as mulheres possuem. A Irmandade Muçulmana conquistou metade dos votos no Parlamento e os salafistas, mais extremistas, ficaram com 25%. Enquanto líderes da Irmandade falam em incentivar os papéis tradicionais, mas respeitar as opções profissionais das mulheres, muitos salafistas defendem que elas não devem ser autorizadas a exercer funções de liderança e propõem a regulamentação de questões como a vestimenta feminina, para impor os padrões islâmicos de discrição. As mulheres quase não exercem papéis de liderança nos grupos ativistas formados a partir dos protestos que levaram à queda de Mubarak. No primeiro Parlamento democraticamente eleito, que se reuniu pela primeira vez em 23 de janeiro, menos de 10 das 500 vagas são ocupadas por mulheres. Os debates eleitorais incluíram poucas menções a questões relativas às mulheres -desde a onipresença da mutilação genital feminina até a discriminação legalmente sancionada no trabalho-, a despeito das estatísticas oficiais que mostram que um terço das famílias egípcias depende dos salários ganhos por mulheres. "Não temos um movimento feminista", disse Hala Mustafa, editora do jornal estatal "Democracy". No entanto, algumas pessoas argumentam que a revolução estaria ajudando a revitalizar o dormente movimento feminista, ao proporcionar uma abertura política, fato que permitiu a Samira Ibrahim ter seu dia no tribunal. "Essa é a diferença que a revolução egípcia fez", comentou a veterana ativista dos direitos humanos Ghada Shabandar. "A muralha de medo caiu." Seis outras mulheres foram submetidas a "exames de virgindade" pelos soldados quando Samira foi agredida. Ela disse que a humilhação foi tão grande que desejou morrer. Quando ela viu o vídeo da "moça do sutiã azul" sendo espancada, isso reforçou sua determinação. "Senti que eu precisava vingar essa mulher."


O Irã inaugurou oficialmente um canal de TV em espanhol, a HispanTV, com programação 24 horas por dia e transmissão via satélite para países da América Latina e da Europa. A HispanTV entrou no ar em 21 de dezembro, apesar de a inauguração oficial ter sido apenas ontem. O evento contou com a participação por videoconferência do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, que deu vivas em espanhol "à paz, ao povo, à América Latina e à Espanha". Em sua fala, Ahmadinejad afirmou que o canal exibirá a "realidade cultural do Irã, do Oriente Médio e da América Latina" e vai "limitar o território daqueles que pretendem dominar a mídia". A última frase foi um claro recado a inimigos de Teerã como os EUA e países da União Europeia, que recentemente impuseram novas sanções aos iranianos devido ao programa nuclear do país. A emissora é mais um passo de Ahmadinejad na direção de seus aliados na América Latina, onde o presidente iraniano esteve no mês passado. Seu colega venezuelano, Hugo Chávez, mandou mensagem de felicitações pelo canal, lida na cerimônia.

Quando Kim Jong-un fez sua estreia como aparente herdeiro norte-coreano em setembro de 2010, ele se parecia muito com seu avô, o mais próximo que os norte-coreanos tinham de um deus, a ponto das autoridades de inteligência sul-coreanas terem notado que muitos norte-coreanos, ao verem o jovem pela primeira vez na televisão, caíram em lágrimas. “O regime deseja que seu povo veja Kim Jong-un como o Grande Líder Kim Il-sung reencarnado”, disse Kim Kwang-in, chefe do Centro de Estratégia para a Coreia do Norte, uma organização de pesquisa com sede em Seul, que reúne informação a partir de fontes dentro da Coreia do Norte. “Eles o engordaram e lhe deram um amplo treinamento –e também cirurgia plástica, alguns até mesmo diriam– para torná-lo igual ao seu avô.” Independente de a demonstração de júbilo em 2010 ter sido genuína ou uma propaganda orquestrada pelo Estado, ela marcou o início do que Kim e outros analistas daqui chamam de “política de avatar” na Coreia do Norte. Desde sua elevação à liderança após a morte de seu pai, Kim Jong-il, em dezembro, Kim Jong-un tem se apresentado como uma quase réplica de seu avô, Kim Il-sung –na forma como bate palmas, caminha com os ombros jogados para trás e exibe barriga, costeleta, queixo duplo e bochechas semelhantes. A embalagem de Kim como personificação do ainda amplamente reverenciado presidente fundador da Coreia do Norte sugere uma máquina bem lubrificada em funcionamento para criar um novo líder. Que tipo de líder ele será –figurativo, outro Kim Jong-il ou um Deng Xiaoping norte-coreano– permanece tema de especulação febril em Seul. Por ora, a estratégia de Kim de assumir a personalidade de seu avô e explorar a nostalgia pelo “Grande Líder” para justificar e consolidar sua sucessão dinástica reflete a magreza de seu próprio currículo, assim como a extensão das sombras de seu avô e pai, sob as quais ele deve governar. “Quando os norte-coreanos veem Kim Jong-un, eles pensam em Kim Il-jung quando tinha 33 anos”, disse An Chan-il, um ex-oficial do exército norte-coreano. An, 57 anos, se referia a quando Kim Il-sung, um líder guerrilheiro que lutava pela independência coreana, entrou em Pyongyang no final do domínio colonial japonês em 1945, se apresentando como um libertador sorridente. Na verdade, foram os americanos e os soviéticos que libertaram a Coreia do Japão e a dividiram entre eles.
“Após as dificuldades dos últimos anos, os norte-coreanos anseiam por outro libertador”, disse An, que desertou para a Coreia do Sul em 1979 e trabalhou como analista do governo em Seul até abrir seu próprio grupo de pesquisa, o Instituto Mundial para Estudos da Coreia do Norte, em 2010. Kim Jong-il foi um mestre da propaganda que dirigiu vários filmes. Sua última obra pode ter sido escolher Kim Jong-un como um sucessor que herdou a política de seu pai, mas a face de seu avô. Kim Jong-il sabia que, diferente de Kim Il-sung, ele e sua aparência simples, em forma de pera, eram detestados por muitos norte-coreanos (ele já chamou a si mesmo de “um anão feio”, segundo sul-coreanos que o conheceram). Desde a morte de Kim Jong-il, a imprensa estatal norte-coreana jurou que Kim Jong-un seguirá fielmente o lema de seu pai, a política dos “militares em primeiro lugar”. Essa abordagem dá prioridade máxima à alocação de recursos para as forças armadas, o elemento central dos esforços do pai, e agora do filho, para manter a unidade interna. Mas os 17 anos de governo de Kim Jong-il foram marcados por inundações, secas, fome em massa e aprofundamento das sanções internacionais em resposta ao seu programa de armas nucleares. Em público, ele frequentemente parecia rígido e distante. Generais servis mantinham uma distância deferente dele. Poucos norte-coreanos comuns alguma vez o ouviram falar. Em comparação, Kim Jong-un exibe uma postura confiante que lembra a de seu avô, que é frequentemente descrito nos livros escolares norte-coreanos e murais como um líder cercado por crianças e trabalhadores. A fisionomia jovem de Kim como novo construtor de nação surge enquanto o regime prometia ao seu povo há muito sofredor “uma nação forte e próspera”. Sorrindo, provando sopa na cozinha da escola, dando braços aos trabalhadores, subindo em um tanque com soldados, abraçando os jovens pilotos correndo na direção de seu peito em lágrimas e aproximando generais experientes do exército para lhes dar alguns conselhos, Kim Jong-un parece em casa em seu novo papel como “eobeoi” nacional, ou “pai”, como seu avô e os antigos reis coreanos eram tratados pelos seus súditos.
Mas as coisas em Pyongyang podem não estar transcorrendo tão bem quanto parece. Lee Han-woo, um editor do jornal sul-coreano de circulação em massa, “Chosun Ilbo”, e que escreveu livros sobre os antigos reis coreanos, disse que a Coreia do Norte compartilha semelhanças com a dinastia Yi, que governou a Coreia por cinco séculos, até o Japão anexar o país em 1910. Doze dos 27 reis da monarquia assumiram o trono quando ainda eram adolescentes e quatro na faixa dos 20 anos. Os reis jovens dependiam de regentes ou ministros mais velhos até consolidarem sua própria autoridade ou serem vítimas de golpes palacianos. O tio de um jovem rei usurpou o trono, o meio-irmão de outro rei foi suspeito de envenená-lo para tomar o poder, e vassalos destronaram um rei tirano e colocaram em seu lugar um de seus meio-irmãos. Essas histórias ajudam a instigar a queda dos sul-coreanos por fofocas palacianas cercando Kim Jong-un, que se acredita que tenha pouco menos de 30 anos e possui um tio influente, Jang Song-taek. Jang serve como mentor de Kim, mas suas ambições fora isso estão envoltas em mistério. Kim também tem um meio-irmão, Kim Jong-nam, que vive em um semiexílio na China e conversa regularmente com jornalistas do Japão, o inimigo jurado da Coreia do Norte, para prever a ruína do governo de seu meio-irmão. Suas críticas ousadas a Kim Jong-un alimentaram a especulação de que a China e certos generais em Pyongyang possam estar protegendo ele como uma opção, caso as coisas deem errado na sucessão de Kim Jong-un. Oficialmente, Pequim expressou apoio a Kim Jong-un. Cheong Seong-chang, um analista do Instituto Sejong, disse acreditar que Kim Jong-un já tinha se estabelecido solidamente como sucessor antes da morte de seu pai. Os generais que sua mãe, Ko Young-hee, ajudou a promover antes de sua morte em 2004 o apoiaram, disse Cheong. Mas outros acreditam que Kim é pouco mais que uma figura decorativa, com o verdadeiro poder pertencendo ao seu tio, Jang. Por ora, Kim parece ser uma figura representativa de seu avô e pai mortos, dizem muitos analistas. Na dinastia híbrida stalinista-confuciana criada por seu avô e pai, ele é apresentado como tendo o direito divino de governar devido aos seus laços de sangue com Kim Il-sung. Isso também significa que ele pode colocar em risco sua própria legitimidade como líder se rejeitar as políticas de seu pai e tentar introduzir mudanças radicais. Esse mesmo temor assombra a elite, cujos interesses, enraizados em seus laços com a família Kim, também são conferidos pela hereditariedade. “Independente de qual possa ser a agenda pessoal dos elementos-chave, Kim Jong-un e a nomenclatura de Pyongyang estão no mesmo barco, com seu destino atado pelo senso mútuo de crise”, disse Kim Kwang-in.
A coesão interna da Coreia do Norte começou a enfraquecer durante a fome dos anos 90, quando o Estado fracassou em fornecer rações e deixou que as famílias se virassem por conta própria. O regime não perdeu tempo com o jovem Kim. Desde o funeral de seu pai, ele tem visitado uma unidade militar a cada quatro ou cinco dias, se apresentando como um comandante competente e que se importa, acentuando aquela que talvez seja sua qualificação mais importante como líder, que ele mais se parece com seu avô do que com seu pai impopular. “Parece que o DNA saltou do avô para o neto, pulando o pai”, disse Lee Yun-keol, o biólogo norte-coreano que desertou para a Coreia do Sul em 2006 e agora lidera o Centro de Serviço de Informações Estratégicas sobre a Coreia do Norte, uma organização de pesquisa privada. “Então agora temos um novo líder que se parece com seu avô. Mas isso não muda muita coisa no Norte.”

Quando ele olha para fora do mundo congelado no tempo da mais antiga academia confuciana privada da Coreia, Park Seok-hong vê o resto do país “se transformando em um reino de bestas”. Ele aponta para notícias recentes como evidência: jovens xingando passageiros idosos no metrô e crianças se suicidando para escapar do bullying ou da pressão da vida escolar hipercompetitiva. “Nós podemos ter desenvolvido nossa economia, mas nossa moralidade está à beira do colapso”, disse Park. “Nós temos que revitalizá-la e aqui é onde podemos encontrar uma resposta.” Park é o curador-chefe da Sosu Seowon, um complexo de 11 salas de aula confucianas e dormitórios aberto em 1543, nesta cidade a 160 quilômetros ao sudeste de Seul. Na Coreia do Sul, onde a palavra “confuciano” há muito é sinônimo de “antiquado”, pessoas como Park ganharam recentemente terreno com sua campanha para redespertar o interesse pelos ensinamentos confucianos, que acentuam a harmonia comunal, o respeito pelos idosos e a lealdade ao Estado –princípios que muitos coreanos mais velhos acreditam estarem ausentes nos jovens. Nos últimos cinco anos, um número crescente de estudantes –até 15 mil por ano– vem aqui para um curso sobre etiqueta confuciana. Em outros lugares, cerca de 150 outras seowon, ou academias confucianas, reabriram para programas extracurriculares semelhantes, disse Park Sung-jin, diretor executivo da Associação Nacional das Seowon da Coreia. "Eu vim aqui para que o vovô me repreenda menos”, explicou Kang Ku-hyun, um aluno da 6ª série de Seul. Em uma segunda-feira recente, sua mãe levou apressadamente Ku-hyun e sua irmã ao ônibus. Após três horas de viagem, o ônibus deixou 40 alunos do ensino primário aqui para uma “estada em seowon”. Por três dias, as crianças experimentaram a vida dos estudantes confucianos do passado, recebendo instruções que há muito desapareceram do currículo escolar oficial, incluindo etiqueta no jantar e à mesa de chá, assim como modos apropriados para se dirigir aos pais de alguém. “Meus joelhos estão doendo de tanto ajoelhar”, disse a irmã de Ku-hyun, Kang Chae-won, 10 anos, após praticar reverências de sua posição no chão. “Pelo menos eu aprendi como me curvar de modo correto. O vovô vai ficar satisfeito.”

A estadia na seowon faz parte de uma tendência maior que surgiu há uma década, após a crise financeira asiática, quando a Coreia do Sul sofreu reveses econômicos, um aumento do desemprego e taxas de suicídio, e muitas perceberam uma perda dos valores que acreditavam ter sustentado os coreanos mais velhos durante adversidades muito maiores, como as que se seguiram à Guerra da Coreia de 1950 a 1953. Nos últimos meses, a Coreia do Sul também tem lidado com uma autoanálise, depois que meia dúzia de alunos vítimas de bullying na escola tiraram suas próprias vidas. Uma série de suicídios de soldados também chocou o país, que depende do recrutamento militar para se proteger da Coreia do Norte. Para tratar desse mal-estar, templos budistas passaram a oferecer “estadias no templo”, onde moradores urbanos tentam meditação e equilíbrio. Os fuzileiros navais oferecem “campos de sobrevivência”, onde as crianças se arrastam em percursos de obstáculos, em um regime que visa estimular a camaradagem e a perseverança. Apesar de seus alertas, Park não chega a defender uma substituição do atual sistema escolar por academias confucianas. Mas ele acredita que ele tem muito a aprender com as seowon. Séculos atrás, meninos cuidadosamente selecionados de toda a Coreia viviam vidas reclusas neste campus cercado por pinheiros, um riacho e um lago. Eles liam os clássicos confucianos e recitavam poemas sobre a natureza. Eles iniciavam e encerravam seus dias visitando um templo onde os sábios confucianos eram venerados. Eles se ajoelhavam duas vezes, com a cabeça tocando o chão, antes de responderem as perguntas de seu professor sobre a leitura do dia. No seu auge, mais de 700 dessas academias pontilhavam a Coreia, treinando os candidatos ao funcionalismo público e servindo como guardiãs do confucionismo, que fornecia a ideologia de governo da dinastia Yi (1392-1897).
Há uma ironia no interesse renovado pelas seowon e pelo confucionismo. Por décadas, muitos coreanos lutaram para se libertar da rigidez da tradição confuciana, a culpando por coisas como a cultura corporativa rigidamente hierárquica e a preferência de séculos pelos meninos, que já levou a um excesso de abortos de fetos femininos. De fato, o famoso zelo dos pais coreanos pela educação de seus filhos –uma obsessão tanto elogiada como fonte do rápido crescimento econômico do país quanto criticada pelos males associados à alta pressão da vida escolar– teve origem nas seowon. Os velhos institutos enfatizavam a memorização dos textos clássicos em preparação para os exames do funcionalismo público e estabeleceram a tradição de associar aprendizado acadêmico com status social. As seowon eram quase exclusivamente para os meninos da classe “yangban” de elite. A corte real apoiava muitas delas, permitindo que os jovens aristocratas estudassem por anos sem se preocupar com o custo. Quando todas, com exceção de 47, foram fechadas em 1865, elas tinham se tornado ninhos da corrupção e da política facionária que enfraqueceu a dinastia, muito antes da anexação da Coreia pelo Japão em 1910. Sob o governo colonial japonês, que durou até 1945, a Coreia adotou um sistema de educação universal com um currículo influenciado pelo Ocidente. As seowon que restaram serviam principalmente como templos, onde os coreanos que se importavam com as tradições realizavam rituais em honra aos sábios confucianos. Mesmo assim, os defensores da importância das seowon na história coreana argumentam que a Coreia contemporânea tem muito a aprender com a antiga. Quando as seowon funcionavam de modo apropriado, “elas enfatizavam a formação do caráter e a harmonia com a natureza”, disse Lee Bae-yong, uma historiadora e ex-presidente da Universidade Ewha da Mulher, em Seul.
Lee, atualmente presidente do Conselho Presidencial para Imagem da Nação, cujo portfólio inclui a promoção da imagem internacional da Coreia do Sul, está liderando uma campanha do governo para que as seowon sejam adicionadas à lista do patrimônio histórico da humanidade da Unesco. Em janeiro, a Unesco concedeu a nove seowon, incluindo a Sosu, uma designação provisória. Os velhos acadêmicos confucianos em túnicas brancas e chapéus pretos altos há muito se foram da Sosu Seowon. Em vez deles, turistas espiam as salas de aula decoradas com ditados confucianos. Grande parte do programa de estadia na seowon ocorre em uma réplica vizinha, onde os aspectos de um estilo de vida mais antigo –tramar esteiras de palha de arroz, andar em carros de boi, recitar textos confucianos– são reencenados para os turistas. Park, o curador-chefe, pode passar horas falando sobre o que acha que está errado com a “educação lixo” de hoje –uma ênfase excessiva em inglês e matemática, em detrimento da ética e história. Mas até mesmo ele reconhece que pregar o confucionismo na Coreia de Sul atualmente pode ter seus limites. Nas últimas duas décadas, ele aproveitou cada oportunidade que teve para promover o aprendizado do confucionismo –para todos, de autoridades do governo a turistas visitantes. “Eles aceitam um décimo do que digo”, ele disse. “Eles olham para mim como se eu fosse louco, ultraconservador, fora de moda. Eu me sinto como um pária.”

O exército sírio continua crivando os subúrbios de Damasco e lançou uma nova ofensiva contra Homs, o principal bastião de oposição. Bashar el Assad recorre a todas as forças à sua disposição para sufocar como possível a revolta, e já não emprega só as tropas alauítas dirigidas por seu irmão Maher, absolutamente fiéis ao regime, como também soldados da reserva sunitas. Isso disparou o ritmo das deserções, segundo a oposição. Khaled Khoja, representante do Conselho Nacional Sírio na Turquia, declarou na última terça-feira (31) ao jornal "Hurriyet" que muitos militares haviam abandonado as fileiras nos últimos dois dias para se unir ao Exército da Síria Livre, devido ao uso de tropas regulares nas operações ao redor de Damasco. "A maioria dos soldados da reserva é sunita e não quer matar gente em bairros sunitas", disse Khoja, que garantiu que entre os desertores desta semana estavam dois generais. O Exército da Síria Livre diz já possuir 40 mil efetivos, embora essa cifra seja provavelmente exagerada. A Guarda Republicana e a Quarta Divisão Mecanizada, as duas unidades alauítas dirigidas por Maher el Assad, irmão do presidente, estão há dez meses em campanha ininterrupta. Nos primeiros compassos da revolta, iniciada em Daraa, os soldados de Maher el Assad se limitaram a apoiar a atuação da polícia e dos "shabiha", as milícias de civis alauítas patrocinadas pelo regime. Mas desde que Homs praticamente escapou ao controle governamental, no verão, e alguns grupos da oposição começaram a se armar, os 30 mil fiéis de Maher não pararam de se deslocar pelo país, deixando em sua passagem milhares de mortos; 5.400 cadáveres, segundo estimativas da ONU, entre os quais não se incluem os de soldados e policiais governamentais. O Ministério do Interior declarou que "grande quantidade de terroristas" tinham sido "liquidados ou detidos" na operação lançada contra os subúrbios de Damasco. Testemunhas citadas pela Associated Press afirmaram que as tropas de Maher anunciavam anteriormente sua chegada e sua intenção de arrasar bairros inteiros com o fim de que os moradores fugissem, e depois realizavam batidas entre os fugitivos para deter os homens jovens. Um ativista de oposição afirmou à agência Reuters que em Ain Tarm, junto da capital, havia-se estabelecido algo parecido com um toque de recolher permanente e que os soldados impediram que os comércios e os serviços públicos funcionassem. Outras fontes da oposição disseram que Homs voltava a ser "uma zona de guerra" e que mais de 70 pessoas morreram durante a jornada de segunda-feira (30). A oposição afirma que o exército utiliza tanques e artilharia em alguns bairros de Homs. É impossível verificar os detalhes, já que o regime civil começou a conceder vistos para jornalistas, mas restringe severamente seus movimentos.
O presidente El Assad, que ainda goza de um importante nível de popularidade em Alepo e Damasco, e conta com uma enorme superioridade militar (no último ano recebeu da Rússia armamento no valor de quase 4 bilhões de euros) e enfrenta uma oposição dividida, usa todos os recursos e toda a violência ao seu alcance para sufocar a revolta. Mas não o consegue. O crescente número de vítimas e o uso sistemático da tortura jogam contra ele, assim como a rápida deterioração econômica. Há um ano US$ 1 era trocado por 47 libras sírias; hoje vale oficialmente 57 libras, mas no mercado negro se conseguem 70 libras por dólar. E os preços subiram quase 50% desde o início da revolta.
http://www.lemonde.fr/afrique/article/2012/02/04/le-printemps-arabe-vedette-du-festival-de-cinema-de-rotterdam_1638948_3212.html