terça-feira, 12 de novembro de 2013


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Os leitores chineses da biografia do líder reformista Deng Xiaoping escrita por Ezra Vogel podem ter sentido falta de alguns detalhes que constavam na edição inglesa original.
A versão chinesa não mencionava que os jornais chineses haviam recebido ordens de ignorar a implosão comunista em toda a Europa Oriental no final dos anos 1980. Nem que o secretário-geral Zhao Ziyang, expurgado durante a repressão na praça Tiananmen, chorou ao ser colocado sob prisão domiciliar.
Vogel, professor emérito da Universidade Harvard, disse que a decisão de permitir que censores chineses mexessem na sua obra representou uma barganha desagradável, mas necessária, pois graças a ela o livro pôde alcançar leitores com os quais muitos autores ocidentais só podem sonhar.
Seu livro, intitulado "Deng Xiaoping and the Transformation of China" [Deng Xiaoping e a transformação da China], vendeu 30 mil exemplares nos EUA e 650 mil na China. "Para mim a escolha foi fácil", disse ele. "Achei melhor ter 90% do livro disponível aqui do que ter zero."
Tais concessões estão se tornando comuns. Com uma população altamente alfabetizada e faminta por obras de escritores estrangeiros, a China é uma fonte crescente de faturamento para as editoras americanas. No ano passado, os lucros dos editores dos EUA com a venda de livros eletrônicos para a China cresceram 56%, segundo a Associação Americana de Editores. As editoras chinesas adquiriram mais de 16 mil títulos do exterior em 2012, frente a 1.664 em 1995.
Em outubro, editores e agentes literários chineses compareceram em peso à feira do livro de Frankfurt, dando lances para a aquisição de obras de escritores ocidentais e oferecendo polpudos adiantamentos. A China também pode ser uma mina de ouro para os direitos autorais. No ano passado, J.K. Rowling recebeu US$ 2,4 milhões daqui, e Walter Isaacson, autor da biografia "Steve Jobs", ganhou US$ 804 mil, segundo o "Diário Metropolitano Huaxi", de Chengdu.
Escritores ocidentais que concordam em submeter seus livros ao imprevisível regime chinês de censura dizem que a experiência pode ser irritante.
O romancista Qiu Xiaolong, que vive no Missouri e ambienta seus romances de mistério em Xangai, disse que os editores chineses que adquiriram os primeiros três volumes da sua série do inspetor Chen alteraram a identidade de personagens centrais e reescreveram trechos do enredo que eles consideraram desabonadores para o Partido Comunista.
De forma ainda mais rude, disse ele, os editores insistiram em eliminar quaisquer referências a Xangai, substituindo-as por alusões a uma metrópole chinesa imaginária chamada H, porque entenderam que a associação com crimes violentos, ainda que fictícia, poderia macular a imagem da cidade.
Qiu, que escreve em inglês, mas foi criado na China, disse ter aceitado relutantemente algumas das alterações, mas que outras foram incluídas depois de ele ter aprovado as traduções que julgava serem definitivas. "Algumas das mudanças são tão ridículas que tornaram o livro incoerente", afirmou. Ele disse que se recusou a permitir que seu quarto romance, "A Case of Two Cities" (Um caso de duas cidades), fosse lançado na China.
Outros autores também já resistiram. Em 2003, Hillary Clinton determinou que sua autobiografia, "Vivendo a História", fosse retirada das prateleiras da China depois de ela ter descoberto que longos trechos haviam sido eliminados da obra. James Kynge, autor de "A China Sacode o Mundo", cancelou um contrato no ano passado porque um editor havia exigido que um capítulo inteiro fosse cortado.
Mas posições como essa, ao que parece, estão se tornando cada vez mais raras. Muitos autores se dizem divididos entre o seu desejo de proteger sua obra e a necessidade de ganhar a vida numa era de adiantamentos cada vez menores. Para outros, trata-se simplesmente de cultivar um público no país mais populoso do mundo.
Michael Meyer, cujo livro "The Last Days of Old Beijing" (Os últimos dias da velha Pequim), de 2008, lamenta a destruição do tecido histórico da cidade, ficou surpreso ao ver que muitas passagens não foram censuradas. Os editores fizeram alguns cortes previsíveis -incluindo uma referência à repressão na praça Tiananmen-, além de uma alteração no título a fim de apresentar o livro como uma carta de amor nostálgica ("Até Mais Ver, Velha Pequim").
Para Meyer, as mudanças mais curiosas foram feitas em relação a duas mensagens de texto citadas no livro, que foram enviadas ao autor por um arquiteto de Nova York que participava de uma discussão municipal de planejamento em uma grande cidade litorânea. A primeira descrevia a presença de uma moça de braços dados com um homem de meia-idade. A segunda mensagem anunciava que o homem era o prefeito, e que a mulher era a sua amante.

sábado, 9 de novembro de 2013


 

As guerras, como os empresários reconhecem há séculos, podem ser muito rentáveis. A prova disso está em exibição aqui, onde meia dúzia de lojas de suprimentos militares no centro da cidade, perto da fronteira com a Síria, estão movimentadas, atendendo uma clientela vinda de todo o Oriente Médio.
Segundo os lojistas, de onde exatamente vêm os clientes, não é da conta deles.
"Olha, nós não perguntamos aos nossos clientes as suas nacionalidades", disse Tayfur Bereketoglu, proprietário de uma loja que leva seu nome. "Mas eles têm longas barbas negras, eles não falam turco, e a realidade é que há uma guerra ao lado. Por que devemos perguntar de onde eles vêm?"
A maioria das pessoas aqui reconhece em privado, porém, que a nova base de clientes consiste de jihadistas estrangeiros, em sua maioria islamitas sunitas radicais que vêm lutar contra o governo alinhado com os xiitas na guerra civil cada vez mais sectária da Síria. Os combatentes estrangeiros, facilmente identificados por suas barbas espessas, entram na Turquia por Istambul, aterrissam no aeroporto de Antakya e deslizam para a Síria, não sem antes fazer algumas compras por aqui.
As lojas atendem as necessidades dos combatentes que vêm à região pela primeira vez ou que estão saindo da Síria para respirar: coletes militares, calças de camuflagem, facas, máscaras contra gases, rosários, bandeiras, geradores solares, telescópios, binóculos, lanternas, sem mencionar lâminas de barbear e shampoo -praticamente tudo, menos armas, que estão esperando por eles na Síria.
Os itens tornaram-se visivelmente mais ricos em qualidade e quantidade nos últimos meses, uma resposta, segundo os lojistas, à entrada de dinheiro em Antakya da Arábia Saudita e do Qatar, que se acredita estarem financiando muitos dos combatentes estrangeiros contra as forças do presidente Bashar al-Assad. Bereketoglu -sensível, como qualquer varejista, às flutuações de seu mercado- está apenas tentando obter a sua parte.
"Vou conseguir vender esses ou não?", perguntou Bereketoglu, 55 , pegando alguns chapéus e outras peças de vestuário com o logotipo do Exército Sírio Livre. O Exército Sírio Livre, que envolve facções e é apoiado pelo Ocidente, vêm perdendo terreno para os islamitas radicais. Talvez por isso os itens não estivessem mais vendendo bem, ele supôs.
Enquanto Bereketoglu avaliava seu inventário, quatro jovens, de barba e sem bigode, entraram na loja e olharam a seleção de coletes militares, mas saíram sem comprar nada. Lá fora, um dos homens, falando em árabe, disse que tinha achado a seleção da loja "excelente".
Questionado sobre a frequência com que comprava nas lojas de Antakya, ele respondeu: "Isso depende se vamos lutar na Síria".
De onde eles vêm? "Basta", disse ele, com cara de irritação.
Assistindo os quatro se afastando, Mehmet, um dos assistentes de Bereketoglu, disse que era inútil perguntar suas origens.
"Quando você pergunta, todos eles respondem que são sírios", disse Mehmet. "Mesmo que o sujeito seja preto e insista que é sírio, não podemos questionar o que ele está dizendo: é um cliente em nossa loja".
Tomando um chá, lojistas e funcionários, que em geral são bilíngues, como muitos turcos nesta parte do país, disseram que os sotaques árabes dos estrangeiros muitas vezes sugeriam que eram iraquianos, egípcios, jordanianos, libaneses ou sudaneses. Às vezes também aparecem tchetchenos, que têm a sua própria brigada dentro da Síria.
Em outra loja, o proprietário, Nizamettin Askar, 65, disse que os estrangeiros são metade de seus clientes. Alguns de seus produtos, incluindo os coletes militares e camisetas proclamando "Tawhid", ou a unicidade de Deus, em árabe, eram vendidos estritamente para estrangeiros. Outros itens, como calças de camuflagem e facas também atraíam os turcos.
"Mas eu sei que, se um turco compra essas coisas, ele vai usá-los para a caça", interveio Ali, 25, um assistente na loja. "Se ele tiver uma barba longa, sei que ele vai usá-los para combater dentro da Síria".
Assim como outros lojistas, Askar disse que, pela primeira vez, ele também estava recebendo encomendas grandes nos últimos meses, principalmente de indivíduos sírios.
"Alguém aparece e diz: 'Por favor, me dê 100 coletes até amanhã de manhã'", disse Askar, acrescentando que, nos 10 anos de sua loja, os negócios nunca foram tão bons.
Peixes pequenos em comparação com os comerciantes de armas em qualquer guerra, os lojistas, no entanto, ficaram na defensiva sobre lucrar com a guerra.
"Muitas empresas em Antakya estão se dando bem agora por causa da guerra, como hotéis, restaurantes, shoppings, bancos", disse Bereketoglu. "Muitas pessoas querem que a guerra dure. Eu não. Eu preferiria que a guerra acabasse agora, mesmo que isso significasse um declínio nos meus negócios".
"Esta não é uma loja que vende coisas para que as pessoas se matem umas as outras", acrescentou.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

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No bairro de Shahrak-e Gharb, na zona oeste de Teerã, Porsches, Toyota Land Cruisers e Mercedes-Benz de dois lugares sobem e descem a rua com a música troando dos alto-falantes, cujo volume é rapidamente abaixado quando passam carros de polícia.
O Irã, onde a gasolina custa cerca de US$ 0,50 o litro, tem uma próspera cultura automobilística, com jovens passeando e exibindo seus veículos.
Quanto mais vistoso o carro, mais olhares e flertes receberá o motorista. Recentemente, o brilhante Paykan cor de berinjela 1972 de Saeed Mohammadi chamou toda a atenção.
Usando óculos Ray Ban Aviator e um chapéu preto típico dos gângsteres iranianos da década de 1970, Mohammadi, 21, reluzia sua autoconfiança, recebendo todos os olhares e sorrisos das motoristas mulheres e gritos dos rapazes para seu Paykan. "Veja o Paykan", disse uma jovem da janela de um carro. "Eu costumava ser levada à escola em um deles."
Oito anos depois de ter saído de produção, o antigo carro nacional do Irã, o Paykan, está voltando à cena. Não que muitas pessoas se interessem especialmente por dirigi-lo, com seu volante e câmbio manuais, suspensão dura e cheiro de gasolina. Mas a ascensão de sua popularidade -ele é tema de um documentário e duas exposições de arte- parece representar o anseio por um passado mais simples.
"Todo iraniano tem lembranças desse carro", disse Shahin Armin, 37, engenheiro de design iraniano-americano que já trabalhou na Chrysler e na Honda em Detroit. "Talvez nem sempre boas, mas nós somos um povo romântico. Quando as pessoas veem um Paykan hoje, lembram-se de um tempo em que tínhamos menos opções e levávamos vidas mais simples."
Armin, que é moderador de um site dedicado a esse automóvel (Paykanhunter.com), voltou a seu Irã natal no ano passado e se viu apanhado no que chama de "renascimento Paykan". "Acho que hoje, quando os tempos estão novamente difíceis, o carro nos lembra de nossa sobrevivência como povo", disse Armin.
Para muitos iranianos, o Paykan foi o primeiro passo de ascensão na vida, quando o dinheiro do petróleo começou a escorrer para a população durante o regime do xá Mohamed Reza Pahlevi. Lançado em 1967 e baseado no britânico Hillman Hunter -que era um produto da indústria automobilística britânica em dificuldades no pós-guerra-, ele tinha para-choques extrafortes para suportar o trânsito caótico do Irã.
Para os líderes iranianos, o carro foi de início uma evidência de que o país estava em ascensão no mundo e, mais tarde, um símbolo revolucionário de resistência às pressões externas.
Os iranianos médios têm outra visão. "Nós vemos nele nossa própria adaptabilidade e flexibilidade em relação a tempos e ideologias diferentes", disse Armin. "O que quer que tenha acontecido naqueles dias, o carro estava lá e continua sendo visto nas ruas, assim como, aconteça o que acontecer, as pessoas continuarão aí. De uma maneira retorcida, o Paykan é uma fonte de inspiração."
Mohammadi disse que as pessoas não se impressionam mais com carros de luxo importados.
"Esta é uma de nossas poucas fontes de orgulho", disse ele sobre seu Paykan. "Só agora as pessoas começam a apreciá-lo."

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Em um leilão noturno da casa China Guardian, em maio de 2011, "Eagle Standing on a Pine Tree" (Águia sobre um pinheiro), pintura a nanquim feita em 1946 por Qi Baishi, um dos mestres da arte chinesa do século 20, foi arrematada por um preço surpreendente: US$ 65,4 milhões. Nunca antes uma pintura chinesa tinha atingido valor tão alto em um leilão. No final do ano, a venda da tela teve implicações globais, ajudando a China a superar os Estados Unidos como o maior mercado mundial de arte e leilões.
Dois anos depois, porém, a obra-prima de Qi Baishi ainda está parada num depósito em Pequim.
O autor do lance vencedor se negou a pagar pela tela porque a autenticidade dela foi questionada.
"O mercado se encontra em uma fase muito dúbia", disse Alexander Zacke, especialista em arte asiática que comanda a casa de leilões internacionais on-line Auctionata. "Ninguém leva muito a sério os resultados na China."
De fato, ao mesmo tempo em que o mundo da arte reage com assombro ao boom do mercado chinês, uma revisão feita pelo "New York Times" ao longo de seis meses constatou que muitas das vendas não chegaram a se concretizar. São transações que teriam gerado até um terço da receita chinesa de leilões nos últimos anos.
Fato igualmente problemático é que o mercado está inundado de obras falsificadas, com frequência produzidas em massa, e virou campo fértil para a corrupção, na medida em que executivos de empresas subornam autoridades com obras de arte.
A explosão de compradores de arte foi alimentada pelo consumismo antes reprimido dos novos-ricos. Há duas décadas, a China praticamente não tinha nenhum mercado para esse setor. Apesar disso, no ano passado, a receita divulgada dos leilões no país subiu 900% em relação a 2003, chegando a US$ 8,9 bilhões -embora tenha caído 24% em relação a 2011. Já nos EUA, a receita do mercado de leilões em 2012 foi de US$ 8,1 bilhões.
Os compradores chineses geralmente se interessam por trabalhos chineses tradicionais, alguns de mestres do século 15 e outros de artistas modernos que optaram por trabalhar no estilo antigo.
Essa própria reverência ao passado cultural contribui para o aumento das obras falsificadas. Os artistas na China são ensinados a imitar os velhos mestres chineses, produzindo cópias de alta qualidade. Essa tradição coincidiu com a demanda do mercado de arte, no qual reproduções -que muitos artistas possuem a habilidade necessária para criar- frequentemente são oferecidas como se fossem artigos genuínos.
"Esse é o desafio do momento", disse Wang Yannan, presidente e diretor da China Guardian, a segunda maior casa de leilões do país. "A primeira pergunta que cada chinês se faz é se a obra é falsificada."
Escândalos que vieram a público expõem a extensão das falsificações e semeiam dúvidas quanto ao mercado mais amplo. Três anos atrás, veio à tona que uma pintura a óleo atribuída ao artista do século 20 Xu Beihong e vendida por mais de US$ 10 milhões tinha sido produzida 30 anos após a morte do artista por um estudante, durante um exercício de sala de aula em uma das principais academias de arte da China.
Ainda mais constrangedora foi a decisão tomada pelo governo em julho passado de fechar um museu particular em Hebei por suspeitas de que quase tudo em seu acervo fosse falsificado -40 mil artefatos, incluindo um vaso de porcelana da dinastia Tang.
"Sempre existiram falsificadores no mercado, mas é uma questão de proporção", comentou Robert D. Mowry, ex-curador de arte asiática na Universidade Harvard e hoje consultor da Christie's.
O setor de leilões e o governo dizem que estão se esforçando para combater os abusos, mas enfrentam a dificuldade de uma brecha na lei, que exime as casas de leilões de responsabilidade quando uma obra leiloada é falsificada.
O problema da falsificação ajuda a explicar o número crescente de casos em que pagamentos não são realizados. Nos últimos três anos, um estudo feito pela Associação de Leiloeiros da China sobre as casas de leilão chinesas constatou que mais ou menos metade das vendas de obras de arte de valor superior a US$ 1,5 milhão -que representam uma parte importante do mercado- não foi completada porque o comprador deixou de pagar o preço acordado. (No caso das grandes casas de leilão americanas, segundo vários especialistas, o índice de não pagamento por obras de valor equivalente é mínimo.)
"Isso tem algo a ver com o ambiente geral", disse a presidente da associação, Zhang Yanhua. "Como vocês sabem, a China ainda está se esforçando para construir a obediência às leis."
Para especialistas, outras explicações possíveis para a onda de inadimplência e de pagamentos feitos com atraso incluem casos em que pessoas se arrependeram dos lances que fizeram ou simplesmente fizeram lances altos para elevar o valor de obras de um artista particular que elas colecionam.
Mesmo levando em conta que os relatórios de receita nem sempre refletem a realidade, a alta nas aquisições de arte nos últimos dez anos foi meteórica. Bancos chineses, estatais e grandes empresários continuam a investir no boom. Obras de arte viraram uma espécie de nova moeda na China, e tantas pessoas colecionam arte que os leilões com frequência recebem multidões. Mais de 20 programas de televisão na China oferecem dicas para quem coleciona arte e quer identificar relíquias culturais.
Diante desse interesse enorme, os marchands chineses estão correndo para a Europa e os Estados Unidos para recomprar relíquias chinesas que estão fora do país.
Houve também uma série de furtos de antiguidades chinesas em museus. Surgiu um mercado negro de artefatos, com chamados ladrões de túmulos escavando tesouros enterrados que possam vender.
O interesse em reparar os pontos fracos do mercado pode ter contribuído para a decisão recente da China de afrouxar as regras que dificultam o acesso das casas de leilão ocidentais ao mercado chinês.
Agora a Sotheby's tem uma joint venture com uma empresa estatal, e a Christie's ganhou uma licença neste ano para se tornar a primeira casa internacional de leilões a operar independentemente na China. São novidades que podem ajudar a fomentar a competição e a elevação dos padrões no mercado
A manipulação de preços é frequente no mercado chinês de arte. Colecionadores e investidores, possivelmente um fundo de investimento em arte que tenha investido muito em um artista específico, fazem lances altos sobre uma obra, com o objetivo de empurrar para cima o valor de seu estoque inteiro. De acordo com especialistas, às vezes as próprias casas de leilão fazem lances falsos. Os chineses têm um nome para esse processo de empurrar preços para cima: "refogar".
Enquanto alguns colecionadores se importam profundamente com suas obras de arte, muitos compradores, segundo especialistas, são investidores interessados em lucrar com a revenda de uma obra de arte. Uma pintura de Qi Baishi, "Fish and Shrimp" (Peixe e camarão), foi vendida quatro vezes em leilões ao longo de dez anos até dezembro passado. Seu preço subiu de US$ 30 mil em 2002 para US$ 794 mil, caindo no ano passado para US$ 552 mil.
As oportunidades de revenda são uma prioridade para muitos compradores. Em um leilão em Pequim em setembro, quatro homens de Guangzhou compraram várias pinturas no valor de dezenas de milhares de dólares. Um deles comentou: "A maioria das pessoas que você vê aqui não tem um emprego de verdade. É o nosso caso, somos revendedores. Compramos as obras e as revendemos a pessoas instruídas e ricas".
Analistas dizem que a revenda de obras de arte contribui para o problema de inadimplência do mercado. Antes de um leilão, um comprador pode encontrar um colecionador interessado numa obra. Ele pode fazer lances e arrematar o trabalho, mas negar-se a pagar por ele se seu trato com o colecionador não se concretizar.
E há os problemas de pagamento que surgem porque o mercado de arte chinês é jovem, economicamente falando, e seus compradores adquiriram seu dinheiro recentemente. "Ainda existe uma grande diferença entre Oriente e Ocidente no entendimento dos leilões -sobre se elevar uma placa de oferta num leilão constitui ou não um contrato legalmente válido", disse Philip Tinari, do Centro Ullens de Arte Contemporânea, em Pequim. "Alguma jovem atriz compra um lote de pinturas num leilão, sai do local e fala 'não quero os números 13, 11, 7, 6 e 5'. Acontece o tempo todo."
Mesmo com as fraudes e falsificações, muitos colecionadores e investidores dizem que o mercado vale a pena. Mas o artista, crítico e curador Jiang Yinfeng disse que as pessoas que têm pouca experiência podem sofrer em um mercado tão superaquecido. "Alguns de meus amigos usam suas próprias casas como garantia para comprar obras de arte", contou. "Outros contraem empréstimos com juros altos."
Um dos fatores que tem movido o mercado de arte na China é o costume de dar presentes, algo que leva autoridades provinciais a chegarem em massa a Pequim durante o Festival de Meados de Outono, em setembro, levando obras de arte, bebidas e outros objetos como presentes para dar a altos funcionários governamentais.
A arte pode ser usada também em esquemas de suborno mais complexos. Em alguns casos, um funcionário governamental recebe uma obra de arte com instruções para oferecê-la em leilão. Depois, um empresário a utilizará como moeda de propina, comprando a obra a um preço inflado.
Em muitos casos, a autenticidade da obra dada de presente não vem ao caso, porque o comprador pretende gastar muito de qualquer maneira. E, se o esquema fosse descoberto, o valor mínimo da obra falsificada significaria que o castigo seria menor.
O uso de arte para pagar propinas a funcionários governamentais é algo tão corriqueiro que os chineses cunharam um termo para descrever esse tipo de corrupção estética: é o "yahui", ou "suborno elegante".
Em 2009, quando as autoridades detiveram Wen Qiang, o vice-chefe de polícia da cidade de Congqing, por proteger uma quadrilha criminosa, descobriram que ele tinha uma coleção de arte surpreendentemente grande e cara. Wen teria recebido mais de cem obras como presente. Ele foi executado por seus crimes no ano seguinte.
"Quem está presente no mercado de leilões?" perguntou Li Yanjun, especialista e autenticador de obras de arte na Universidade Oriental de Pequim. "Funcionários do governo. Eles se escondem e mandam outras pessoas fazer lances por eles ou então compram todas as obras."
O rastro dos bronzes, pinturas e antiguidades falsificados percorre a China inteira. Em Jingdezhen, no sudeste do país, oficinas produzem belíssimas reproduções de porcelanas das dinastias Ming e Qing. Em Yanjian, na região central da província de Yenan, elas aplicam amônia sobre bronze para induzir a corrosão, de modo que um sino ou recipiente usado em rituais com vinho possa se fazer passar por artefato escavado em um túmulo. Em Pequim, Tianjin, Suzhou e Nanjing, pintores e calígrafos reproduzem as pinceladas de mestres reverenciados.
Em todo o país, pintores copiam obras de mestres como Qi Baishi e Fu Baoshi. "Já vi 700 a 800 pessoas numa oficina de pintura, com uma divisão de trabalho muito clara, reproduzindo as obras de Qi Baishi", diz Zhang Jinfa, autenticador profissional de obras de arte.
Um estudo feito no ano passado estimou que 250 mil pessoas em 20 cidades chinesas podem estar produzindo falsificações.
Milhares de pessoas em Jingdezhen, centro de produção de porcelana na antiguidade, trabalham criando obras de argila segundo moldes antigos. Mais adiante na linha de produção, pintores mergulham seus pincéis em tinta e copiam sobre as cerâmicas os contornos de flores ou desenhos chineses tradicionais.
A tradição da cópia na China reflete mais que uma simples atitude de reverência diante do passado: é o reconhecimento de que a beleza foi captada de uma forma que merece ser emulada. Diferentemente do Ocidente, onde se admira o chamado "choque do novo", a China valoriza a tradição. Suas obras mais vendidas com frequência homenageiam obras criadas centenas de anos atrás e se parecem com elas.
Nas escolas de arte, alunos praticam o "lin mo", ou imitação dos grandes mestres. A falsificação e a fraude não fazem necessariamente parte da tradição, embora pintores famosos como Zhang Daqian, morto há 30 anos, tenham se divertido ludibriando os especialistas.
"Zhang Daqian achava que estava no mesmo nível que os velhos mestres", explicou Maxwell K. Hearn, diretor do departamento de arte asiática do Museu Metropolitano de Arte de Nova York. "Assim, a verdadeira prova dos nove era ver se seria capaz de copiar as obras deles."
Uma história que ilustra a abordagem irreverente de Zhang à cópia diz respeito a uma viagem que ele fez em 1967 para ver uma exposição das obras de Shitao, pintor do século 17, no Museu de Arte da Universidade de Michigan. Os guias lhe mostraram, orgulhosos, os trabalhos do pintor célebre, morto mais de dois séculos antes. Eles se espantaram quando Zhang começou a rir e apontou para várias obras na parede, dizendo: "Eu fiz esse! E também aquele!".