sábado, 14 de março de 2015


http://th06.deviantart.net/fs71/200H/i/2014/062/d/6/r_e_f_l_e_x_i_o_n_s__lv_by_carlaautumn-d78s1c1.jpg

O público do auditório Vahdat, em Teerã, ficou de pé e bateu palmas com entusiasmo para Bob Belden, 58, saxofonista líder da banda Animation.
"We love you, Bob!", gritou um espectador quando ele terminou a terceira música da noite.
Esse respeitado compositor, jazzista e produtor ganhador do Grammy então disse: "É uma honra absoluta estar aqui, no Irã".
A recente apresentação foi a primeira de um músico americano no Irã desde a revolução de 1979. Funcionários do Ministério da Cultura e da Orientação Islâmica estavam sentados na primeira fila do teatro de 1.200 lugares, balançando a cabeça ao ouvir temas de Miles Davis, Herbie Hancock e do próprio Belden.
O show em Teerã encerrou uma curta e agitada turnê por um país que oficialmente considera os Estados Unidos como seu inimigo, mas onde as pessoas se desdobram para agradar estrangeiros, especialmente quando são americanos.
"Um iraniano chega até mim e me pergunta de onde eu sou. Eu digo 'América'. Ele diz: 'Eu te amo!'", contou Belden. "Digo a ele que eu sou um músico de jazz. Ele diz: 'Eu amo jazz!'."
Belden e sua banda foram escolhidos para encerrar o festival musical Fajr, um evento anual. A inclusão se deu por iniciativa de funcionários culturais do governo do presidente Hasan Rowhani, que busca melhorar as relações com o Ocidente.
"Estamos muito felizes por eles estarem aqui", disse Farzin Piroozpay, funcionário do Ministério da Cultura e da Orientação Islâmica. "O Irã quer mostrar que aqui não há problemas para estrangeiros e que acolhemos bem a cultura e as artes."
Antigamente, radicais iranianos refratários a qualquer aproximação com os Estados Unidos protestariam contra essa diplomacia cultural, mas atualmente há uma postura mais branda por aqui, pelo menos com relação aos americanos que desejam visitar o país.
Mehdi Faridzadeh, ex-embaixador cultural do Irã, hoje radicado nos EUA, e a ONG americana Search for Common Ground [busca por um terreno comum] ajudaram a organizar a viagem do grupo de Belden.
Durante sua viagem de quatro dias em fevereiro, o músico foi levado a eventos em todo o país.
Ele e seu trompetista, o texano Pete Clagget, 35, estiveram no ginásio Azadi para a abertura da Copa do Mundo de luta greco-romana, um esporte popular no Irã e nos Estados Unidos.
Belden e Clagget se juntaram a músicos iranianos para uma apresentação na cerimônia oficial de abertura.
"É mais fácil arrumar um show aqui do que nos EUA", concordaram os músicos.
Quando chegaram, Belden, Clagget e sua comitiva formada por autoridades iranianas, jornalistas e alguns músicos italianos foram barrados por um desnorteado segurança antes de serem encaminhados ao seu camarim.
Belden e Clagget se reuniram aos outros músicos na quadra do ginásio. Na hora da execução de "Ey Iran", hino extraoficial do país, Belden acompanhou no sax, e Clagget, no trompete. Um telão atrás deles mostrava imagens da guerra Irã-Iraque.
"Agradecemos à banda iraniano-americana por sua música", disse um locutor, em inglês fluente. Em seguida, os músicos foram levados de volta ao auditório Vahdat.
"Próxima parada: Vietnã do Norte", brincou Belden.
Durante o show, que estava sendo gravado para um álbum ao vivo, o saxofonista agradeceu aos iranianos por sua hospitalidade. "Vocês realizaram o nosso sonho", disse ele à plateia.
"Visitar o Irã está sendo uma tremenda experiência."

https://i1.sndcdn.com/artworks-000072429793-e26gr6-t500x500.jpg

As atrações turísticas imperdíveis da China formam um circuito grandioso: a Grande Muralha, a Cidade Proibida, a Praça Tiananmen e, para os que suportarem esperar em longas filas, o Mausoléu de Mao Tsetung.
Mas há uma nova escala no percurso turístico: o restaurante de fast-food que se tornou um destino obrigatório para os fãs do presidente Xi Jinping. Foi aqui que, no ano passado, Xi encantou o país quando visitou a Casa Qingfeng de Guiozas, pagou pela comida e carregou sua bandeja até uma mesa.
"Estamos seguindo os passos de nosso grande líder", disse Bai Henglin, 29, motorista, enquanto tirava uma selfie com a refeição Combo Presidencial, de US$ 3,50 (guiozas e uma tigela de cozido de fígado de porco). "Os visitantes que vierem a Pequim e não passarem aqui vão se arrepender."
Há outros barômetros da adulação dedicada a Xi desde que ele assumiu o poder, em 2012.
Seu sorriso enfeita pratos ornamentais, e um livro com seus pensamentos sobre governança, traduzido para oito línguas, teve supostamente 17 milhões de exemplares vendidos ou dados de presente. Canções e poemas celebram o "Papai Xi" como um marido virtuoso, amigo dos agricultores e inimigo dos corruptos.
Desde que Mao dominou o país com sua mistura magistral de populismo, fervor e medo, um líder chinês não conquistava tamanha admiração do público. Deng Xiaoping repudiou a mania da era Mao, e desde então a adulação pública aos líderes políticos foi tabu. Parte do apelo de Xi deriva de sua guerra à corrupção e seus slogans positivos como o "Sonho Chinês", a proposta de um país poderoso e rejuvenescido. Mas a adoração também foi intensificada por retratos de Xi como alguém que segura seu próprio guarda-chuva, chuta bolas de futebol e sabe disparar um rifle.
Um dos tributos mais populares a Xi é uma canção: Ele ousa enfrentar qualquer tigre, por maior que seja.
Ele não tem medo do céu ou da terra.
Nós sonhamos em conhecê-lo.
Um teatro daqui apresentou recentemente um musical inspirado na vida e nas políticas de Xi, e, no mês passado, candidatos ao curso de arte na Universidade de Tecnologia de Pequim foram solicitados a desenhar um retrato de Xi como parte de seu exame de admissão. O jornal "Beijing Evening News" sugeriu que os candidatos ficaram maravilhados. "Eu não sabia que teria tanta sorte com essa parte do exame", disse um dos jovens.
Em entrevistas, muitos cidadãos comuns disseram aprovar a liderança carismática, especialmente depois das maneiras secas do antecessor de Xi, Hu Jintao, cujo principal slogan, "Uma visão científica do desenvolvimento", não tinha apelo emocional.
O público chinês aprovou o combate de Xi à corrupção. E suas advertências de que a China reforçaria suas reivindicações territoriais por meio da diplomacia musculosa e de militares reforçados também se revelaram populares. "Você tem a sensação de que o presidente Xi se importa com o homem comum", disse Yang Tianrong, 75, soldado aposentado da província de Hebei. "Ele nos dá esperança de que o governo pode solucionar nossos problemas."
Apesar de desconfiados, muitos liberais disseram duvidar de que Xi reviveria os excessos da era Mao. Mas Bao Tong, autoridade do Partido Comunista que foi expurgado e preso depois dos protestos pró-democracia de 1989, disse que Xi corre o risco de alienar seus defensores dentro do partido ao se projetar como o único capaz de salvar a China. Construir a figura de Xi como um semideus político para sufocar o debate e a dissidência "não vai unificar as pessoas", disse ele.
Xiao Qiang, da Universidade da Califórnia em Berkeley, que monitora a mídia chinesa, concordou. Surtos de propaganda recentes provocaram o ridículo na web, disse ele, especialmente os comentários de Xi em que ele denunciou a "estranha" arquitetura contemporânea e exortou artistas e escritores a servirem às massas, em vez de a seus próprios impulsos criativos. "Isso fez Xi parecer um idiota", disse Xiao.
Alguns analistas dizem que a história da família Xi deveria ter lhe servido de lição sobre os riscos da obediência cega. Seu pai, Xi Zhongxun, um herói revolucionário, foi removido do poder em 1962 depois que Mao o acusou de tentar subverter o partido. Ele foi detido e processado por radicais maoístas durante a Revolução Cultural em 1966.
Mas analistas dizem que Xi e outras figuras políticas de sua geração ainda idealizam certos elementos do regime de Mao, especialmente seu apelo ao orgulho nacional e a imagem que ele cultivou de homem forte, incorruptível e disposto ao próprio sacrifício.

quinta-feira, 12 de março de 2015

MII SAKI QUE MANDOU:

https://sullydish.files.wordpress.com/2014/03/477761517.jpg
http://d.ibtimes.co.uk/en/full/1367830/fukushima.jpg
http://www.port-magazine.com/wp-content/uploads/2012/04/Fukushima-elderly-woman-surveys-the-wreckage-following-the-enormous-tsnuami-that-destroyed-the-coastline.jpg
http://assets.inhabitat.com/wp-content/blogs.dir/1/files/2013/09/Fukushima_1_Nuclear_Power_Plant_02-537x357.jpg
http://thenewsdoctors.com/wp-content/uploads/2014/05/fukushima-godzilla.jpg
http://imageserver.moviepilot.com/-6ac6733a-8a80-4df5-8dbf-1e186b39e7ba.jpeg?width=2048&height=1152

 As ruínas de Nimrud, outrora capital do Império Assírio, sobreviveram à pilhagem de seus inimigos durante o século 7º a.C e, enterradas pelo descaso, resistiram à passagem dos séculos. Até a chegada das britadeiras dos militantes do Estado Islâmico.
Essa organização terrorista tem levado a cabo, nas últimas semanas, uma violenta campanha de destruição do patrimônio histórico da região, onde impérios se empilharam uns sobre os outros e deixaram vestígios fundamentais à compreensão da Antiguidade.
Além de Nimrud, sofreram locais como Mossul, Hatra e Khorsabad.
A justificativa da facção fundamentalista, que controla áreas na Síria e no Iraque, é de que tais artefatos, anteriores à chegada da religião islâmica à região, são alvo de idolatria. Os objetos seriam condenados por essa interpretação rígida do islã.
"Pense em elementos essenciais à trajetória da humanidade", diz à Folha Marcelo Rede, professor de história antiga na USP. "A domesticação de animais, o aparecimento da agricultura, os primeiros textos. Destruir isso é condenar parte do passado ao esquecimento."
Rede faz parte de um laboratório francês que atua na região. Em 2014, a França não permitiu a viagem de uma equipe de arqueólogos ao Iraque, após a escalada da violência. "Tive muito medo, e fiquei bem contente por amigos que conheço há quase 20 anos não terem arriscado a vida ali", diz.
Para o professor da USP, o Estado Islâmico usa a destruição do patrimônio como "propaganda de guerra". "Os locais destruídos estão no imaginário de muitos, muitas vezes porque são citados na Bíblia ou por autores clássicos, como Heródoto", diz.
O norte do Iraque é especificamente rico nesses resquícios arqueológicos. "A má coincidência é que essa região, que foi o coração da Assíria, está sob domínio do Estado Islâmico."
As autoridades ainda investigam a dimensão do dano. "Estátuas foram esmigalhadas a marretadas. Para esse tipo de dilapidação, dificilmente haverá possibilidade de restauração", diz Rede.

terça-feira, 10 de março de 2015


http://t2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSGgTVVqXn3hPGhoJJ4-oJTdW4AG6nvbxEJOgTftmQPasKoVuhPWQ

Nos subúrbios de Pyongyang, 270 rapazes, em torno dos 20 anos, todos filhos homens da elite norte-coreana, preparam seu futuro. Sua vida está regulamentada estritamente desde que se levantam até que se deitam. Organizados em pelotões, e com um supervisor por grupo, precisam de autorização para deixar o local, vigiado por guardas femininas. Não se trata de nenhum quartel. Mas sim da única universidade privada na comunista Coreia do Norte. Além de lecionar todas as aulas em inglês, a Pyongyang University of Science and Technology (Pust) tem outra peculiaridade: é gerida e custeada por cristãos-evangélicos.
— Em essência, os cristãos-evangélicos do mundo estão educando os futuros líderes da Coreia do Norte — conta a jornalista e escritora americana de origem sul-coreana Suki Kim.
Ela sabe do que fala. Infiltrou-se como professora na Pust durante dois trimestres em 2011 — o período coincidiu com a morte do “Querido Líder, Kim Jong-il” — e conta sua experiência no livro “Sem ti no hay nosotros” (“Sem você não há nós”, em tradução livre), da editora Blackie Books, disponível em espanhol a partir de 11 de março.
Esta enigmática universidade começou a funcionar em 2009. Oficialmente, descreve-se como um projeto conjunto. Mas construí-la, conta Suki Kim, custou US$ 35 milhões e sua manutenção diária “requer muitíssimo dinheiro”.
— Pelo que sei, a Coreia do Norte não põe nenhum centavo — explica Suki, acrescentando que são doadores internacionais, principalmente de igrejas sul-coreanas e americanas, que cobrem os gastos. — Ao regime da Coreia do Norte dá no mesmo que seja cristão, muçulmano ou ateu. Tudo é a mesma coisa, porque não acreditam em seu Grande Líder. Dessa forma, se esta organização de estrangeiros quer empregar este montão de dinheiro, por que vão dizer que não?
Seu fundador e presidente é James Kim, um cristão-evangélico de origem coreana e nacionalidade americana que já dirigia outro centro similar em Yanbian, na China, e que desde os anos 1990 cortejava o regime de Pyongyang. No princípio da década passada, recebeu o visto pessoal de Kim Jong-il
— Este grupo está aqui com sua permissão, (no regime) sabem exatamente quem são estes cristãos-evangélicos — assegura a autora em conversa telefônica desde Seul.
Semelhanças com um quartel
A única condição aparente é que não façam proselitismo. Se bem que “isso é o que há na superfície, não sabemos se pactuaram outros acordos”, matiza Suki Kim. Ainda que os responsáveis da Pust vão de mãos dadas com o regime, “sentem-se justificados”, pois, para eles, para eles, trata-se de “um projeto de longo prazo, com o que levam a missão de Deus” à Coreia do Norte, o regime totalitário mais restrito do mundo. Os professores nem sequer cobram: ou bem trabalham de graça, ou tem que buscar um patrocínio, geralmente o de suas igrejas.
Quando a jornalista Suki Kim começou a trabalhar no centro, era o trimestre da primavera. A primeira coisa que chamou a atenção foi a “hipervigilância” no campus. A universidade está construída em formato semicircular, de modo que qualquer área é visível desde qualquer outra e todo mundo pode vigiar todo mundo.
— Já havia estado várias vezes na Coreia do Norte desde 2002. Sabia que tudo estava controlado, mas isso era como um quartel.
Os professores e os estudantes convivem no campus, em blocos de dormitórios adjacentes e vigiados por um grupo de jovens guardas femininas.
— No começo, parece que eram homens, militares homens, mas se decidiu trocá-los por mulheres para dar uma imagem menos intimidatória. Nos disseram que era para nos proteger, mas não do que nos protegiam. Ou melhor, sua missão era impedir-nos de sair.
Cada movimento estava vigiado pelos “acompanhantes” oficiais que o governo impõe aos estrangeiros e que inclusive compartilham blocos de dormitórios com os professores. Os docentes só estão autorizados a abandonar o recinto uma vez por semana, para comprar provisões em Pyongyang ou para excursões milimetricamente organizadas, e sempre escoltados por seus “acompanhantes”. Para os estudantes, o regime parecia inclusive mais claustrofóbico. Não podiam sair da universidade sob nenhuma circunstância. Quando chegou Suki, muitos estavam meses inteiros sem ver suas famílias. Nem sequer eles, os filhos da elite do regime, estão livres da vigilância, e devem se desenvolver em uma atmosfera de desconfiança e medo.
Publicidade
Diariamente, os estudantes chegam ao refeitório em formação militar, cantando em uníssono hinos ao partido e aos líderes, perfeitamente uniformizados com roupa, gravata e pastas idênticas. Cada grupo forma um pelotão e conta com um supervisor encarregado de vigiar o desenvolvimento das classes. Por turno rotativo, meia dúzia de alunos passa cada noite no edifício dedicado ao estudo dos ensinamentos de Kim Il-sung e Kim Jong-il. Também em patrulhas se repartem tarefas como a limpeza do monumento dedicado ao Grande Líder ou o cuidado do jardim e a poda — a mão — do gramado.
As atividades diárias estão estritamente organizadas. Cada lição, cada livro de texto, deve receber a aprovação das “contrapartes”, o corpo docente norte-coreano encarregado da supervisão. Nos primeiros tempos da universidade, só se davam aulas de inglês. Apesar do nome do centro, não havia professores de ciência, nem de informática, que chegaram nos anos posteriores.
Os docentes podem interagir com os alunos não somente durante a aula, senão também nas horas dedicadas ao esporte ou durante as refeições. A carne escasseia nos almoços, que se limitam a arroz com verduras em conserva. Num país onde 84% da população sofre uma dieta insuficiente, segundo o Programa Mundial de Alimentos da ONU, comer três vezes ao dia já representa um privilégio.
Diferentes níveis de mentiras
Os temas das conversas não são muito mais variados do que os pratos do campus. Limitam-se, sobretudo no início, a esporte, aos estudos ou, um pouco mais adiante, a namoradas reais ou aquelas dos sonhos.
— Estávamos vigiados 24 horas por dia, sete dias por semana; se os garotos davam a mais remota mostra de curiosidade sobre o mundo exterior, isso se silenciava imediatamente — explica Suki Kim. — Cada vez que tinha a sensação de que havíamos avançado um pouco em nossa relação pessoal, eles voltavam a se meter imediatamente em sua concha.
Naqueles dias de 2011, ademais, vivia-se um momento “especialmente vulnerável” para os estudantes. O resto dos universitários norte-coreanos haviam sido enviados para trabalhar em obras de construção. Oficialmente, porque se comemorava o centenário do nascimento do fundador da dinastia, Kim Il-sung, e havia que lhe oferecer uma “nação poderosa e próspera”. Extraoficialmente, porque no Oriente Médio se desenvolvia a primavera árabe e, provavelmente, o regime temia um possível contágio. Os alunos da Pust foram os únicos em todo o país que não foram convocados para este trabalho, uma mostra a mais de seus privilégios especiais. Mas a desconfiança e a vigilância diárias geravam um tecido de mentiras. Mentiras por parte do regime: para demostrar a existência da liberdade de culto, os professores foram convidados para um serviço religioso cristão em Pyongyang. Logo ficou claro a eles que o coro de elegantes damas que entoava hinos era um grupo de cantoras profissionais, e os paroquianos, meros comparsas que desapareceram rapidamente após o último amém.
A periodista também ocultava a verdade. Ainda que tenha apresentado sua solicitação com seu nome autêntico e James Kim sabia que era escritora, Suki nunca revelou que sua intenção era escrever um livro sobre o centro, algo que poderia lhe acarretar consequências graves.
— Tratar de cobrir a Coreia do Norte, o país mais corrupto do mundo, é como cobrir a máfia ou a indústria farmacêutica, não há mais opções do que se infiltrar para tentar obter algo da verdade desse local. Fingi ser professora, mas ensinei de verdade e não me comportei de modo enganoso com meus alunos. Meu comportamento com eles e meu carinho eram genuínos.
E os alunos falavam também constantes mentiras:
— Havia diferentes níveis. As mentiras que seus supervisores os ordenavam que contassem. As que soltavam por puro hábito. As que os haviam ensinado e acreditavam ser verdade.
Boa parte da cultura geral dos estudantes estava baseada em falsidades: acreditavam que o coreano se fala em qualquer lugar do mundo ou que jogar basquete faria com que crescessem mais um pouco. Desconheciam a existência da Torre Eiffel. Não haviam ouvido falar de Steve Jobs. Não tinham internet e unicamente tinham acesso a uma intranet muito limitada.
— Não sabiam como pensar de maneira crítica. Ensinar-lhes a estabelecer um argumento, colocar exemplos, expor sua tese para chegar a uma conclusão não era possível. Não entendiam o conceito de introdução, conclusão ou demonstração. Em seu sistema do Grande Líder não se demonstra nada, não se incentiva a pensar por si mesmo — conta Kim.
Apesar de tudo, ao longo das conversas, e em cartas que escreviam como exercícios de classe, algumas vezes aparecem indícios de que algo há por trás das máscaras. Os garotos admitem tédio pela rotina, nostalgia por suas famílias, com as quais não podem ter contato. As atitudes copiadas se convertem em gestos individuais, personalidades definidas. Um deles chega a confessar que gosta de rock and roll, outro se atreve a perguntar pelo conceito de assembleia nacional.
Publicidade
E a jornalista também se anima a contar a eles sobre os países para onde tinha viajado, a falar do que é o Skype. Um dia antes de partir, Suki Kim tem a oportunidade de mostrar a um grupo de alunos “Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban”. Mas os rapazes se deliciam por pouco tempo com a história: no mesmo dia, 20 de dezembro de 2011, anuncia-se a morte de Kim Jong-il.
Após sua partida e a publicação do livro, que valeu duras críticas dos responsáveis pela Pust, Kim não voltou a saber de seus alunos.
— Uma parte de mim se preocupa. Qualquer notícia da Coreia do Norte sempre é muito atemorizante...

sábado, 7 de março de 2015


 https://nerdgeekfeelings.files.wordpress.com/2015/03/the-man-in-the-high-castle-amazon-pilot.jpg
Mohammed Hatib, um ativista do Hamas de Hebron, é um amigo de infância de Marwan Kawasme, que planejou o sequestro e posterior assassinato dos três adolescentes de Gush Etzion, em junho de 2014. Hatib foi preso logo após o sequestro e interrogado pelo serviço de segurança Shin Bet . Ele negou qualquer conhecimento do caso e disse que não tinha ideia de onde o desaparecido Kawasme estava.

O questionamento de Hatib muito rapidamente se transformou em tortura, ou o que os juízes do Tribunal Militar de Ofer classificou como “exigido por necessidade”, “questionamento excepcional”, ou “meios especiais”. Sob tortura, Hatib admitiu servir como uma vigia para Kawasme e seu cúmplice, Amar Abu-Aisha, na noite do rapto. Isto era mentira; o inquérito revelou que não havia vigia. O Shin Bet e a promotoria militar não acreditaram em Hatib, como pode ser visto pela acusação que ele recebeu, na qual não há nenhuma menção de envolvimento no sequestro. Ele é acusado de disparar um rifle no ar em 2006 e, posteriormente, ter participado de um grande número de manifestações e protestos do Hamas.
O questionamento de Hatib é parte de uma tendência, que começou no segundo semestre de 2014, do aumento do uso de tortura pelo Shin Bet, de acordo com um advogado que representa muitos suspeitos acusados de crimes contra a segurança, as informações recolhidas pelo diário “Haaretz” de tribunais militares, e o Comitê Público contra a Tortura em Israel.
— No ano passado houve alguns casos raros. Mas alguma coisa mudou — disse o advogado.
Durante 2014, 23 palestinos deram entrada em uma série de denúncias de tortura pelo Shin Bet (cada declarante pode registrar uma reclamação sobre um número de diferentes métodos de tortura). No primeiro semestre de 2014 houve cinco queixas de privação do sono e espancamentos durante o interrogatório. Não houve reclamações de agitação ou de suspeitos amarrados nas posições conhecidas como “a banana” e “a rã”. Mas no segundo semestre de 2014, houve 19 denúncias de privação do sono, 12 dos espancamentos, 18 de amarração e duais de agitação. No total, foram 51 casos relatados, contra oito no primeiro semestre do ano.
O Shin Bet é obrigado a informar o tribunal de que a tortura foi utilizada, de modo que os juízes saberão o peso a dar provas recolhidas sob esses métodos. Os advogados de defesa não estão autorizados a fazer cópias dos relatórios, apenas a lê-los. Os próprios documentos são mantidos em um cofre.
Até 1999, milhares de prisioneiros palestinos foram torturados todos os anos. O Comitê Público contra a Tortura em Israel estima que a maioria dos palestinos interrogados experimentou pelo menos um tipo de tortura. Em setembro de 1999, na sequência de uma petição ao Supremo Tribunal de Justiça, o tribunal proibiu o uso sistemático da tortura, mas deixou uma pequena abertura para interrogadores: Um interrogador que usou a violência poderia alegar após o fato, de que havia uma “necessidade urgente” de violar a lei. O então presidente do Tribunal Superior, Aharon Barak, deixou possíveis queixas a critério do procurador-geral.
“Necessidade urgente” é algo que é decidido em retrospecto, se a denúncia for apresentada, mas em casos extremos, sinais verdes para a tortura ainda são emitidos. O procurador-geral estabeleceu regras a respeito de quando a “necessidade urgente” está presente, mas essas regras não foram publicamente divulgadas.
Funcionários do tribunal militar que viram os documentos do Shin Bet dizem que diversos tipos de tortura são mencionados. Eles incluem olhos vendados por longos períodos, o que provoca uma perda de orientação, com cinco ou seis interrogadores em torno de um suspeito e gritando em seus ouvidos durante horas: forçar um suspeito a ajoelhar-se contra uma parede com os joelhos dobrados; espancamentos; cócegas com uma pena no nariz ou na orelha; tapas; forçar um suspeito a ficar de pé durante horas amarrado com as mãos ao lado do corpo na postura “banana”. Os documentos revelam que estes métodos são novos e menos brutais do que os proibidos pelo Supremo Tribunal, entre os quais estão cobrir a cabeça com um saco por muitas horas, amarrações na posição “rã” e privação de sono.
Uma pessoa submetida à tortura foi Ziad Awad, condenado pelo assassinato do Comandante de Polícia Baruch Mizrahi, na véspera da Páscoa de 2014. Os suspeitos do rapto de três adolescentes também foram torturados, a maioria deles depois que os corpos das vítimas foram encontrados em 30 de junho. O Shin Bet disse que os dois homens que executaram o rapto, Kawasme e Abu-Aisha, estavam prestes a cometer outro ataque e, portanto, era considerado uma “bomba-relógio”.
Seis ou sete homens foram torturados no caso de uma célula terrorista do Hamas descoberta na Cisjordânia, em agosto. O líder da célula, Riad Nasser, foi torturado por várias horas. O Shin Bet disse que o grupo planejava um golpe na Cisjordânia. No entanto, nenhuma evidência disso foi encontrada no material investigativo. A inteligência militar disse que o Shin Bet tinha exagerado a gravidade da infraestrutura da célula. No entanto, grandes quantidades de armas foram encontradas, o que o Shin Bet afirmou justificar o uso de “métodos especiais”.
Três palestinos acusados de um atentado contra a vida do ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, também foram torturados, embora a evidência no caso fosse duvidosa: um dos suspeitos pensou ter visto um carro pertencente a Lieberman, decidiram matá-lo e pediu a um dos outros que comprasse um míssil. O carro não era de Lieberman, mas o Shin Bet acreditava que a ameaça a um alto funcionário justificou o uso da tortura.
A tortura nem sempre se mostrou eficaz. Ziad Awad nunca admitiu o assassinato mesmo após o questionamento intensivo. A acusação contra ele foi baseada em um rifle encontrado em sua casa e outras provas.
Publicidade
— O Supremo Tribunal reconheceu a necessidade em casos de “bombas-relógio”. Mas ninguém sabe que é o nível de suspeita necessário para justificar “métodos especiais” — afirmou o advogado de Mohammad Hatib, Fadi Kawasme, ao “Haaretz”. — Após o sequestro, o Shin Bet usou a cláusula da necessidade, para investigar as pessoas só porque eles eram amigos dos responsáveis pelos ataques.
O Shin Bet respondeu: “As pessoas mencionadas no artigo foram interrogados por suspeita de cometer os crimes mais graves e após investigação eles foram acusados de assassinar o comandante Mizrahi e de tentar assassinar sua família. Riad Nasser foi acusado de uma longa série de crimes, incluindo comandar a infraestrutura militar do Hamas na região de Ramallah, que previa, entre outras coisas, ataques contra israelenses”.
O Shin Bet afirmou que opera “somente dentro do quadro da lei e está sob a supervisão interna e externa”. O órgão acrescentou que os detidos questionados “recebem todos os direitos humanitários acordo com as convenções internacionais das quais Israel é signatário e de acordo com a lei israelense”.