sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Uma cerimônia realizada em Manaus, serviu como uma reparação histórica: um pedido de desculpas por injustiças de 70 anos atrás contra imigrantes. Tambores tradicionais japoneses na Assembleia Legislativa. É o resgate de parte de uma história quase esquecida. Em 1931, imigrantes do Japão fundaram, no meio da floresta, um lugar chamado Vila Amazônia. Eles conseguiram adaptar a juta ao solo da região. A fibra natural asiática era fundamental para a economia brasileira porque dela são feitos sacos para exportação do café. O projeto agrícola deu tão certo que, em poucos anos, o Brasil deixou de importar juta da Índia. Mas com a Segunda Guerra Mundial na década de 40, os imigrantes foram perseguidos. "Eles abriram galerias para formar o esgoto da vila, e o pessoal começou a dizer que eles estavam cavando para guardar armas. Outros iam além: diziam que estavam cavando um buraco para chegar ao Japão”, conta o geógrafo Camilo Ramos. Quando os japoneses foram declarados inimigos, as terras, indústrias de beneficiamento da juta, a companhia de exportação, tudo foi confiscado pelo governo. Os imigrantes que permaneceram na Vila Amazônia foram presos e depois levados ao estado do Pará, onde ficaram confinados em um lugar chamado "Acara". Para os japoneses e descendentes era um campo de concentração em plena Floresta Amazônica. O engenheiro Yosiyuki Miyakei, com sete anos na época, diz que os pais tiveram que fazer trabalho forçado. “Meus pais foram forçados pela administração da época a construir estradas”. Seu Shoji fugiu para a floresta para não ser preso. Quando voltou para a cidade, foi açoitado. "O soldado disse: 'traz aquele japonesinho'. Eu fui lá e ele começou a me bater com couro de peixe-boi”, contou o aposentado Zennoshin Shoji. Hoje com 96 anos, Seu Shoji recebeu titulo de Cidadão do Amazonas. Apenas 3 dos 249 imigrantes da Vila Amazônia ainda estão vivos. Viúvas e descendentes ouviram do governo do Amazonas o pedido formal de desculpas pelas agressões e calúnias durante a Segunda Guerra Mundial. “Para nós é como se tivéssemos conseguido lavar a honra de nossos pais. Agora a gente pode dizer: descansem em paz", diz Valdir Sató, da Associação Koutaku do Amazonas.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011





As revoltas populares que começaram em dezembro do ano passado, conhecidas como "primavera árabe", puseram fim aos governos de Hosni Mubarak, no Egito; de Ben Ali, na Tunísia; e agora, ao de Muammar Gaddafi, na Líbia. Porém, na Síria de Bashar Assad, no Iêmen de Ali Abdullah Saleh e no Barein de Hamad Ben Isa Al Jalifa, as manifestações ainda não alcançaram resultado concreto. Gaddafi, que governou a Líbia por 42 anos, fugiu do palácio presidencial no último dia 22 de agosto e permanecia até hoje escondido em sua cidade natal, Sirte, até ser morto pelas forças rebeldes, segundo agências de notícias. Ben Ali, da Tunísia, abandonou o poder após uma revolta popular iniciada em 17 de dezembro, quando um jovem vendedor ambulante ateou fogo ao próprio corpo, em protesto contra o autoritarismo do governo. Ele chegou a fugir para a Arábia Saudita em fevereiro, mas sofreu um acidente vascular que o deixou temporariamente em coma. A justiça da Tunísia pede agora sua extradição, no momento em que o país convoca para este domingo suas primeiras eleições gerais em 24 anos. Hosni Mubarak, no Egito, que renunciou ao poder depois de 18 dias de distúrbios no país, foi substituído por uma Junta Militar e aguarda julgamentos por assassinatos e tentativa de homicídio. Na Síria, Bashar Assad, que chegou ao poder em 2000 após a morte de seu pai, dirige com sua família o governo mais sangrento de toda a região, é acusado pela morte de mais 3.000 opositores e pesam sobre ele denúncias de supostas conspirações internacionais. Até o momento, o Conselho de Segurança da ONU não atendeu às sanções solicitadas por alguns Estados membros. A Liga Árabe anunciou que no próximo dia 26 de outubro enviará uma comissão à Síria para tentar um diálogo entre regime e oposição. No Iêmen, Ali Abdullah Saleh, que assumiu o poder na parte sul do país, em 1978, se manteve no cargo após a reunificação, em 1990. Fugiu para a Arábia Saudita após um atentado em 3 de junho, que o deixou gravemente ferido, mas regressou ao Iêmen em 23 de setembro, retomando o poder. No Barein, o rei Hamad Ben Isa Al Jalifa, se mantém no poder mesmo com os protestos populares por reformas democráticas, que reúnem milhares de pessoas nas ruas do país desde 14 de fevereiro. As organizações de defesa dos direitos humanos têm denunciado que a repressão e os julgamentos posteriores às manifestações incluíram os médicos que atenderam os manifestantes feridos pela polícia. Há denúncias de apoio militar da Arábia Saudita e venda de armas pelos Estados Unidos.
E pensar que, se certos ditadores tivessem recebido um ou dois abraços mais cedo na vida, as coisas teriam sido muito diferentes! No que talvez seja a solução de crime mais tardia dos últimos tempos, a polícia chinesa encontrou o responsável por um crime bárbaro cometido na década de 80: abraços. Isso mesmo, o homem foi considerado um criminoso foragido por abraçar uma mulher. Na última semana, policiais da província de Hainan dirigiram 1.126 km até a vizinha Guangdong atrás de Chen Zonghao, o facínora. A ação aconteceu após a autoridade chinesa ordenar à cúpula da polícia que não deixasse nenhum caso antigo sem solução. Ao chegarem até Chen, porém, os policiais encontraram uma vítima que hoje dá de ombros para a tal acusação. O bandido está casado com... a mulher que abraçou, com quem tem hoje três filhos. O que aconteceu: na época do tal abraço, a família da garota não aceitou o romance e denunciou Chen à polícia. A punição por tal crime podia ser até a pena de morte, o homem fugiu da cidade. A mulher foi atrás dele um ano depois, e desde então os dois vivem em cumplicidade e felizes. Cheng, "o último hooligan de Hainan", como foi apelidado pela imprensa local, foi solto sob fiança, mas ainda deve responder a inquérito.
Enquanto as casas de leilões se prepararam para a temporada de outono, os colecionadores de arte na China vêm se tornando uma força cada vez mais poderosa no mercado, demonstrando interesse crescente por arte não apenas asiática, mas também ocidental.
No leilão de primavera da Sotheby's, um comprador chinês arrematou a tela mais cara da noite -"Femme Lisant (Deux Personnages)", de Picasso-, por US$ 21,3 milhões. Em março, na casa Lebarbe, em Toulouse (França), um comprador chinês marcou um novo recorde para vendas de arte chinesa na França, com um lance de US$ 31 milhões por uma pintura do Palácio Imperial de Pequim.
Hoje, casas de leilões chinesas andam vendendo obras em um ritmo igual ao das casas de Londres e Nova York. Uma empresa que rastreia o mercado de belas-artes, a Artprice, informou que as casas chinesas foram responsáveis por cerca de US$ 8,3 bilhões em vendas de arte, o que as colocaria na liderança mundial do setor.
"Assistimos a um crescimento exponencial por parte de compradores da China que cresceram durante a Revolução Cultural", comentou Henry Howard-Sneyd, vice-presidente de arte asiática da Sotheby's. "São pessoas de negócios muito bem sucedidas que têm muito dinheiro à sua disposição."
Este ano, a Christie's nomeou representantes chineses em Nova York e Londres para atrair clientes novos na Ásia e administrar as relações com os maiores colecionadores particulares da China e da Ásia que são clientes seus.
Especialistas em leilões de arte dizem que, até certo ponto, os chineses vêem a arte não apenas como uma maneira de diversificar portfólios, mas como meio de projetar status, enquanto interagem com executivos internacionais. O aumento na atividade de colecionadores chineses também seria uma reação aos anos da repressão maoista, durante os quais o país censurou o acesso à cultura.
"Os chineses querem recuperar sua cultura e sua história", explicou Howard-Sneyd.
Lawrence Chu, colecionador de Hong Kong que dirige a BlackPine Private Equity Partners, disse que coleciona artistas ocidentais como Toby Ziegler, Mark Bradford e Dana Schutz -além de arte asiática- porque "os artistas são mais desenvolvidos".
"Há um pouco mais de substância no que eles fazem", explicou.
Enquanto muitos comparam essa onda chinesa à corrida japonesa à arte impressionista nos anos 1980, outros pensam que a tendência vai durar mais tempo.
"A arte fez parte dessa maneira de sair e fazer uso da posição econômica do Japão para possuir ativos de todo o mundo -mais Picassos, mais Monets, mais isso, mais aquilo", disse Marc Glimcher, presidente da Pace Gallery, uma galeria de Nova York que representa alguns dos artistas mais importantes da atualidade.
Com o crescimento do mercado chinês, grandes galerias vêm abrindo escritórios satélites na China. A Pace Gallery, por exemplo, foi uma das primeiras a se aventurar na China, em 2008.
"É a mesma coisa sempre que há uma catástrofe seguida por um boom", disse Glimcher. "A Revolução Cultural foi essa catástrofe, e este momento é o boom."
As salas de aula da escola média Alvorada da Liberdade estavam vazias. Os professores andavam perdidos lá fora ou conversavam nos corredores. Um pequeno grupo de adolescentes sentou-se no teatro e armou um plano para atrair de volta seus colegas.
O problema é a revolução, eles concluíram. Poucas semanas depois da libertação de Trípoli, o bairro em que a escola se localiza, Abu Salim, continua sendo um bastião de apoio ao líder deposto, o coronel Muammar Gaddafi.
Os filhos dos lealistas -incluindo adolescentes que foram recrutados ou se apresentaram voluntariamente para o serviço militar- tinham pouco interesse em aprender a história da rebelião ou o novo hino nacional, disseram seus amigos.
Enquanto o país tateia no precipício da mudança, os desafios da Líbia eram claramente visíveis nas escolas de Trípoli. Nas últimas semanas os educadores abriram as portas para uma nova realidade confusa. Para desfazer o currículo rígido e dogmático do coronel, os professores tinham como orientação apenas um fino panfleto de instruções que lhes foi dado por autoridades do governo provisório.
Bairros como Abu Salim, onde as feridas da guerra civil ainda estão abertas, enfrentaram o teste mais duro. Os professores, independentemente de suas simpatias, foram solicitados a pintar com tinta branca a propaganda do antigo governo. Conselheiros se preparavam para lidar com jovens combatentes que voltavam do front de guerra.
A adaptação foi mais fácil em outras partes do país, como Tajoura, que era solidamente anti-Gaddafi. Os estudantes dessas áreas voltaram às escolas em números maiores. No entanto, Abu Salim foi cenário de combates acirrados durante a batalha por Trípoli e os diretores escolares dizem que os pais podem ter medo de deixar seus filhos saírem de casa.
No primeiro dia de aulas no colégio Aniversário da Vingança (o nome comemora a expulsão dos italianos por Gaddafi em 1970), cem alunos foram à escola, segundo o diretor, Mohammed Melek.
"Estamos tentando fazer nosso trabalho como se as coisas estivessem normais", ele disse. Segundo ele, os professores estão preparando um currículo que incluirá uma nova Constituição e a queda do governo anterior.
Mas um aluno, Mahmoud Najem, 17, contradisse Melek, dizendo que apenas um punhado de estudantes havia aparecido. "Eu acho que a maioria dos rapazes quer Gaddafi", ele disse, falando sobre um bairro pobre onde o antigo governo tinha comprado lealdade com presentes em dinheiro.
Na borda de Abu Salim, professores da escola elementar Abdulrahman bin Aouf mergulhavam na história da mais recente revolução com entusiasmo. Em um playground, uma pilha de exemplares do Livro Verde fumegava.
Mais adiante, na mesma estrada, havia sinais de uma revolta contra os revolucionários na escola Sayyida Zeinab. Crianças se recusaram a cantar o novo hino nacional e alguém havia rasgado a nova bandeira oficial da escola.
Abdullah al Ashtar, uma autoridade local que trabalha com as escolas, disse que compreende como o entusiasmo dos revolucionários pode irritar outros estudantes, mas acrescentou: "Não queremos matar essa alegria".
Em vez disso, disse Ashtar, as autoridades escolares reunirão os alunos para discussões e os professores serão incentivados a procurar as crianças das famílias pró-Gaddafi. "Estamos tentando reformá-las", ele disse. "E não afastá-las."

domingo, 16 de outubro de 2011






Jovens -homens e mulheres- pulando ao som de punk rock e batidas pesadas. Seria um cenário extremamente comum em um festival de música, não fosse realizado em Cabul. O jejum de 30 anos sem festivais no país foi quebrado no sábado por uma maratona de seis horas de blues, indie, música eletrônica e death metal com bandas da Austrália, Uzbequistão, Cazaquistão e Afeganistão. Muitos dos cerca de 450 pagantes da festa Sound Central nunca antes tinham visto música ao vivo. Sob o regime do Taleban, a música chegou a ser proibida no país, e, mesmo hoje, lojas de música são atacadas em algumas cidades. O festival foi promovido sob forte segurança num canto do Babur Gardens, parque que cerca o túmulo de Babur, o primeiro imperador mongol. A data e o local foram mantidos em segredo até o último minuto, para reduzir as chances de um ataque insurgente. Mas o festival não deixou de ter traços afegãos: não havia bebida alcoólica, e os únicos lanches servidos eram típicos espetos de carne. As bandas deixaram o palco e os microfones foram desligados duas vezes no final da tarde para permitir que o chamado à oração do islã fosse ouvido sem interrupções, vindo das mesquitas vizinhas. Alguns idosos com turbantes e barbas longas pareceram espantados, mas não inteiramente reprovadores.
O Ministério das Relações Exteriores da Austrália criticou a condenação da atriz iraniana Marzieh Vafamehr a 90 chibatadas e um ano de prisão por aparecer sem véu e com a cabeça raspada em cenas de um filme crítico ao regime islâmico. A produção australiana "My Tehran for Sale" conta a história de uma atriz (interpretada por Vafamehr) que foge para a Austrália depois de sofrer perseguição no Irã. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Austrália disse ontem que "O governo australiano condena a aplicação de castigos cruéis, desumanos e degradantes". As produtoras do filme, Julie Ryan e Kate Crose, ambas australianas, também se opuseram à pena: "Gostaríamos de expressar consternação e pesar com a sentença e oferecer apoio à atriz e sua família, respeitando seu desejo de que o processo corra pelos canais legais". Os advogados de Marzieh recorreram da sentença.