domingo, 28 de agosto de 2011









A Criterion Collection, distribuidora de DVDs e Blu-rays conhecida por relançar clássicos e filmes alternativos restaurados, vai trazer de volta o Godzilla (Gojira) original, de 1954.
Depois de uma busca entre colecionadores pelo material original, a Criterion encontrou uma versão do filme de monstro em película de 35mm - mais especificamente, uma cópia direta do negativo.
Além do restauro, a Criterion deve também buscar nos arquivos da Toho, produtora do filme, raridades para incluir nos extras. Como o processo está começando agora, o lançamento ainda deve demorar.

Traditional love stories like ‘The Phantom of the Opera’ are relatively easy for Chinese to accept, but the story of ‘Mamma Mia!’ is avant-garde to Chinese.
É difícil dizer ao certo quem retirou o retrato do mártir mais famoso da revolução, Mohamed Bouazizi, de seu lugar no alto de uma ostentosa estátua dourada na rua onde ele ateou fogo em si mesmo, dando início a uma temporada de revolta por todo o mundo árabe. Um homem disse que os responsáveis foram contra-revolucionários não identificados, outro falou que o retrato foi danificado pela chuva.
Os vizinhos de Bouazizi disseram que ele foi retirado por desgosto, há algumas semanas, depois que a mãe, tio e irmãos de Bouazizi deixaram a cidade de Sidi Bouzid, um ato que os vizinhos consideraram uma traição. A indignação se deu por conta de rumores de que a família havia aceitado grandes somas de dinheiro para se mudar para uma casa em Túnis. Mas, mais do que isso, eles disseram que estavam furiosos por terem sido deixados para trás, num lugar sem empregos, dinheiro ou esperança, sem os famosos Bouazizi para dar voz ao seu desespero.
“Ela nos abandonou, e nada aqui mudou”, disse Seif Amri, 18, um vizinho, falando sobre a mãe de Bouazizi, Mannoubia Bouazizi.
É um sinal da profunda frustração que paira em Sidi Bouzid o fato de que algumas pessoas decidiram atacar o filho favorito da cidade. A raiva está fora de lugar, diz a maioria dos moradores, atribuindo a culpa pela falta de progresso ao governo de transição, que demorou para lidar com uma das principais queixas da revolução – o desemprego dos jovens – especialmente aqui nas cidades do centro da Tunísia, onde a revolta começou.
A frieza aqui é um contraste grande em relação ao otimismo que existe por toda a Tunísia em relação ao progresso da revolução, e ela ameaça minar as conquistas: várias vezes nos últimos meses, disputas por empregos levaram a episódios fatais de violência.
Os analistas dizem que a resposta do governo foi inadequada, consistindo principalmente num esquema de oferecimento de dinheiro. Eles também dizem que alguns ministros resistiram a pressionar por projetos governamentais de grande escala que criariam empregos de curto prazo, esperando, em vez disso, que o mercado corrija os problemas.
“Não foi oferecido nem fornecido o suficiente”, disse Mongi Boughzala, professor de economia na Universidade de Túnis. “Os poucos programas que chegaram vieram tarde ou foram insuficientes”. Os jovens esperam algo imediatamente. Eles esperavam que depois de tomar esse passo revolucionário, houvesse algum retorno, em termos de empregos mas também de reconhecimento.
“Um jovem que diz 'eu quero um emprego, estou cansado de ser marginalizado, e isso é algo que não posso mais aguentar' não quer saber se a culpa é do governo ou do mercado”, acrescentou.
Na Tunísia, como no Egito, o otimismo alimentado pela revolta popular colidiu com a fria realidade de que a vida não melhorou rapidamente, e em muitos casos, ela ficou ainda mais difícil à medida que as economias desaceleram e os líderes lutam para construir um novo sistema. O desemprego entre os jovens na Tunísia era alto antes mesmo da revolução – até 30%, e mais de 40% em cidades como Side Bouzid, dizem os economistas. Mas a economia da Tunísia foi duramente atingida nos meses depois da revolta e deve conseguir um crescimento positivo apenas modesto este ano. O setor turístico prejudicado e o fardo de ter de lidar com os refugiados da guerra na vizinha Líbia pioraram o quadro financeiro e seus problemas de emprego.
Nos últimos anos, o primeiro-ministro interino da Tunísia, Beji Caid Essebsi, falou várias vezes sobre os 700 mil desempregados do país, mais de 15% da força de trabalho, incluindo 170 mil universitários graduados. Essebsi disse que os novos programas do governo podem fornecer vagas para 60 mil pessoas, mas ele também reconheceu que não havia uma solução rápida, apelando, em vez disso, para empresários e investidores para focar nas áreas deprimidas do interior da Tunísia.
Jovens da região dizem que o governo respondeu com promessas vazias e ouvidos surdos. Nabil Hajbi, empresário local que coordena uma associação de jovens chamada Karama, disse que oito ministros visitaram Sidi Bouzid há cerca de dois meses e ignoraram um plano apresentado por líderes da região que continha possíveis soluções para o problema do desemprego, incluindo ideias para reformar a infraestrutura da região e para construir novas fábricas.
“Eles prometeram muita coisa”, disse Hajbi. “Foi por isso que as pessoas perderam a esperança. O governo não fez nada nessa área. Eles querem que as pessoas se acalmem primeiro.”
Ele acrescentou: “as pessoas querem que o governo aja primeiro, ou que pelo menos tenha um plano”.
Em outros lugares, promessas específicas aumentaram as expectativas de depois levaram a recriminações – ou à desobediência civil. Menos de 100 quilômetros dali, em Kassrine, professores desempregados estão se manifestando há quase dois meses, pedindo que o Ministério da Educação cumpra uma promessa de abril de contratar 3 mil professores em semanas. Até agora, disseram os professores, apenas 190 foram contratados.
Eles ocuparam o andar térreo do prédio do sindicato – e queriam tomar o escritório de emprego local, mas ele foi queimado durante a revolta. As reclamações dos professores não são novas: num canto da sala, Zuhayar Arhimi, 38, estava no quarto dia de uma greve de fome. Enquanto ele desmaiava no calor, seus colegas disseram que ele estava desempregado desde que se formou na faculdade em 2003.
Kassrine e a cidade vizinha de Tala sofreram altas perdas durante a revolta de janeiro, quando mais de 20 moradores locais foram mortos. O maior empregador é uma fábrica de papel, e as pessoas, como outras na região, encontram emprego temporário na agricultura, ganhando cerca de US$ 5 por dia. Uma pichação nas ruas de Kassrine diz: “covardes não fazem história”.
Samir Rhimi sentou-se sobre os trilhos de trem nos arredores da cidade, observando dois homens procurando plástico, além de alimentos para seus animais, num canal sujo.
“Se não houver desenvolvimento nesta região”, disse Rhimi, “não haverá estabilidade no país”.
Há mais de duas semanas, autoridades impuseram um toque de recolher em Sidi Bouzid, depois que conflitos violentos entre o exército e manifestantes terminaram com a morte de um garoto de 14 anos. Os protestos não foram diretamente sobre desemprego. As pessoas se reuniram para mostrar solidariedade aos manifestantes que haviam entrado em conflito com a polícia em Túnis alguns dias antes, mas no atual clima de Sidi Bouzid, o protesto rapidamente escalou à medida que jovens jogaram bombas improvisadas nos soldados, que usaram suas armas.
Depois disso, houve reclamações familiares de negligência.
Yuan Xinquan foi apanhado de surpresa certa manhã em 2005. Pai aos 19 anos, ele carregava sua filha de menos de dois meses em um ponto de ônibus, quando seis homens saltaram de uma perua do governo e exigiram sua certidão de casamento.
Ele não tinha: ele e a mãe da sua filha estavam abaixo da idade legal para o casamento. Ele também não tinha 6 mil renminbi, na época cerca de US$ 745, para pagar a multa que lhe foi exigida. Então, ficou com um saco plástico que continha as roupas da sua filha e leite em pó.
"Eles são piratas", disse Yuan. Quase seis anos depois, ainda espera enviar uma mensagem para sua filha: "Por favor, volte para casa assim que puder".
Na China, a preferência por filhos homens, juntamente com o rígido controle do número de nascimentos, ajudou a criar um lucrativo mercado negro de crianças. A polícia, recentemente, anunciou que havia resgatado 89 bebês de traficantes de crianças, e o vice-diretor do Ministério da Segurança Pública criticou o que chamou de prática de "compra e venda de crianças neste país".
Mas os pais em Longhui dizem que em seu caso foram autoridades do governo que trataram os bebês como uma fonte de renda, habitualmente impondo multas de US$ 1 mil ou mais -cinco vezes a renda anual de uma família média. Se os pais não pudessem pagar, os bebês eram tirados das famílias ilegalmente e, muitas vezes, oferecidos a estrangeiros para adoção.
Pelo menos 16 crianças foram capturadas por autoridades do planejamento familiar entre 1999 e final de 2006 no condado de Longhui, uma área rural na província de Hunan, segundo pais e outros moradores.
A prática teve fim em 2006, segundo os pais, somente depois que um menino de oito meses caiu da sacada no segundo andar de um escritório local do planejamento familiar, enquanto as autoridades tentavam arrancá-lo dos braços de sua mãe.
A mídia chinesa, controlada pelo Estado, ignorou ou suprimiu as notícias sobre sequestros sancionados pelo governo em Longhui e outras regiões até maio passado, quando uma audaciosa revista chinesa, "Caixin", provocou um inquérito oficial.
Mas, em vez de ajudar a localizar e recuperar as crianças abduzidas, dizem os pais, as autoridades estão punindo os que se manifestam. E críticos dizem que os poderes dados às autoridades locais pelo planejamento familiar continuam excessivos e favorecem a exploração. O escândalo também levantou perguntas sobre se estrangeiros adotaram crianças chinesas que foram falsamente declaradas órfãs.
Pelo menos uma agência americana organizou adoções do orfanato de Shaoyang, dirigido pelo governo. Lillian Zhang, diretora da "China Adoption With Love", de Boston, disse que a agência encontrou pais adotivos em 2006 para seis crianças de Shaoyang. As autoridades chinesas certificaram em todos os casos que as crianças eram passíveis de adoção, ela disse. Pais estrangeiros que adotam devem doar cerca de US$ 5.400 ao orfanato.
Relatos de que as autoridades roubavam crianças, espancavam os pais e esterilizavam mães à força semearam terror no condado de Longhui durante anos. Yang Libing disse que era um trabalhador migrante na cidade de Shenzhen, no sul do país, quando sua primeira filha, Yang Ling, foi roubada da casa de seus pais em maio de 2005, com nove meses.
Autoridades do planejamento familiar avistaram aparentemente as roupas de Yang Ling penduradas para secar no quintal. Sua avó tentou escondê-la em um abrigo de porcos, mas o avô, Yang Qinzheng, um membro do Partido Comunista e ex-soldado, a fez sair. "Eu não desobedeço", ele disse. "Faço o que as autoridades mandam."
Os pais de Yang Ling não tinham registrado seu casamento. Para manter o bebê, disseram as autoridades, o avô Yang teria de pagar quase US$ 1 mil no ato. De outro modo, elas disseram que ele teria de entregar a menina com uma falsa declaração dizendo que não era seu avô biológico.
Yang Libing disse que correu para casa para pagar a multa, mas as autoridades disseram que era tarde demais. Quando ele protestou, um grupo de mais de dez homens o espancou, segundo afirmou.
"Não posso nem descrever meu ódio dessas autoridades", disse Yang.
Os moradores dizem que Xiong Chao foi o último bebê que as autoridades tentaram capturar, e um dos poucos que voltaram para casa. Seis anos depois, sua avó, Dai Yulin, diz: "Ele foi à escola primária durante um ano e ainda não consegue reconhecer 1 e 2".
Ali perto fica o quarto pequeno e escuro onde ela disse que tentou, sem sucesso, esconder Chao das autoridades. Ele era o segundo filho de seu filho. As autoridades exigiram quase US$ 1 mil e o levaram quando ela não pôde pagar.
Sua mãe, Du Chunhua, correu ao escritório do planejamento familiar para protestar. Lá, enquanto lutava com dois oficiais na sacada do segundo andar, ela disse que o bebê escorregou de suas mãos e caiu.
Enquanto o bebê estava em coma no hospital, as autoridades se ofereceram para esquecer a multa desde que a família pagasse as contas médicas, ela disse. E também disseram que os Xiong poderiam ficar com ele.
Um dos homens mais temidos no setor global da produção de pérolas tem 40 anos, é musculoso, dirige uma Ferrari e está fazendo algo improvável: cultivando pérolas que, apesar do preço acessível, aproximam-se do que existe de melhor em termos de qualidade.
Zhan Weijian trabalha no centro-leste da China -bem longe do Taiti e de outros paraísos do cultivo de pérolas em água salgada, que custam muito mais.
Os preços no atacado para as pérolas brancas de 1 cm caíram cerca de 30% nos últimos anos, graças à invasão de pérolas chinesas de alta qualidade cultivadas em antigos arrozais.
Há duas décadas, a China é a maior produtora mundial de pérolas, inundando o mercado com pérolas pequenas e baratas, adequadas a bijuterias. Mas agora empresas como a de Zhan estão usando novas técnicas para entrar no nicho das pérolas tratadas como joias, que têm de 1 cm a quase 2,5 cm.
"A concorrência da China prejudicou", disse Robert Wan, cuja empresa, a Robert Wan Tahiti, domina a produção de pérolas taitianas, que são cultivadas em moluscos em água salgada e ajudam a estabelecer o padrão de qualidade. "Os preços são maleáveis", disse Wan, "e, se em um ou dois anos eles fizerem um enorme aumento da oferta, vamos ver o que acontece".
A indústria chinesa das pérolas é um microcosmo de como o país está indo além dos salários mal pagos e da imitação de produtores estrangeiros. Com o aumento dos salários pagos no país, as fazendas de pérolas estão começando a se automatizar.
"Os EUA têm se preocupado com o fato de a China fazer produtos baratos -deveriam se preocupar é com a China fazer produtos melhores", disse Bruce Rockowitz, executivo-chefe da Li & Fung, maior distribuidora de produtos chineses para redes americanas de varejo.
Uma pérola chinesa de 1 cm é vendida no atacado por US$ 4 a US$ 8 e por mais do que o dobro disso no varejo. Já uma pérola taitiana de tamanho semelhante é negociada por US$ 25 a US$ 35 no atacado.
A disparidade de preço reflete persistentes diferenças de tonalidade e brilho. Não é preciso ser joalheiro para discerni-las quando as pérolas chinesas são postas ao lado de pérolas marinhas. As primeiras são mais opacas.
Porém, a entrada da China nesse segmento do mercado "tornou as pérolas acessíveis para a mulher trabalhadora média", disse Joel Schechter, executivo-chefe da Honora, uma das maiores importadoras de pérolas chinesas em Manhattan.
Zhan é executivo-chefe da Grace Pearl, uma das maiores empresas de Zhuji, cidade na província de Zhejiang.
Embora fique contente com a recepção que suas pérolas de 1 cm têm encontrado no mercado, Zhan se mostra mais orgulhoso é com uma inovação que ele batizou de pérolas Edison -esferas roxas, rosas ou cor de bronze (tons raramente vistos a não ser em pérolas tingidas) em tamanhos de até 2 cm.
Ele e a Grace zelam rigorosamente por suas técnicas, mas Zhan disse que as Edison são emblemáticas da crescente sofisticação científica e tecnológica das pérolas chinesas. Ele as batizou em alusão a Thomas Edison.
A Grace tem uma estreita parceria com a Universidade de Zhejiang para sequenciar todo o genoma do mexilhão no qual são cultivadas as pérolas de água doce, na esperança de usar essas informações para desenvolver pérolas ainda melhores.
Empresas como a Grace, onde os trabalhadores ganham de US$ 15 a US$ 23 por dia, estão recorrendo à automação, já que a mão de obra pode totalizar até um terço do custo de cultivar as pérolas, sem falar que a máquina seleciona toneladas delas, levando em conta o tamanho, a cor, a forma e as manchas de cada uma.
Qiu Xian, diretor de pesquisas da Grace, mostrou máquinas experimentais de catalogação, do tamanho de um guarda-roupa, projetadas por ele. Cada máquina despeja uma pérola a cada vários segundos e a fotografa sob diferentes ângulos durante a queda. Instantaneamente, o equipamento analisa as fotografias, além de apanhar a pérola e jogá-la numa canaleta para cair em um cesto com outras pérolas semelhantes.
Cada máquina pode funcionar 24 horas por dia, segundo Qiu, substituindo o trabalho realizado por 15 operários.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011



Os moradores das cidades japonesas destruídas pelo terremoto seguido por tsunami de 11 de março passado conseguiram reaver mais de 3,6 bilhões de ienes (cerca de R$ 76 milhões).
O dinheiro foi encontrado nos escombros por equipes de resgate e por cidadãos, segundo o jornal britânico "Guardian".
De acordo com a polícia local, dois terços desse valor estavam em 5.700 cofres, todos nas províncias de Fukushima, Iwate e Miyage, as mais afetadas pela tragédia.
Destes, 96% já foram identificados e devolvidos aos seus donos.
O restante do valor -1,3 bilhão de ienes (ou cerca de R$ 26 milhões)- estava dentro de bolsas e carteiras, na maioria das vezes junto de cartões de crédito.
Assim, a polícia conseguiu identificar 85% dos proprietários.
Na cidade de Ishinomaki, província de Miyage, um homem conseguiu recuperar 100 milhões de ienes (R$ 2 milhões); em Kamaishi, província de Iwate, 900 cofres foram entregues à administração pública.
O hábito de guardar dinheiro em casa ou no escritório é forte no Japão, sobretudo na área afetada, onde os pescadores preferem usar dinheiro a cartão.
Muitos japoneses desconfiam da solidez de seus bancos. Além disso, há uma resistência de parte da população em usar o dinheiro para consumo, fato que chega a causar problemas econômicos.
O tsunami no Japão deixou mais de 20 mil mortos ou desaparecidos e provocou o vazamento de radioatividade da usina nuclear de Fukushima, uma das mais antigas do país.
Mais de 80 mil famílias foram obrigadas a se deslocar por causa do risco de sofrerem os efeitos da radiação

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domingo, 21 de agosto de 2011

ENCONTROS DO CEO

26/08, SALA 4A-07, 13:00
O Centro Cultural Banco do Brasil abriga uma exposição interativa e de apelo popular. Trata-se de Oneness (em português, “singularidade” ou “unicidade”), primeira individual na cidade da japonesa Mariko Mori. O título deriva do conceito de conexão entre todas as coisas – Mariko, de 44 anos, é budista praticante. Moda, cultura pop, tecnologia e espiritualidade perpassam a produção da artista, que tem obras expostas no MoMa de Nova York e no Centre Georges Pompidou, em Paris. A mostra do CCBB reúne dez peças. Pode parecer pouco, mas é preciso considerar o impacto de cada uma delas. Wave UFO (1999-2002) pesa 6 toneladas. Trata-se de uma cápsula no estilo nave espacial que recebe um trio de visitantes por vez para sessões de 20 minutos. Eletrodos registram os impulsos cerebrais dos três, acionando imagens pré-gravadas que são projetadas no teto. A peça-título da exposição, Oneness (2003), traz seis figuras de 1,35 metro de altura semelhantes ao estereótipo de seres extraterrestres. Feitas de technogel, material entre o líquido e o sólido, elas se iluminam quando tocadas.


Com um pressentimento de humilhação iminente, enfrentei a câmera e mergulhei no mundo dos programas de namoro na TV chinesa.
O constrangimento que enfrentei no programa "Day Day Up" (dia dia para cima), visto por mais de 100 milhões, não deveria ter sido surpresa. Como jornalista freelancer em Pequim, já acompanhei os formatos humilhantes de programas como esse e sua ênfase sobre o materialismo. No programa "If You Are the One" (se você for aquela que procuro), um pretendente perguntou a uma das concorrentes se ela toparia andar no banco de trás da sua bicicleta. A resposta da moça foi "prefiro chorar no banco de trás de uma BMW".
A comercialização da mídia vem tornando a TV chinesa provocante, mesmo para os padrões ocidentais. Emissoras via satélite como a Hunan TV, criadora de "Day Day Up" -e a emissora que tem a segunda maior audiência- enfrentam censura menos rígida do que a da China Central Television, conhecida como CCTV.
Os programas de namoro ainda ficam fora da CCTV, mas são populares nos canais das províncias, onde "If You Are the One" vem sendo um dos mais assistidos. Nesse programa, 24 mulheres enfrentam uma sucessão de solteiros que são submetidos a interrogatórios intrusivos, nos quais seus extratos bancários são divulgados.
O episódio de "Day Day Up" do qual participei começou com sete homens estrangeiros tendo que escolher entre sete mulheres chinesas, baseados nas curvas e nos sorrisos delas. A mulher menos escolhida declarou em tom defensivo: "Homens estrangeiros não são meus legumes".
Os homens receberam cartazes com slogans que supostamente os caracterizavam. Eu era o "americano reluzente", e havia o "introvertido" sul-coreano e o "gentleman" britânico.
Juntos, abarcávamos sete países e quatro continentes, e o objetivo era destacar a incompatibilidade entre os estrangeiros e as chinesas.
"Estrangeiros são usados na televisão chinesa para chamar a atenção para a incompatibilidade cultural entre a China e o mundo externo", disse Miao Di, professor de artes da televisão em Pequim.
Esse subtexto ficou mais claro depois de o programa ser editado. Quando os apresentadores perguntaram de que tipo de mulher eu gostava, destaquei a personalidade independente e o gosto literário. Isso foi resumido na frase "gosto de mulheres cheinhas", fazendo com que minha resposta passasse a impressão de que todos os americanos compartilham a preferência por mulheres rechonchudas.
Eu sabia que minhas chances eram ínfimas por não ter bens. No fim do programa, fui rejeitado em meio a gargalhadas da plateia.
Desde então, porém, Yu Wanlin, uma das participantes, ficou minha amiga no QQ, o maior programa chinês de mensagens instantâneas. Quem sabe ainda haja esperança para mim.
Nos decrépitos edifícios que abrigam os ministérios afegãos, um gabinete está sempre novo: o do ministro. É também lá que, com frequência, são fechados negócios escusos, a incompetência reina, e o clientelismo é a moeda corrente.
Um gabinete desses serve de cenário para um novo programa de TV, "O Ministério", que parodia o nepotismo, os subornos e a incompetência que são comuns no governo afegão.
O Ministério dos Resíduos de Hechlândia, um país imaginário cujo nome significa "terra do nada", é ocupado por um ministro fraco e por uma equipe simplesmente lamentável.
O programa estreou neste mês na TV Tolo, a maior do país. Ele é, segundo os produtores, um tipo de atração nova na televisão local, um "falso documentário". Seu objetivo é fazer os afegãos sorrirem, não só por ser engraçado mas também por ser familiar, ainda que com certo distanciamento artístico.
"Trabalho no governo afegão há 42 anos, então já enfrentei muitos problemas", disse Ghulam Yahya Monis que interpreta o diretor administrativo do ministério e que, como muitos dos atores, acumula vários empregos para sobreviver. "Os papéis que interpretamos estão muito próximos das experiências das pessoas", disse.
Os personagens são pessoas que a maioria dos afegãos é capaz de reconhecer facilmente: o ministro da coleta de lixo, do tipo "reaja primeiro e pense depois", seu cunhado bajulador e não exatamente brilhante, que é o diretor administrativo, a secretária jovem e bonita, o mordomo que serve o chá, o ambicioso assessor do ministério e seu guarda-costas, chegado num autoelogio, mas não lá muito eficiente.
Nas cenas finais de um episódio gravado recentemente, homens armados invadem o gabinete do ministro e parecem prestes a matá-lo.
Só que os pistoleiros estão enfurecidos não com o ministro, mas com o guarda-costas, primo deles, que os deixou para trás ao ascender a um emprego lucrativo. Então, naturalmente, os homens querem vingança.
O nepotismo é um tema importante em "O Ministério" e é algo bem compreendido por todos os afegãos. A família, quase sempre, fala mais alto do que o mérito.
As pessoas resmungam contra isso, mas raramente se sentem capazes de questionar a prática publicamente, pois contratar um parente é uma forma de lealdade, a qual é respeitada, e ninguém quer ser rejeitado pela própria família. Apesar disso, conforme o país se moderniza, fica cada vez mais claro que ele não pode mais arcar com tais ineficiências.
A corrupção e as fraudes também são assuntos habituais no programa. Abordá-las com humor é parte da pauta política nem tão secreta dos produtores, que querem incentivar o questionamento dos afegãos sobre a forma como o governo funciona.
"O ator é a câmera da sociedade, observando a sociedade com uma lente diferente", disse Farouk Abdul Qadir, 65, que interpreta o ministro. "[O programa] serve para fazer as pessoas sorrirem, mas também para fornecer conhecimentos políticos a elas."
A televisão tem um papel especialmente importante para desempenhar no Afeganistão, já que poucas pessoas sabem ler, segundo Farouk. "Precisamos do cinema e do teatro para ensiná-las", afirmou.
O programa foi criado por Saad Mohseni, presidente do grupo Moby, dono da Tolo, que trabalhou brevemente num ministério antes de o seu conglomerado televisivo decolar, nos primeiros dias depois de o Taleban ser expulso do poder.
Apesar de todo o seu humor, até com um jeito pastelão, o programa tem um lado sombrio, mostrando as dificuldades que os afegãos precisam enfrentar diariamente.
Ainda asim, ele não é nem de longe tão deprimente quanto alguns gabinetes reais do governo evidenciam ser.
Recentemente, na sede de um dos menos importantes ministérios em Cabul, o vice-ministro de 30 anos, cheio de energia para fazer as coisas funcionarem, estava chateado. Às 16h, ele era praticamente a única pessoa no edifício.
"Nós temos mil pessoas que trabalham uma hora por dia", disse ele. "Como podemos fazer planos ou ter uma estratégia?"

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

De 17 a 28 de agosto, o CCBB - Centro Cultural Banco do Brasil - recebe a Mostra 20 Anos de Takashi Miike, em São Paulo. É a primeira vez no Brasil que será passada uma retrospectiva da carreira do diretor japonês, com cerca de 20 filmes de diferentes períodos de sua carreira.
Inédito no país, o drama Ichimei será exibido em versão 3D no Cinemark do Shopping Santa Cruz no dia 27 de agosto. Logo após essa exibição, um debate envolvendo os curadores do evento e Takashi está previsto. O diretor conversará, via Skype, com o público presente.
Entre os longas selecionados para a mostra, estão incluídos nomes representativos da carreira de Takashi, como Audition, Dead or Alive e Ichi The Killer, entre outros. O destaque fica para Sukiyaki Western Django, que conta com a participação de Quentin Tarantino no elenco, fã do trabalho do diretor japonês.
Mostra 20 Anos de Takashi Miike
17 a 28 de agosto
Rua Álvares Penteado, 112 - São Paulo (Centro Cultural do Banco do Brasil)
Preços: R$ 8 / R$ 4 (meia-entrada)
17/08 - Quarta-feira
15h - The Happiness of the Katakuris
17h30 - Nostalgia
19h30 - Audition
18/08 - Quinta-feira
15h - Izo
17h30 - Fudô: The New Generation
19h30 - Bird People in China
19/08 - Sexta-feira
15h - City of Lost Souls
17h30 - Imprint
19h30 - Ichi The Killer
20/08 - Sábado
13h - Nostalgia
15h - The Happiness of the Katakuris
17h30 - 13 assassins
20h - Big Bang Love
21/08 - Domingo
13h - Fudô: The New Generation
15h - Bird People in China
17h30 - City of Lost Souls
19h30 - Imprint
24/08 - Quarta-feira
15h - Great Yokai War
17h30 - Shinjuku Triad Society
19h30 - Ichi The Killer
25/08 - Quinta-feira
14h30 - Agitator
17h30 - Rainy Dog
19h30 - Dead or Alive
26/08 - Sexta-feira
15h - Shangri-la
17h30 - Ley Lines
19h30 - Sukiyaki Western Django
27/08 - Sábado
12h30 - Izo
15h - 13 assassins
17h30 - Sukiyaki Western Django
20h - Ichimei em 3-D (Cinemark Santa Cruz)
28/08 - Domingo
17h - Audition
19h30 - Big Bang Love

O chinês Liu Bolin pinta em seu corpo rótulos de bebidas para ficar "invisível" em frente à uma prateleira do supermercado, montada especialmente em seu estúdio. Liu é conhecido por tirar fotos de si mesmo pintado "imitando" o fundo em que é registrado.Sua obra, entitulada "Plasticizer" ("Plastificante"), expressa a falta de discussão em relação à adição de plástico aos alimentos, referência ao episódio ocorrido em Taiwan em maio, quando foi proibida a venda de sucos, chás e outro produtos que continham a substância DEHP, produto químico utilizado para a produção de plásticos.

domingo, 14 de agosto de 2011

CINEMA JAPONÊS RELOADED








Ai Weiwei, 54, o mais célebre artista plástico chinês, voltou a criticar o governo da China em sua conta no microblog Twitter, depois de passar quase três meses preso e ter sido libertado no final de junho.
Weiwei acusou as autoridades de manter presos, de modo ilegal, quatro colaboradores de sua empresa e submetê-los a tortura. Os quatro foram detidos junto com ele, em abril. Em outro post, o artista pediu apoio a dois ativistas presos.
Formalmente acusado de sonegação, Weiwei -um dos idealizadores do estádio olímpico Ninho de Pássaro- foi libertado após suposto acordo fiscal com o governo, sob as condições de não criticar o regime do Partido Comunista por "pelo menos um ano" e deixar de escrever no Twitter. Ele voltou a postar no microblog, porém, no último sábado.


Autoridades agrícolas japonesas disseram que a carne de mais de 500 bois, provavelmente contaminados com césio radioativo, chegou aos supermercados e restaurantes de todo o país nas últimas semanas. As autoridades do país disseram que o gado comeu feno que tinha sido deixado ao ar livre e foi exposto à radiação da usina nuclear de Fukushima Daiichi.
As revelações intensificaram os temores sobre segurança alimentar, salientando a incapacidade do governo de controlar a disseminação de material radioativo nos alimentos. O feno contaminado foi encontrado em fazendas a mais de 140 km da usina de Fukushima, sugerindo que a poluição radioativa alcançou área maior do que se previa.
Ainda assim, por causa da severa falta de equipamento de medição e de os governos continuarem sobrecarregados pelo trabalho de reconstrução, somente uma pequena porcentagem de produtos agrícolas cultivados na região é checada para radiação.
O governo suspendeu as remessas agrícolas de um raio de cerca de 19 km da usina de Fukushima, assim como de outros "pontos quentes" de radiação. Mas as fazendas fora dessas áreas, mesmo aquelas relativamente próximas à usina, enfrentaram poucas restrições quanto à distribuição de seus produtos.
Por meses, o governo hesitou em impor uma proibição mais ampla aos produtos de Fukushima, apesar de descobertas esporádicas de produtos contaminados, para não causar mais confusão na área atingida pelo desastre, deixando mais milhares de pessoas sem trabalho e aumentando os pedidos de indenização para a empresa Tokyo Electric Power.
Mas, com o aumento dos casos de contaminação, o governo está agindo para proibir a distribuição de carne da Prefeitura de Fukushima, uma área de 14,5 mil quilômetros quadrados.
As autoridades japonesas insistem que, mesmo em níveis acima do limite oficial, o césio radiativo não terá consequências imediatas para a saúde. Os efeitos em prazo mais longo são menos conhecidos. Muitos especialistas dizem que a exposição prolongada à radiação pode provocar uma maior incidência de cânceres como leucemia.
"Se você a ingerir todos os dias, pode ser um problema", disse o ministro Goshi Hosono, encarregado da questão nuclear. As autoridades que testaram o feno dado ao gado em uma fazenda em Minamisoma, na Prefeitura de Fukushima, detectaram césio radioativo 250 vezes acima do limite oficial do Japão. A carne continha quase cinco vezes o limite.
Além disso, o gado de algumas áreas com altos índices de radioatividade foi testado para radiação na superfície do couro, antes de ser enviado ao mercado, mas essas medições não avaliam de modo suficiente se o gado foi exposto à radiação internamente, ao comer ração contaminada.
Enquanto isso, as autoridades de Fukushima dizem que estão iniciando inspeções em todas as cerca de 4 mil fazendas de gado na prefeitura a fim de garantir que nenhuma esteve usando feno radioativo. Os pecuaristas foram solicitados a acatar uma nova suspensão voluntária da distribuição de carne.
Yuta Furuyama, que tem 233 cabeças de gado em Minamisoma, tem certeza de que seu rebanho está imune. Seu gado é mantido em ambiente fechado, e a ração é armazenada em sacos plásticos grossos. "Espero que, finalmente, eles intensifiquem a verificação", ele disse.
Alguns fazendeiros passaram a vender os rebanhos por preços mais baixos do que os obtidos recentemente para os produtos de Fukushima. Depois que terminou o gado em uma grande fazenda na aldeia vizinha de Iitate, Akio Takahashi foi demitido. "Acabou", disse. "Ninguém mais vai querer comer carne de Fukushima."

Os dois adolescentes se conheceram na fábrica de sorvetes onde trabalhavam, trocando olhares furtivos antes da chamada até se conhecerem melhor.
Era o começo de uma história de amor afegã, que desrespeitava as tradições dos casamentos arranjados e do intenso escrutínio familiar; um romance entre dois jovens de etnias diferentes, pondo à prova a tolerância de uma aldeia em relação aos caprichos mais modernos do coração. E as consequências vieram com velocidade brutal.
Em julho, um grupo de homens avistou os dois adolescentes juntos em um carro e os atirou na rua. Cerca de 300 pessoas enfurecidas os cercaram, exigindo que fossem mortos a pedradas ou enforcados.
Quando as autoridades intervieram e resgataram o casal, a multidão explodiu, subjugando a polícia local, incendiando carros e invadindo uma delegacia que fica a 10 km do centro de Herat.
O tumulto terminou com um homem morto, uma delegacia carbonizada e os dois adolescentes, Halima Mohammedi com seu namorado Rafi Mohammed, recolhidos a um reformatório. Oficialmente, o destino deles está nas mãos do instável Judiciário local. Mas eles enfrentam julgamentos mais severos da família e da comunidade.
Um tio de Mohammedi a visitou no reformatório para dizer que ela envergonhou a família e prometeu que os parentes a matarão quando ela for solta. Seu pai, Kher Mohammed, um analfabeto que trabalha no Irã, tristemente concordou. Ele chorou durante duas visitas à prisão juvenil, sem falar quase nada para a filha. O sangue, disse ele, talvez seja a única saída. "O que pedimos é que o governo mate os dois", afirmou.
Os adolescentes, constrangidos em falar de amor, disseram claramente que estão preparados para morrer. Mas estavam perplexos quanto às razões que podem levá-los à morte.
Mohammed, 17, disse: "Eu me sinto muito mal. Eu só rezo a Deus para que me devolva essa menina. Estou preparado para perder a minha vida. Eu só quero que ela seja libertada em segurança".
Mohammedi, que acredita também ter 17 anos, disse: "Somos todos humanos. Deus nos criou do mesmo barro.
Por que não podemos nos casar ou nos amar?".
O caso repercutiu em Herat, em parte por evocar um incidente ocorrido há cerca de um ano no norte do Afeganistão, onde um jovem casal que havia fugido de casa foi apedrejado até a morte por uma multidão -inclusive de familiares-, cumprindo ordens do Taleban. A lapidação, uma aplicação brutal da sharia (lei islâmica), foi registrada em vídeo e colocada na web meses depois. Diante da reação internacional, as autoridades afegãs prometeram investigar, mas ninguém foi indiciado pelo crime.
Em comparação a isso, a resposta imediata à violência em Herat foi animadora. Clérigos importantes se negaram a condenar o casal, e a polícia informou que cinco ou seis meninas fugiram da cidade com seus namorados e noivos nas semanas subsequentes ao tumulto.
A assembleia provincial decidiu que Mohammed e Mohammedi mereciam ter proteção do governo, pois não eram noivos de outras pessoas e manifestaram a intenção de se casar. "Eles não são criminosos, mesmo que tenham cometido atividades sexuais", disse Abdul Zahir, presidente da assembleia.
Mas, até agora, isso não bastou para libertar o casal nem para lhe assegurar proteção em longo prazo. A polícia disse que entregou o caso a promotores.
Mohammed disse que não imaginou a ira que despertaria o fato de um jovem tadjique ficar com uma menina hazara num bairro dominado por conservadores hazaras, membros de uma das muitas minorias étnicas afegãs. "É o coração", disse Mohammed. "Quando você ama alguém, não pergunta quem ou o que ela é. Você vai atrás."
Mohammed passou um mês roubando "ois" na fábrica onde os dois trabalhavam até que Mohammedi jogasse seu número de telefone aos pés dele.
Após um ano, eles decidiram que estavam fartos de esconder o namoro. Queriam se encontrar, ir ao tribunal e se casar. Mohammed convenceu um primo mais velho a levá-lo até a aldeia de Jabrail, onde ela o esperava na praça. Não haviam percorrido nem dez metros de carro quando um veículo bloqueou a passagem. Homens enfurecidos saltaram dele. A multidão agrediu o primo e surrou Mohammed até que ele desmaiasse.
O casal diz que pretende ficar junto, mas há complicações. Parentes do homem morto nos distúrbios mandaram avisar Mohammedi que a culpa é dela. Mas lhe ofereceram uma saída: caso ela se case com um dos filhos dessa família, sua dívida será perdoada.

Esta cidade que mal existia duas décadas atrás hoje tem 26 shopping centers, sete campos de golfe e lojas de luxo. Mercedes-Benz e BMW brilham nos showrooms de automóveis. Torres de apartamentos brotam como mato de concreto, e um pólo comercial futurista chamado Cyber City abriga muitas das empresas mais respeitadas do mundo.
Gurgaon, situada a cerca de 25 quilômetros ao sul da capital indiana, Nova Déli, pareceria ter tudo, exceto o que não tem: um esgoto ou sistema de drenagem do tamanho da cidade; eletricidade e água confiáveis; estacionamento adequado; ruas decentes e transporte público de amplo alcance. O lixo ainda é atirado na beira da estrada.
Gurgaon é tratada como símbolo de uma "nova" Índia em ascensão, mas também representa um enigma: como uma nova cidade pode se tornar uma locomotiva econômica internacional sem serviços públicos básicos? Como um país enorme pode flertar com um crescimento de dois dígitos apesar da corrupção generalizada, da ineficiência e da disfunção governamental?
A resposta é que o crescimento na Índia ocorre apesar do governo, e não por causa dele. A Índia e a China são muitas vezes consideradas as potências econômicas em ascensão no mundo, mas se o crescimento da China foi conduzido pelo Estado, o da Índia é impedido pelo Estado. Os líderes autoritários chineses construíram uma infraestrutura de Primeiro Mundo; a infraestrutura e a burocracia na Índia são consideradas terrivelmente superadas.
Mas, durante a última década, a Índia surgiu como uma das novas máquinas de crescimento mais importantes do mundo. Economistas preveem que a Índia se tornará a terceira maior economia do mundo dentro de 15 anos e poderá antes disso superar a China como economia de crescimento mais rápido.
Além disso, o caminho heterodoxo da Índia ilustra em escala grandiosa as lutas de muitos países menores em desenvolvimento para gerar crescimento apesar de governos fracos e ineficazes.
Na Índia, Gurgaon é o símbolo disso, conseguindo ser uma confusão total e uma locomotiva econômica, um microcosmo do dinamismo e da disfunção vistos no país.
O crescimento econômico em Gurgaon é o produto de um setor privado que improvisa para superar as inadequações do governo.
Para compensar os blecautes de eletricidade, as empresas de Gurgaon operam geradores a diesel. Não há água? Cave poços particulares. Não há transporte público? As companhias contratam ônibus e táxis. Crime? Gurgaon tem quase quatro vezes mais seguranças privados do que policiais.
Gurgaon não é uma exceção. Em Bangalore, companhias de terceirização como Infosys e Wipro transportam trabalhadores com frotas de ônibus e usam seus próprios geradores de energia. Muitos prédios de apartamentos em Mumbai, o polo financeiro do país, contam com abastecimento de água privado. E mais da metade das famílias urbanas indianas paga para mandar seus filhos a escolas privadas, em vez das escolas gratuitas do governo, cujos professores, muitas vezes, não comparecem para trabalhar.
Com 1,2 bilhão de habitantes, a Índia é a maior democracia do mundo, um laboratório para se testar até que ponto a democracia pode melhorar a vida de uma população enorme. A Índia está mais rica do que nunca. Mas seu desenvolvimento é dividido. Ela experimenta uma era dourada de novos bilionários, enquanto é marcada pela desigualdade.
Gurgaon é um dos distritos de maior crescimento da Índia, com mais de 1,5 milhão de habitantes. Ele representa quase a metade da receita do seu Estado e acrescentou 50 mil veículos às ruas no ano passado. Os valores dos imóveis aumentaram acentuadamente. A cidade tem 2,8 milhões de metros quadrados de espaço comercial, superando até Nova Déli.
Há não muito tempo, Gurgaon era um terreno baldio econômico. Foi criada em 1979 sobre um solo rochoso, sem governo local e quase sem base industrial. Mas suas desvantagens se transformaram em vantagens, nenhuma mais importante do que a ausência de um governo distrital, o que significava menos burocracia para sufocar o desenvolvimento.
O crescimento foi lento até depois de 1991, quando o governo evitou a moratória da dívida externa e começou a implantar reformas econômicas. A demanda por moradia aumentou, seguida pela busca por espaço comercial, enquanto multinacionais começavam a chegar para aproveitar a emergente indústria de terceirização. A ausência de governo local ajudou Gurgaon a se tornar líder no boom de crescimento indiano. Mas essa ausência também criou uma cidade disfuncional.
O fornecimento de água é inadequado. Ativistas dizem que o lençol freático perde 3 m por ano.
A força policial inadequada de Gurgaon é superada por esse crescimento; quase 12 mil guardas de segurança privada trabalham na cidade. Depois que uma empregada terceirizada foi atacada sexualmente, as companhias instalaram GPS em carros privados e contrataram mais guardas.
Mas a terceirização prospera em Gurgaon. No ano passado, uma importante associação industrial indiana determinou que a terceirização era responsável por cerca de 500 mil empregos na cidade.
Os críticos dizem que a corrupção é generalizada. Em Haryana, as empreiteiras fazem doações de campanha para políticos e exercem um enorme poder. "O governo pensa que o setor privado vai dar conta", disse Sanjeev Ahuja, um jornalista veterano em Gurgaon.
O novo conselho municipal de Gurgaon deveria criar uma voz política capaz de forçar ações, mas alguns moradores duvidam.
Alguns decidiram agir. Latika Thukral está envolvida na criação de um parque de biodiversidade. Ela lidera os esforços para limpar um depósito de lixo ilegal e está organizando uma campanha para plantar um milhão de árvores ainda neste verão. "Se pessoas como nós não exigirmos nossos direitos, nosso país não vai mudar", ela disse. "O ponto de virada chegou para a Índia."

Tão provocante quanto a Mulher-Maravilha, mas de um modo totalmente diferente, Batina The Hidden (Batina, a Escondida), é uma personagem da série de sucesso em quadrinhos “The 99” (Os 99) que não apenas é uma garota muçulmana do Iêmen, mas uma cujo traje escolhido para o combate ao crime é uma burca.
“A maioria dos artigos sobre o Islã atualmente envolve terrorismo, de modo que esse era meu desafio: como redefinir isso? A imprensa não apenas reflete a realidade, mas pode ajudar a mudar o curso da realidade”, disse Naif Al Mutawa, criador de “The 99”, durante um discurso no Festival Internacional de Criatividade de Cannes no mês passado. “A ideia era reposicionar o Islã não apenas para o Ocidente, mas também para os próprios muçulmanos.”
“The 99” apresenta personagens inspirados no Islã, baseados nos 99 atributos de Alá, que descobrem pedras mágicas que liberam poderes como força sobre-humana, capacidade de ler mentes e teleportar. E, no verdadeiro estilo super-herói, eles usam seus poderes para combater os bandidos.
A série em quadrinhos, que começou a ser publicada em 2007 pela Teshkeel Media Group no Kuait, é a primeira do gênero no Oriente Médio voltada para um público internacional.
Os personagens podem ter nomes muçulmanos, mas eles representam origens diversas, como Hadya the Guide (Hadya, a Guia), uma GPS humana, que é de Londres, e Bari the Healer (Bari, o Curandeiro), da África do Sul.
Neste ano, a série em quadrinhos conseguiu distribuição em sua nona língua, o francês; um parque temático foi aberto no Kuait; e acordos com a DC Comics permitiram que Superman, Batman e uma Mulher-Maravilha plenamente vestida aparecessem em “The 99”. No início do ano que vem, uma série em desenho animado baseada nos quadrinhos passará a ser exibida na América do Norte, Oriente Médio, Norte da África, partes da Europa e da Ásia e, futuramente, na Austrália.
“Quando chegar à TV, ela contará com animação da mais alta qualidade”, disse Al Mutawa, um psicólogo clínico formado em Nova York e empreendedor, em Cannes.
A ideia do cruzamento cultural é uma com a qual Al Mutawa cresceu; na infância, seus pais muçulmanos árabes conservadores o enviaram por engano para um acampamento de verão culturalmente judaico em New Hampshire, em 1975. Ele só percebeu isso depois, mas continuou frequentando por uma década. Seus cinco filhos atualmente passam seus verões lá.
Após obter um Ph.D. em psicologia clínica pela Universidade de Long Island, em Nova York, e trabalhar com sobreviventes de tortura política no Bellevue Hospital, em Nova York, ele foi para uma faculdade de administração e negócios e obteve um MBA pela Universidade de Colúmbia.
Posteriormente, ele retornou ao Kuait e flertou com alguns empreendimentos de negócios até ter a ideia de lançar uma revista em quadrinhos com super-heróis inspirados no Islã. Em poucos meses, ele levantou US$ 7 milhões junto a 54 investidores em oito países. Hoje, o projeto conta com mais de US$ 40 milhões em financiamento e está expandindo para uma série de animação.
“O conceito dele tem o potencial de mudar o mundo”, disse Elliot Polak, fundador e criador da Textappeal, uma firma britânica que fornece consultoria de marketing e propaganda transcultural para empresas globais. “O dr. Al Mutawa está trabalhando em reformulação de marca, não de um produto ou serviço, mas do Islã.”
Seu trabalho está chamando atenção. Na Cúpula Presidencial de Empreendedorismo, em abril em Washington, o presidente Barack Obama citou Al Mutawa em um discurso promovendo o diálogo inter-religioso e iniciativas transculturais.
Mesmo assim, a estrada para o sucesso “não foi só rosas”, disse Al Mutawa em Cannes. “Ocorreu um milhão de reveses.”
Ele teve que defender suas ideias contra uma proibição potencial na Arábia Saudita e uma fatwa por sábios islâmicos na Indonésia. Dentre as 50 personagens femininas da série, Batina the Hidden é apenas um dentre cinco que usam lenço de cabeça.
Em uma cena de “Wham! Bam! Islam!”, do cineasta independente Isaac Solotaroff, um documentário sobre as dificuldades e triunfos de Al Mutawa nos últimos quatro anos que será exibido pelo canal “PBS” nos Estados Unidos em 13 de novembro, uma estudante universitária indonésia, vestindo hijab, pergunta por que a personagem Soora veste um top imodesto e deixa seu cabelo descoberto.
“Eu acredito que o propósito desta revista em quadrinhos é ser contracultural”, ela diz para Al Mutawa. “Você sabe que isso é errado, então por que insiste em fazer isso?”
Al Mutawa responde contando para ela sobre um incêndio em uma escola em Riad, há dois anos, quando as meninas saíram correndo da escola sem usar lenço de cabeça, e então a polícia da moralidade as enviou de volta à escola, para que os bombeiros não as vissem vestidas de modo imodesto. As meninas morreram queimadas na escola. “A pergunta aqui é, o Islã é medido pelo comportamento, que qualquer um pode fingir rezando ou usando lenço de cabeça, ou é medido pelos valores e pela fé?” ele pergunta.
Ele então enfatiza que é perigoso dar um pequeno percentual de pessoas o controle para definir o que é e o que não é o Islã. “Isso é o que nos levará ao inferno em uma cesta, e será nossa culpa se isso acontecer, e de mais ninguém”, ele diz aos estudantes universitários no filme.
Em outra cena, Al Mutawa está na redação da revista “Sabili” na Indonésia. Os cartazes que decoram a parede dizem “Não Tema a Al Qaeda”. Enquanto Al Mutawa explica como “The 99” é inspirado no Islã, um dos sábios religiosos bate a mão na mesa e diz: “Você não pode reescrever o Islã!”
Em resposta, Al Mutawa explica que as mesmas virtudes no Islã são compartilhadas por outras religiões, e que ele não está tentando reescrever nenhuma religião.
“O dr. Al Mutawa estava no controle e se manteve perfeitamente fluente em cada um desses ambientes”, disse Solotaroff em uma entrevista nesta semana. “Ele é alguém que já passou por múltiplos mundos em toda sua vida, de modo que, como resultado, não está em seu DNA tomar partido.”
Em Cannes, Al Mutawa foi cuidadoso em acentuar que sua série em quadrinhos não é puramente islâmica e nem didática por natureza, mas sim um conceito inspirado pela religião. Ele apontou para a forma como outras culturas desenvolveram obras seculares baseadas em arquétipos religiosos –até mesmo o Superman e o Batman usam elementos narrativos extraídos da Bíblia, ele disse– mas isso ainda não ocorreu no mundo muçulmano.
“Até que ocorra, nós não seremos capazes de oferecer opiniões divergentes e promover a discussão”, ele disse. “O que as pessoas vão dizer sobre o Alcorão –que elas não gostam da fonte tipográfica? Da cor púrpura usada? Esse é um escopo muito limitado e minha tarefa é fundir ideias divergentes.”
E ele também usa as histórias em quadrinhos como meio para transmitir mensagens frescas, positivas, para os jovens da região e de todo o mundo.
Até o final de 2010, 37% da população árabe tinha menos de 14 anos, o que corresponde a aproximadamente 110 milhões de árabes pré-adolescentes, segundo dados fornecidos pela Dubai Media City, que abriga estúdios de animação. Jamal Al Sharif, seu diretor administrativo, disse que “a animação tem um propósito maior do que apenas entretenimento. A popularidade de ‘The 99’ provou que o setor de animação está prestes a dar um novo salto e abrir caminho para o cultivo de novos talentos e criatividade na região”.
Tudo isso não foi uma ideia fácil de ser vendida há alguns anos. O documentário de Solotaroff mostra cenas de como Al Mutawa, ao apresentar seu conceito aos investidores, reforçava seu argumento falando sobre um álbum de figurinhas criado por um empresário árabe, mostrando cenas sangrentas da ocupação israelense na Palestina e de homens-bomba exaltando as virtudes do martírio. O álbum de figurinhas, chamado de “Álbum da Intifada”, era vendido para milhares de crianças na Cisjordânia.
No final de uma cena, Al Mutawa diz: “Minha mensagem era muito clara para os investidores: as crianças muçulmanas precisam de novos heróis”.

Em um abrigo contra bombardeios adaptado, em uma área decadente do oeste de Jerusalém, palestinos e judeus israelenses se encontram diariamente para brigar.
A troca de socos, no entanto, geralmente termina com sorrisos e cumprimentos afetuosos. Tudo não passa de um treino no único clube de boxe que reúne na mesma equipe judeus, árabes e russos em competições.
"Isso não é guerra, mas esporte", diz Gershon Luxemburg, 66, imigrante do Uzbequistão que dirige o Jerusalem Boxing Club há 30 anos. "Jamais houve troca de insultos entre os garotos."
O mais jovem do clube tem oito anos, o mais velho já passou dos 60. E há espaço também para garotas.
"Vou contar um segredo -um dos garotos árabes está apaixonado por uma das judias", revela Luxemburg, ao responder se os palestinos e judeus se dão bem no ringue.
Ele também conta que muitos árabes vêm de carona com os judeus que vivem em colônias na região muçulmana.
"Há uma diferença entre os palestinos que combatemos, os terroristas, e as pessoas com quem convivemos", diz o soldado israelense Yehuda Luxemburg, 23.
Para o caminhoneiro palestino Ismail Jafrei, 37, o segredo da boa relação é esquecer a política. "Mesmo quando aconteciam ataques, jamais me disseram algo ruim", afirma ele.

Moad Arqoub, um estudante de graduação palestino, estava navegando na internet outro dia e encontrou um site que o surpreendeu e o atraiu. Era a página do Facebook onde israelenses, palestinos e outros árabes conversam sobre tudo ao mesmo tempo: as perspectivas de paz, é claro, mas também futebol, fotografia e música.
"Eu aderi imediatamente, pois neste momento, sem um processo de paz e com israelenses e palestinos fisicamente separados, é realmente importante interagir sem barreiras", disse Arqoub, sentado em um café ao ar livre nesta cidade palestina.
Faz quase dois anos que líderes israelenses e palestinos deixaram de negociar o futuro dos seus povos. Mas a página do Facebook surpreendeu os envolvidos pelo entusiasmo que provocou, sugerindo que as revoluções conduzidas através do Facebook na Tunísia e no Egito também podem oferecer orientação para esforços de coexistência.
Chamado Facebook.com/yalaYL, o site, criado por um ex-diplomata israelense e claramente ligado a Israel, teve 91 mil visitas em seu primeiro mês. Dos seus 22.500 usuários ativos, 60% são árabes -na maioria, palestinos, seguidos de egípcios, jordanianos, tunisianos, marroquinos, libaneses e sauditas.
"A comunicação hoje é na internet -sexo, guerra, negócios-, por que não a paz?", perguntou Uri Savir, presidente do Centro Peres para a Paz e fundador do site. Savir foi um negociador da paz para Israel nos anos 1990.
"Hoje, não temos líderes corajosos em nenhum dos lados, por isso estou recorrendo a uma nova geração, a geração do Facebook e da Praça Tahrir", disse Savir, 58.
O YL no nome do site significa "young leaders" (jovens líderes). "Yala" significa "vamos" em árabe. Savir disse que vê a página como um lugar onde a próxima geração de inovadores regionais pode se encontrar. A página recebeu mensagens de Shimon Peres, o presidente de Israel, e Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, assim como de Tony Blair, o ex-primeiro-ministro britânico, que serve como enviado internacional dos palestinos.
No site, árabes e israelenses falam abertamente sobre seu desejo de saber mais uns sobre os outros.
"Esse é o meu primeiro contato com israelenses", disse Lyth Sharif, um estudante palestino de 18 anos na Universidade Birzeit, na Cisjordânia. "Faz com que eu compreenda a diferença entre Israel e ocupação."
Hamze Awawde, estudante de 21 anos aqui em Ramallah, disse que recebeu pedidos de amizade no Yala de Marrocos e do Egito. "Eu perguntei a um egípcio por que ele tinha me contatado e por que estava participando disso, e ele disse: 'Depois da revolução, tudo é permitido. Eu quero ver como são os israelenses'."
Nimrod Ben Ze'ev, um estudante de 25 anos de estudos do Oriente Médio na Universidade de Tel Aviv, disse que grande parte da interação no site ainda é estranha, mas ele é otimista.
"O que é ótimo é que as discussões não são mediadas -somos pessoas de 15 a 30 anos conversando", ele disse. "Não falamos sobre uma solução de dois Estados ou de um Estado, mas sobre ser jovem em Israel ou na Palestina. Obviamente, nossas experiências são muito diferentes, mas temos uma frustração comum sobre as grandes potências que nos restringem. Isso é mútuo."

"Se qualquer um pudesse ser um fuzileiro naval, eu jamais teria entrado." Esse é o lema do Corpo de Fuzileiros Navais da Coreia do Sul, revelador do sentimento dessa força sobre sua posição de elite; é uma afirmação corajosa em um país onde a maioria dos homens capazes presta serviço militar obrigatório.
Hoje em dia, porém, esse tipo de orgulho dos fuzileiros e a disciplina dos militares sul-coreanos em geral estão sendo analisados sob um ângulo desfavorável.
Em junho passado, alguns fuzileiros dispararam seus rifles contra um avião de passageiros que se aproximava do aeroporto de Seul, confundindo-o com uma aeronave norte-coreana, em um episódio que levantou dúvidas sobre o treinamento e o preparo dos fuzileiros (eles não atingiram o avião).
Mas episódios muito diferentes se revelaram ainda mais perturbadores para os sul-coreanos.
Em 4 de julho, um cabo dos fuzileiros, que, segundo investigadores foi vítima de prepotência em seu quartel, saiu disparando, matou quatro fuzileiros e feriu um quinto. Em 10 de julho, um fuzileiro se enforcou. Foram encontrados hematomas em seu peito, possivelmente de uma surra anterior. Quatro dias depois, um sargento também se matou.
Esses episódios e outros semelhantes no Exército amplificaram um problema que atinge os 650 mil militares da Coreia do Sul, uma força que se destina a deter agressões da Coreia do Norte. Cada vez mais, as fileiras militares estão cheias de jovens que não experimentaram a guerra e não consideram mais seu serviço obrigatório de 21 meses um "dever sagrado", como faziam seus pais, mas uma interrupção inconveniente de suas vidas e carreiras civis.
Muitos jovens soldados e fuzileiros não estão dispostos a aceitar o tratamento duro há muito tempo tolerado e até incentivado como uma maneira de enrijecer os homens para a batalha.
O Ministério da Defesa anunciou uma repressão às agressões e aos outros abusos. O sistema é especialmente duro no Corpo de Fuzileiros Navais, cujos membros respeitam uma ordem hierárquica baseada no tempo de serviço -uma nova classe chega a cada duas semanas.
Muitos ex-fuzileiros lembram com temor do cabo de picareta de 2 quilos usado por fuzileiros mais velhos como instrumento de correção preferido.
"Você obedece os fuzileiros de uma classe anterior como se fossem deuses", disse Kim Jong-ryeol, um ex-fuzileiro de 51 anos, em Seul. "É isso que faz os fuzileiros passarem por uma chuva de balas na guerra. O que estão tentando fazer é matar a alma dos fuzileiros".
A iniciativa para modificar a vida militar tem implicações mais amplas. Como quase todos são veteranos, o código de ética que praticam nos serviços tende a influenciar a vida civil. Empresas e instituições da Coreia do Sul realizam projetos com rapidez e eficiência, segundo muitos, por causa do sistema de não questionar ordens e respeitar os superiores.
Mas analistas também culparam essa cultura por sufocar a iniciativa individual, incentivar a tolerância à violência física na escola e em casa e encorajar as pessoas nas empresas ou no governo a ignorar a corrupção.
Para o soldado Chung Joon-hyok, que sentiu essa atração, a decisão se mostrou trágica. O jovem interrompeu seus estudos e começou a se exercitar meses antes de se alistar, para garantir que se qualificaria para fuzileiro naval, disse seu pai.
Agora, ele está preso, acusado de conspirar com o cabo acusado do tiroteio de 4 de julho para se vingar de fuzileiros que, segundo eles, os assediaram.
"Sinto muito pelos rapazes que foram mortos", disse a mãe do soldado Chung, Lee Myong-soon, 45. "Mas acho que meu filho também é uma vítima. Espero que seja uma oportunidade para os militares porem fim a suas práticas malignas."