sábado, 19 de maio de 2012

Não é um veneno ou um punhal que tira a vida dos jovens amantes, mas um homem-bomba. Os Montague e os Capuleto são divididos não apenas pela família, mas pela seita religiosa. E o diálogo na adaptação iraquiana de "Romeu e Julieta" é salpicado de referências aos iranianos e ao esforço de reconstrução americano. Depois de uma recente apresentação aqui no Teatro Nacional, onde as artes dramáticas já foram degradadas para servir à propaganda do ditador Saddam Hussein, o público saiu comentando sobre a volta da arte clássica à capital iraquiana. "Foi sobre a nossa realidade, a matança que aconteceu entre os sunitas e os xiitas", disse Senan Saadi, um estudante universitário que estava na plateia. A matança ainda acontece, é claro. Na manhã seguinte ao espetáculo, ouviram-se explosões em Bagdá. No fim do dia, uma série de ataques em todo o país havia deixado quase três dúzias de mortos. Então o elenco da peça, incluindo atores veteranos iraquianos e jovens esperançosos, se preparava para partir para o Festival Mundial de Shakespeare em Stratford-upon-Avon, a terra natal de William Shakespeare. O festival começou em 23 de abril e vai até novembro. "Romeu e Julieta em Bagdá" estreou em 26 de abril para uma temporada de dez dias, como parte do programa cultural ligado à Olimpíada de Londres. Sua trama, sobre um caso de amor condenado, entre membros de seitas diferentes, consegue tocar quase todos os elementos da experiência coletiva iraquiana. A peça provocou muitas risadas -com o personagem bufão da rede Al Qaeda em um colete carregado de explosivos, que é Páris, o pretendente fracassado de Julieta no original de Shakespeare- e também muitas lágrimas, o que talvez seja um pequeno sinal de que a sociedade iraquiana começa a se reconciliar com o trauma da guerra. "Romeu não vê Julieta durante nove anos", explicou Monadhil Daood, um famoso ator e dramaturgo iraquiano que dirige a peça e passou dois anos escrevendo o roteiro. "Em seu primeiro encontro eles falam sobre o conflito entre sunitas e xiitas." "Minha mensagem é que o amor é maior que o conflito entre as famílias", disse Daood. Sarwa Malik, 23, interpreta Julieta, que é sunita. Malik é xiita e curda e se baseou em sua própria experiência. Três anos atrás, quando estava na faculdade, ela se apaixonou por um rapaz sunita. Sua família era rica e a dele não. Eles se encontravam no campus e trocavam cartas. Hoje estão casados. "Há muitos homens e mulheres, garotas e rapazes, que estão apaixonados e não podem ficar juntos", disse. "Eu fui um desses casos. Se eles realmente se amam, têm de romper essas barreiras."

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