sábado, 11 de agosto de 2012

Em uma mão o fuzil e na outra o celular. Esta é a guerra em que não há soldado que não registre a batalha, às vezes como prova de sua coragem e outras com um fim mais prático: pôr as imagens a serviço da propaganda. Quando o Exército Livre da Síria tomou uma escola em Allepo e a transformou em seu quartel-general, há mais de três semanas, instalou em uma das salas vários computadores e uma conexão com a Internet. A sala recebeu o ambicioso nome de centro de imprensa, embora na verdade nunca tenha passado de ser o lugar de onde se emitia a propaganda. Se alguém quisesse enviar uma crônica dali, era preciso esperar que um grupo de jovens montasse as imagens da batalha e as colocassem na rede. "Estão muito ocupados", dizia um dos porta-vozes de imprensa, "enquanto não terminarem vocês não poderão se conectar." Alguns milicianos que haviam gravado as imagens dos combates eram tratados como heróis, quase com o mesmo prestígio que os que destruíram um tanque. Os vídeos lhes servem para animar os seus e a população. Também para ganhar a guerra psicológica. Trata-se de divulgar entre a população que a batalha vai se decantando claramente por um dos lados. No lado rebelde, as notícias de cada tanque destruído, cada prisioneiro, cada novo bairro conquistado são divulgadas sem importar que as imagens sejam descarnadas ou se estas caírem nas mãos de crianças. Elas fazem parte da guerra. Gritam com os rebeldes "Alahu akbar" (Deus é o maior) quando estes fazem prisioneiros, acompanham seus pais nas manifestações, participam dos funerais dos mártires e morrem nos bombardeios. Em uma residência de Kilis, o primeiro povoado turco que se encontra ao sair da Síria pela fronteira mais próxima de Allepo, um menino assiste a um vídeo na tela de seu computador portátil. A casa é habitada por um militar do exército sírio que desertou com sua família. O rapaz olha várias vezes para as imagens e as mostra a quem quiser vê-las, com um sorriso. Na tela, há todo tipo de atrocidade: rebeldes atirando; os resultados desses tiros, cadáveres destroçados no solo... "É a Síria", diz o menino, apontando para a tela, onde agora se veem alguns homens enforcados. Na realidade é o México. O rapaz sente uma decepção ao perceber. A guerra na Síria, assim como aconteceu antes na Líbia, está deixando uma série de imagens brutais que não saem nos jornais, mas circulam pelas redes sociais. Seu conteúdo é divulgado às vezes para mostrar como o outro lado é selvagem, mas também para reivindicar e difundir o que se consideram façanhas bélicas. Em Marea, a 32 quilômetros da cidade sitiada de Allepo, outro menino mostrava há alguns dias a execução de Zino Berri, o chefe do clã dos Berri. Os rebeldes o consideravam o líder de um grupo dos temidos "shabiha", mercenários a serviço do regime de Bashar Assad, e decidiram liquidá-lo na mesma escola onde se aquartelavam. As imagens são chocantes e mostram um homem mais velho perseguido e agredido, primeiro, e depois executado. Não há cortes; é toda uma sequência que ainda parece mais brutal no telefone celular de um menino que grita a todo instante: "Berri, Berri!" Na realidade, o celular é de seu pai, que se empenha em passar o vídeo várias vezes como se se tratasse de um suvenir.

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