O dia começa aqui com o chamado à oração e termina com o som de disparos. A sociedade pluralista da Síria, que antes se ergueu acima da identidade sectária em uma região frequentemente caracterizada pela afirmação homicida da crença religiosa, agora se vê diante da desintegração civil e limpeza étnica. Em Bab Touma, um bairro cristão da cidade velha, as mansões otomanas magnificamente restauradas abrigam muitos dos hotéis que, enquanto há apenas dois anos estavam tomados por turistas ocidentais, agora se tornaram refúgios temporários para as minorias sírias fugindo de suas casas e cidades. Um médico cristão de origem palestina, acomodado com sua família de quatro pessoas em um pequeno quarto em um dos hotéis, estava procurando um modo de sair do país: "Meu pai veio para a Síria como refugiado", ele me disse. "Ela se tornou meu lar. Agora vou ter que desenraizar meus dois filhos pequenos." Sua casa, em Midan, no sul de Damasco, foi atacada durante uma batalha intensa na semana passada entre o Exército Livre Sírio de oposição e as forças do governo. Midan agora é oficialmente uma área segura, mas ninguém acredita que a paz durará. Os 2,3 milhões de cristãos da Síria, que constituem cerca de 10% da população do país, costumavam ter uma existência mais privilegiada sob a dinastia Assad do que até mesmo a seita xiita alauita à qual pertence o presidente Bashar Assad. Mas a fidelidade deles a Assad nunca foi absoluta. Alguns cristãos pediram abertamente por mudança política nos primeiros meses do levante antigoverno. Mas à medida que a rebelião foi infiltrada por militantes muçulmanos sunitas com simpatia ou afiliados à Al Qaeda, os cristãos recuaram. Um sírio frequentador de igreja me disse que costumava ver a si mesmo apenas como "sírio" e que a identidade religiosa, em termos políticos, era uma ideia que nunca lhe ocorreu –até uma gangue da oposição ter atacado sua família no início deste ano, em Homs. "É um rótulo que colocaram em nós", ele disse. "Se a revolução deles é para todos, como continuam insistindo, por que os cristãos estão sendo visados? É porque o que buscam não é a luta pela liberdade, e certamente não é para todos." À medida que armas e dinheiro sauditas reforçam a oposição, os 80 mil cristãos que foram removidos de suas casas em Hamidiya e Bustan al Diwan, na província de Homs, em março pelo Exército Livre Sírio, gradualmente abandonaram a perspectiva de algum dia voltar para casa. A conduta dos rebeldes levou ao menos alguns muçulmanos sunitas que apoiavam os rebeldes e alguns sírios antes indecisos a renovarem sua lealdade a Assad. Muitos que antes viam o regime como uma cleptocracia agora o veem como o melhor protetor do pluralismo ameaçado da Síria.
Um comerciante muçulmano sunita no bairro pobre de Set Zaynab, que foi parcialmente destruído nos confrontos da semana passada, não mais apoia a rebelião. "Eu queria a saída de Assad porque ele é corrupto", ele disse. "Mas o que aconteceu aqui, o que eles fizeram, me assustou, me deixou furioso. Eu não posso apoiar o assassinato de meus vizinhos em nome da mudança. Você não pode promover democracia matando pessoas inocentes ou incendiando os templos dos xiitas. Sírios não fazem isso. Isso é obra dos wahabistas da Arábia Saudita", ele acrescentou, se referindo à seita muçulmana sunita ultraconservadora. Tentativas repetidas pelos combatentes do Exército Livre Sírio de destruir um templo para Sayyida Zeinab, a neta do Profeta Maomé reverenciada pelos xiitas, ainda não fizeram os muçulmanos sunitas da área fugirem -muitos xiitas aqui se recusam a culpar seus vizinhos muçulmanos sunitas pelos crimes dos rebeldes.



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